Para tirar o País da recessão e disciplinar as contas públicas, a presidente Dilma adota o receituário do PSDB, que tanto criticou na campanha, e anuncia uma composição ministerial com jeito de oposição
Izabelle Torres (izabelle@istoe.com.br)
Se os símbolos
dos partidos políticos retratassem as posições das legendas e dos seus
principais representantes, a estrela do PT no segundo mandato de Dilma
Rousseff poderia ganhar um bico tucano, símbolo maior do PSDB. Mesmo sob
os protestos do seu partido e de aliados fisiológicos, Dilma dá aos
primeiros contornos do seu próximo governo uma aparência semelhante ao
que seus opositores defenderam durante a eleição. A explicação para a
mudança de rumo é simples: a presidente precisa tirar o País do atoleiro
em que se encontra. E o sucesso do próximo mandato depende diretamente
da retomada do crescimento e do controle dos gastos públicos, que andam
desgovernados. Para fazer isso, foi preciso assumir, mesmo que a
contragosto, que ela e sua equipe econômica erraram muito nos últimos
anos. Ao reconhecer que algumas das propostas defendidas pelo adversário
Aécio Neves (PSDB) durante a campanha eram mesmo vitais para a correção
de rota, ficou difícil para Dilma fugir de uma composição ministerial
com jeito de oposição e se livrar da acusação de ter cometido
estelionato eleitoral.
CARTILHA COM PENA E BICO
Joaquim Levy, anunciado como novo ministro da Fazenda, é ligado
aos tucanos e um dos defensores do controle fiscal
e do arrocho das contas públicas
Na última quinta-feira 27, a presidente
confirmou as expectativas que rondavam o mercado há algumas semanas e
oficializou sua nova equipe econômica. Em uma tentativa de reconstruir
suas relações com investidores e grandes empresários, escolheu o
economista Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda. O novo ministro é
ligado aos tucanos e participou do governo de Fernando Henrique Cardoso
(PSDB). Ele defende, sem subterfúgios, rigor no controle fiscal e
arrocho das contas públicas, propostas que Dilma demonizou durante a
campanha.
As ironias que envolvem a escolha não param
por aí. Levy mantém relações próximas com Aécio Neves e segue a mesma
linha do amigo Armínio Fraga, o economista que montou o plano de governo
da área para o PSDB na última eleição. Durante a campanha, Dilma
atribuiu a Fraga uma futura culpa pela recessão ou pela falta de comida e
emprego para os brasileiros de baixa renda, em um eventual governo
tucano. A opção por um ministro alinhado com o grupo do seu maior
adversário causou estranheza. “É uma decisão da presidente. É um quadro
qualificado, com quem tenho uma relação pessoal. Mas fico com uma
expressão usada hoje pelo ministro Armínio Fraga: a indicação de Joaquim
Levy é comparável a um grande quadro da CIA ser convidado para comandar
a KGB.”
A inclinação de Dilma em direção às ideias
da oposição, que ela combateu durante a campanha, ficou evidente também
em relação aos juros. A presidente repetiu diversas vezes que as
propostas econômicas do PSDB, e a promessa de perseguir o controle da
inflação, iriam causar o aumento dos juros e provocar recessão e
desemprego. Seus programas e seus discursos demonstravam que essas
propostas estavam distantes dos planos do PT. No dia seguinte ao
resultado do segundo turno da eleição, no entanto, ela anunciou o
reajuste dos combustíveis. Dois dias depois, o Banco Central aumentou as
taxas de juros para 11,25%, o maior patamar em três anos. A decisão
pegou o mercado de surpresa e evidenciou quão pouco valiam as promessas
eleitorais da presidente.
Embora a repercussão da escolha do novo
ministro da Fazenda alinhado com as metas fiscais e o controle das
contas desperte certo otimismo, ainda há um clima de desconfiança em
relação à postura de Dilma, que sempre tentou comandar a política
econômica ditando as regras pessoalmente. Agora, Levy assume com a
promessa de independência e carta-branca para tomar o rumo de uma
sonhada – e ainda improvável – guinada na economia. Em sua primeira
aparição pública depois da confirmação de seu nome, Levy, acompanhado do
escolhido para o Planejamento, Nelson Barbosa, e de Alexandre Tombini,
que fica no Banco Central, deixou claro que é ortodoxo e que vai
trabalhar para restabelecer o superávit primário nas contas públicas e
atingir uma economia de 1,2% do PIB em 2015. “Alcançar essas metas será
fundamental para um aumento da confiança e criará bases para a retomada
do crescimento da economia e da evolução dos avanços sociais”, disse
Levy.
Em muitos aspectos manifestados depois do
resultado das urnas, a presidente reeleita parece outra pessoa. Antes,
ela se armava com números – muitas vezes equivocados – sobre a economia,
adotava um discurso repetitivo de que não havia descontrole de gastos e
que a inflação a 6,5% estava controlada. Agora, sua nova equipe
econômica vai promover cortes, trabalhar para puxar a inflação para a
meta de 4,5% e adotar as medidas impopulares que a então candidata
tantas vezes, em tom de ameaça de quem previa o caos, disse que seus
adversários adotariam. Ao escalar seu time, Dilma mostrou que ficou
impossível continuar atuando como a personagem que tem o controle de um
País próspero, à imagem e semelhança do que era mostrado nos programas
eleitorais elaborados pelo marqueteiro de campanha, João Santana.
TENSÃO NO CAMPO PETISTA
Ao convidar Kátia Abreu, um símbolo do ruralismo e dos grandes latifúndios,
para comandar o Ministério da Agricultura, Dilma bate de frente com o PT
As contradições entre o discurso de Dilma e
do seu partido e as primeiras medidas que ela adotou depois de eleita
despertaram reações em diversos setores que a apoiaram. Um manifesto com
mais de 4.500 assinaturas de petistas resume a insatisfação. O texto
afirma que é preciso manter a coerência e obedecer ao projeto de governo
apresentado durante a eleição. Um dos articuladores do manifesto, o
economista Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp) e conselheiro econômico da presidente Dilma, resume o
sentimento de quem assina o documento. “O problema é que o projeto de
governo que ganhou não vingou. Então, Dilma terminou comprando a versão
da política e da economia que os adversários diziam que era a correta.
Não vejo isso como um bom sinal. A sociedade não deve ser surpreendida
com mudanças nos programas depois das eleições”, opina o economista.
As recentes decisões da presidente Dilma e
suas escolhas afinadas com a cartilha da oposição irritaram petistas de
todas as correntes. No partido, o sentimento é de que a presidente que
assume o segundo mandato segue com o antigo defeito de não dialogar
antes de decidir e ignorar as posições do PT sobre diversos assuntos. A
incapacidade da presidente de ouvir aliados foi um dos principais
empecilhos para a consolidação de alianças em torno do projeto de
reeleição. Dilma sofreu resistências dentro do próprio partido e foi
obrigada a prometer uma mudança de postura. Coisa que petistas
experientes reclamam que não está acontecendo.
Mesmo diante da insatisfação generalizada,
poucos militantes de peso admitem publicamente as críticas que fazem nos
bastidores à presidente. Raros são os militantes históricos e
influentes que levantam a cabeça para marcar posição de resistência às
mudanças do segundo mandato. Ex-dirigente nacional, Valter Pomar é um
bom exemplo dessa dualidade. Líder da corrente Articulação de Esquerda,
ele assina o manifesto em defesa da coerência da presidente reeleita e
do respeito ao programa do partido, mas concede: “Dadas a relação de
forças no Congresso, as debilidades da esquerda e dos setores populares,
para não falar de certas dificuldades estruturais, sabemos que não há
condições de fazermos o governo dos nossos sonhos”, diz Pomar. “O que
não pode acontecer é acharmos que esta situação difícil é imutável. Para
evitar isso, o governo deve ajudar a democratizar a comunicação, ajudar
a luta pela reforma política e fazer tudo o que estiver ao seu alcance
para manter e melhorar a vida material e cultural da classe
trabalhadora”, acrescenta. Pomar agora tem a expectativa de que, depois
da escolha da equipe econômica, Dilma nomeie ministros que sinalizem na
direção de suas preocupações.
A revolta dos apoiadores de Dilma com a
guinada ensaiada para os próximos meses se espalha por outros setores.
Na Agricultura, por exemplo, a presidente promove uma incrível coleção
de posições divergentes. Em agosto, quando estava em plena campanha, a
então candidata participou de uma sabatina na Confederação Nacional da
Agricultura (CNA). Diante de uma plateia lotada de grandes ruralistas e
representantes de peso do agronegócio, Dilma não causou entusiasmo com
seu discurso. Ela prometeu trabalhar pela “classe média rural” e afirmou
que a proposta pleiteada por empresários sobre regulamentação dos
contratos terceirizados deveria ser amplamente debatida com
trabalhadores. A frieza com que os ruralistas receberam o discurso de
Dilma contrastou, dias depois, com o entusiasmo que eles demonstraram na
recepção ao candidato Aécio Neves. O tucano foi ovacionado ao defender a
proposta de criar um superministério na área e repetir que o
agronegócio precisava ter espaço no governo proporcional ao seu tamanho e
importância.
Para quem assistiu ao duelo eleitoral,
parecia que o cenário era de ideologias partidárias. Dilma, do PT,
defendia os ruralistas e suas reivindicações com a cautela de quem
representava um partido de esquerda, historicamente ligado a movimentos
sociais e às minorias. Às vésperas de anunciar seu novo ministério, o
cenário mudou. Dilma se prepara para enfrentar seus aliados e apoiadores
por nomear como ministra da Agricultura a senadora Kátia Abreu
(PMDB-TO). A parlamentar é uma grande produtora rural, preside a CNA e é
adversária histórica de entidades ambientalistas e dos movimentos
sociais que lutam por terras. Ao convidar um símbolo do ruralismo e dos
grandes latifúndios, Dilma ignora os apelos do PT e abre espaço para os
pleitos da categoria, que antes ela parecia não apoiar. A indicação
aumenta, além disso, o clima tenso entre PT e PMDB, que tem na pasta da
Agricultura um dos seus feudos e na senadora do Tocantins – neófita no
partido – uma concorrente pelo comando da pasta.
Ao se aproximar dos ruralistas nos moldes
do que prometeu fazer o PSDB, Dilma deixou em alerta entidades e
instituições historicamente aliadas ao PT. Quando percebeu as
resistências que se formam nos mais diferentes setores, ela recebeu um
grupo de intelectuais no Planalto durante duas horas na semana passada.
Ouviu as críticas sem muita paciência, mas prometeu não abandonar as
diretrizes que seu partido e aliados defendem. O problema é que a
governabilidade construída por ela depende diretamente das forças
antagônicas que deram respaldo à sua reeleição. O preço dessas alianças
começa a pesar nas costas da presidente e as pressões para manter-se
coerente já não surtem efeitos. Ao estilo Dilma, a presidente deixa de
lado diretrizes das propostas e das ideias que defendeu ao longo da
campanha sem fornecer explicações. Reeleita, dá sinais de que simpatiza
com a cartilha tucana – ou de que pelo menos se convenceu de que o
receituário do PSDB, tão criticado por ela na campanha, é o melhor
caminho agora – e que seu segundo mandato terá menos a cara do PT. A
tucanização do PT pode ser a receita para evitar um novo fiasco. O
problema é se os próprios eleitores de Dilma começarem a pensar que, se
era para copiar o ideário tucano, teria sido melhor ter escolhido o
original, e não a imitação. O raciocínio faz todo sentido.
Montagem sobre fotos de Adriano Machado/Agência Istoé
Fotos: Antonio Cruz/ABr, Camila Fontana/Editora Globo; FOLHAPRESS
Fotos: Antonio Cruz/ABr, Camila Fontana/Editora Globo; FOLHAPRESS
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