Como o ex-diretor da Petrobras Renato Duque, depois de descoberto por Silvinho Pereira e chancelado por José Dirceu, ascendeu da modesta gerência de contratos para o comando de obras faraônicas na estatal e conseguiu acumular riqueza
Claudio Dantas Sequeira, Josie Jeronimo, Rogério Daflon
A cobertura
suntuosa em endereço nobre na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, foi
decorada por um badalado escritório de arquitetura. Paredes e tetos
receberam revestimentos de altíssimo nível. Cômodos foram preenchidos
por móveis assinados e objetos de arte – algumas telas de jovens
pintores em ascensão. Quando a reforma terminou, os amigos mais próximos
improvisaram um trocadilho elogioso. “Duque, agora você tem o seu
palácio!”. A ostentação incomodou os vizinhos, que tentaram embargar a
obra diversas vezes, acusando-o de violar as leis do condomínio e da
prefeitura. Renato Duque deu de ombros. “Sou dono do prédio”, disse. E
não estava mentindo. O edifício onde mora foi ele mesmo que ergueu.
Associou-se a uma desconhecida construtora chamada Fercon, executou a
obra e depois cobriu parte do custo com a venda de um dos apartamentos.
Outros dois ele doou para as filhas. Sua cobertura duplex vale hoje R$
4,5 milhões, mas o preço vai subir quando chegar o metrô, que acoplará
esse pedaço da Barra à zona sul carioca.
AMBICIOSO
O estilo de Renato Duque à frente da diretoria de Serviços da Petrobras
agradou a seus padrinhos políticos, para quem obras caras
eram sinônimo de gordas propinas
O crescimento patrimonial de Duque se
estende à família. O filho comprou recentemente um imóvel ao lado e nem
precisou vender o que havia ganho do pai no Canal de Marapendi, a uns
seis quilômetros dali. O ex-diretor da Petrobras também não se desfez do
apartamento em que morava na Tijuca, bairro de classe média. Adquiriu
duas lojas comerciais de alto padrão e construiu uma casa de veraneio em
Penedo, cidade turística de colonização finlandesa. Também investiu na
compra de dólares e joias. Tudo isso, somado aos R$ 3,2 milhões
bloqueados pelo Banco Central em suas contas bancárias indicaria que o
patrimônio de Duque hoje superaria facilmente os R$ 15 milhões. Sem
contar as somas oriundas de propinas recebidas de contratos da Petrobras
que teriam sido depositadas em contas na Suíça. Os delegados da PF
ensaiam um raciocínio que encontra respaldo na lógica financeira do
crime: se o gerente abaixo de Duque, Pedro Barusco, se comprometeu a
devolver R$ 250 milhões, imagina quanto o chefe dele conseguiu acumular.
“O Duque não vai poder se calar porque vai ter que explicar a riqueza
que ele amealhou”, disse o juiz Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato.
Renato de Souza Duque era um homem maduro,
na casa dos 48 anos, quando o PT chegou ao governo, em 2003. Natural de
Cruzeiro (SP), fez a vida no Rio de Janeiro. Formou-se engenheiro pela
Universidade Federal Fluminense (UFF) e entrou para os quadros da
Petrobras em 1978. Foi gerente de plataformas flutuantes, depois
superintendente de perfurações na Bacia de Campos, gerente de contratos
de perfuração e ainda de recursos humanos da área de exploração e
produção. Também gerenciou a divisão de engenharia e tecnologia de
poços, retornando em seguida para a gerência de contratos.
IMAGINA O CHEFE
Pedro Barusco, gerente subordinado a Duque,
se comprometeu a devolver R$ 250 milhões
Em 2003, já era engenheiro sênior da
companhia quando foi descoberto pelo então secretário-geral do PT Silvio
Pereira. “Silvinho Land Rover” fora escalado pelo então ministro-chefe
da Casa Civil, José Dirceu, para encontrar um funcionário de carreira
“inteligente e discreto”, e acima de tudo fiel, capaz de assumir a mais
estratégica diretoria da estatal. Duque se enquandrava no perfil. Pai de
família, homem de poucas palavras, metódico, ambicioso e com enorme
capacidade de trabalho. Afinal, a Diretoria de Serviços era composta por
seis áreas, respondendo tanto pela assistência médica dos empregados e
por rodar a folha de pagamento como pelas pesquisas, toda a área de
tecnologia da informação e telecomunicações, assim como pelo
cadastramento de fornecedores, a compra de equipamentos e a condução de
grandes empreendimentos da companhia, sejam plataformas, sejam
refinarias ou gasodutos.
Os colegas da Associação dos Engenheiros da
Petrobras (Aepet), entidade de classe que frequentava, se surpreenderam
com a ascensão de Duque. Da modesta gerência de contratos ele saltou
para o comando de obras faraônicas, com o poder de fechar e pagar
contratos e negociar diretamente com executivos de grandes empreiteiras.
E nunca se fez tanta obra e se fechou tanto contrato bilionário. O
crescimento da demanda por energia e de materiais refinados levou a
Petrobras a redesenhar sua estratégia de produção, colocando em prática
um amplo plano de investimentos. Duque era o cara certo, no lugar certo,
na hora perfeita.
PATRIMÔNIO
A cobertura duplex de Renato Duque na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro,
está orçada hoje em R$ 4,5 milhões
Ainda em 2003, ele tentou emplacar, a
pedido da Odebrecht, obra de um gasoduto para levar a produção do Rio de
Janeiro para Ilhabela (SP). O empreendimento orçado em R$ 5 bilhões foi
vetado, pois a utilização de navios para transportar a produção era
menos onerosa. Mas o estilo ambicioso de Duque agradou a seus padrinhos
políticos, para quem obras caras eram sinônimo de gordas propinas ou
“comissões”, como eles gostam de dizer. Assim, em pouco tempo, ele se
tornou, nas palavras de companheiros de firma, o “arrecadador mor” do PT
no esquema da Petrobras.
A atuação de Duque na companhia ganhou
cores novas com a parceria de Pedro Barusco. Diferentemente do diretor,
que nessa época ainda não pensava em morar na Barra e cultivava o futsal
com amigos num clube de Laranjeiras, Barusco era espalhafatoso e
adorava ostentar, mesmo que sua conta bancária ainda não sustentasse o
estilo de vida de xeique árabe. Colegas contam que o recém-nomeado
gerente de Engenharia, morador de Joatinga, um minúsculo e
valorizadíssimo bairro carioca, entre São Conrado e Barra da Tijuca,
levava tacos de golfe para as reuniões de trabalho na estatal. Entre uma
planilha e outra, exibia-se contando quanto havia custado o novo
passatempo. Mas o jeito, digamos assim, mais extrovertido de Barusco
harmonizava bem com a seriedade de Duque, numa estratégia eficaz para
cultivar sócios e abrir novas frentes de negócios. O gerente era o
“relações-públicas” da parte que cabia ao PT no esquema e Duque o
responsável por criar métodos de arrecadação sem despertar grandes
suspeitas.
Tinham contato diário, pessoalmente ou por
telefone. Viajavam para o o exterior para visitar obras ou estaleiros em
Cingapura, Coreia do Sul, Japão, China. Tornaram-se unha e carne.
Apesar da relação estreita, Duque e Barusco mantinham a relação no
estrito campo profissional. Não se frequentavam socialmente. Por outro
lado, Duque tornou-se grande amigo de João Vaccari Neto, o tesoureiro do
PT. “Tivemos uma empatia”, disse à PF. Passaram a jantar em
restaurantes chiques de São Paulo e do Rio de Janeiro. Vaccari abriu os
olhos do diretor para os prazeres efêmeros da vida.
O divisor de águas apontado por gerentes da
Petrobras na estratégia de onerar obras e transformar aditivos em
propina foi a modificação do método de seleção das empreiteiras. Antes, a
companhia formulava os projetos básicos das obras que lançaria em
editais. Assim, as empresas só poderiam apresentar propostas com preços
unitários para concorrer. Duque reformulou o procedimento. Entregou às
empreiteiras o direito de apresentar o projeto que melhor caberia, só
após a seleção. Com isso, abriu a porta para bilhões em aditivos. A
satisfação do PT com os serviços prestados por Duque era tamanha que em
março de 2010 o deputado estadual Gilberto Palmares (PT-RJ) decidiu
fazer uma homenagem formal ao diretor. Usou sua influência de
parlamentar para encaminhar uma honraria a Duque. Concedeu ao engenheiro
o título de cidadão do Rio de Janeiro, em solenidade na Assembleia
Legislativa do Estado.
O reinado durou até fevereiro de 2012,
quando Graça Foster assumiu a presidência da companhia. Ele aproveitou a
oportunidade para deixar a estatal. Os padrinhos de Duque ainda
tentaram emplacar um sucessor, mas a nova presidente insistiu em
escolher o substituto. Richard Olm foi o escolhido. Barusco saiu antes,
em 2011, para integrar a direção da Sete Brasil ao lado de João Carlos
Ferraz, gerente financeiro da Petrobras e homem de confiança de Almir
Barbassa, diretor financeiro da Petrobras. A Sete foi a primeira empresa
brasileira dona de sondas de exploração capazes de operar no pré-sal e
as alugava para a Petrobras.
Duque abriu sua consultoria e entrou para a
lista de investigados do esquema desbaratado pela Lava Jato após o
depoimento de delação premiada de um ex-colega, o ex-diretor da
Petrobras Paulo Roberto Costa. O delator afirmou que Duque recebia
propinas de empreiteiras, para facilitar contratos. A versão foi
detalhada pelos executivos da Toyo Julio Camargo e Augusto Mendonça, que
denunciaram o pagamento de R$ 50 milhões em propina a Duque na compra
de sondas, na obra da Repav, de Cabiúnas 2, da Repar, do Comperj e até
do gasoduto Urucu-Manaus. Do total, R$ 12 milhões teriam sido
depositados numa conta chamada Drenos, no banco Cramer, na Suíça. À PF,
Duque rejeitou todas as acusações. Disse não possuir contas no exterior e
negou a existência de um cartel de empreiteiras que acertavam contratos
superfaturados com a Petrobras. Admitiu, porém, ter recebido R$ 1,6
milhão da UTC por serviços de consultoria prestados à empreiteira. Ele
recebeu o dinheiro na conta da 3DTM Consultoria, empresa que abriu dois
dias antes de pedir exoneração da Petrobras em 25 de abril de 2012.
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