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terça-feira, 25 de julho de 2017

Uma geração perdida para as balas

Incapacidade do Estado em garantir a segurança de alunos da rede pública do Rio de Janeiro ameaça o futuro de milhares de jovens e provoca alerta até do Fundo das Nações Unidas para a Infância

Crédito: Silvia Izquierdo
A advertência vem da instituição internacional com maior autoridade no assunto: “Interrupções seguidas em ambientes
GUERRA Moradora do Complexo da Maré, Kelly Santos da Silva já teve de se jogar no chão com o filho de
3 anos para escapar dos tiros (Crédito:Marcelo Tabach)
violentos afetam negativamente a capacidade de uma criança de se concentrar e de aprender”. A declaração do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), na quinta-feira 20, é dirigida ao Rio de Janeiro.
O que aconteceu até agora na capital fluminense é suficiente para comprometer todo o ano letivo: quase 130 mil alunos de estabelecimentos municipais ficaram sem aulas pelo menos um dia e 381 colégios tiveram que fechar as portas (leia quadro) devido à troca de tiros entre facções rivais de traficantes, entre bandidos e policiais ou devido ao toque de recolher determinado pela milícia. Somente em oito dias do primeiro semestre todas as unidades funcionaram normalmente.
Essa aberração não tem encontrado anteparo nos planos da Secretaria Estadual de Segurança Pública para conter a violência, e o jeito tem sido tentar sobreviver no clima de terror. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha, por exemplo, concluiu, semana passada, um treinamento dado a representantes de colégios localizados em áreas de risco. Eles ensinam “comportamento seguro em meio a balas” — um absurdo, mas que no Rio de Janeiro poderia ser incluído no rol de matérias curriculares.
Assim como nas escolas, os pais incluem, entre os deveres de casa, estratégias para que os filhos consigam fugir dos tiros. “Quando você ouvir um barulho muito alto, corra para o abraço”, diz Kelly Santos da Silva, 27 anos para o filho Gael, de 3 anos.
É a maneira lúdica que ela encontrou para estimular o garotinho a procurar alguém que possa ajudá-lo. “Um dia, voltávamos da escola quando começou uma guerra. Me joguei no chão com ele enquanto as cápsulas de balas caíam ao nosso redor”, recorda ela, que é moradora do Complexo da Maré.
Alguém pode aprender em um lugar assim? A filósofa e escritora Tania Zagury responde: “Um ser humano só tem condição de se interessar por aprendizado se suas necessidades básicas estão satisfeitas”. A sobrevivência, claro, é a primeira delas. “Apenas um milagre faria um aluno ficar interessado em aula enquanto há uma troca de tiros do lado de fora da escola”.
TOQUE DE RECOLHER

No início de agosto começa o segundo semestre escolar em todo o País. Quase todo. Pelo menos algumas escolas de Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro, não sabem se poderão reabrir. Por ordem de milicianos, as portas devem ser fechadas às 20h30, o que impede a realização de aulas noturnas e prejudica cerca de mil alunos. “A gente fica sem saber o que fazer até o momento em que eles mandam avisar se pode ou não dar aula”, disse um diretor de escola que não quis se identificar.
Na luta para minimizar os efeitos nefastos da violência, os professores desempenham papel importante. Roberto de Oliveira Ferreira, que leciona Música no Ciep Roberto Morena, na comunidade de Três Pontes, em Paciência, tem uma senha combinada com seus pequenos alunos: “Vamos para o corredor. Vai ter aula diferente.” Ao ouvir a frase, a criançada senta no chão e começa a cantar ao som do violão do professor, até os tiros pararem de zunir. “Tentamos minimizar o trauma e acalmá-los, além de proteger.”
“Se tem tiro, meu filho não vai à escola. Prefiro ele sem aula do que morto por bala perdida” Alice da Silva, mãe de Luís Felipe, 8 anos
Um levantamento da Secretaria Municipal de Educação mostra que a evasão escolar é alarmente em áreas de risco. No ano passado, 821 alunos de 20 escolas situadas em locais de conflitos abandonaram os estudos. Segundo estudo da ONG Todos Pela Educação com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) cerca de 2,5 milhões de crianças com idade entre 4 e 17 anos estão fora das salas de aula no Brasil. A violência carioca só faz piorar o quadro. “Quando tem tiro, meu filho não vai. Prefiro ele sem aula do que morto por bala perdida”, diz, categórica, Alice da Silva, mãe de Luís Felipe, 8 anos, estudante da Escola Barão Homem de Mello, no Morro dos Macacos, onde eles moram. Se o garoto não vai para a aula, a mãe, que é manicure, também não tem como trabalhar — um ônus extra da violência em comunidades pobres.
NO CHÃO Alunos deitados na escola para fugir de tiros, (Crédito:MAURO PIMENTEL)
O presidente da Associação Pró-Melhoramento do Morro dos Macacos, Marco Aurélio da Cruz Alves, resume: “As crianças crescem vendo tiros e armas para todos os lados, tendo que faltar às aulas devido a confrontos armados. Muitas delas acabam se envolvendo com ‘o lado ruim’ por falta de estudo e oportunidades.” No dia 17 de agosto haverá um ato no Aterro do Flamengo, na zona sul carioca, reunindo todas as escolas em um apelo à paz. Para o secretário municipal de Educação, César Benjamin, as instituições educacionais “são, cada vez mais, espaços de resistência da civilização contra a barbárie.” Por enquanto, a barbárie está vencendo.
Professores são treinados pela Cruz Vermelha (Crédito:Divulgação)

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Onde foram parar os escudeiros de Dilma

Eles integravam a tropa de choque da ex-presidente e eram estrelas no PT. Hoje, mergulhados em denúncias, Mercadante, Erenice Guerra, Cardozo e Ricardo Berzoini fogem dos holofotes como o diabo da cruz

Onde foram parar os escudeiros  de Dilma
ALOIZIO MERCADANTE Aposentado, recebe R$ 15 mil e complementa a renda prestando consultorias sobre política educacional - JOSÉ EDUARDO CARDOZO Dedica-se a proferir palestras nos EUA, Inglaterra, Portugal e Espanha - ERENICE GUERRA Fechou o escritório de advocacia por falta de clientes e ainda não definiu o que vai fazer da vida - RICARDO BERZOINI Nos bastidores, trabalha para ser candidato em 2018 no Distrito Federal
Eles haviam alcançado o Olímpo político. Eram figuras do mais alto escalão na Esplanada dos Ministérios em Brasília e donos de trajetória ascendente no PT. Hoje, vivem no ostracismo. E, por ora, por mais contraditório que possa parecer, querem mesmo ficar por lá – de preferência longe das luzes da ribalta. Alvos da Lava Jato, Aloizio Mercadante, Ricardo Berzoini, José Eduardo Cardozo e Erenice Guerra tentam tocar suas vidas de forma reclusa, bem diferente de um passado recente, quando encarnavam os papéis de principais escudeiros da ex-presidente Dilma Rousseff.
Acusado de obstrução de Justiça e delatado por suposto caixa dois, o ex-ministro da Casa Civil, da Educação e da Ciência e Tecnologia Aloízio Mercadante pediu aposentadoria este ano. Recebe R$ 15 mil mensais como ex-senador, ex-deputado e professor da Unicamp. Para complementar a renda, se vira como consultor. “Ele está desenvolvendo uma consultoria sobre política educacional brasileira para um organismo multilateral”, confirmou sua assessoria. Em setembro, foi hostilizado em Portugal. Conhecido por seu temperamento difícil, o ex-senador foi vaiado e xingado de “ladrão” e “corrupto” no Aeroporto de Lisboa, por supostamente furar a fila do check-in. Ele nega.
Tal como o companheiro de partido, Berzoini, hostilizado recentemente num restaurante, só que sem furar o lugar de ninguém, também resolveu submergir. Neste caso, um recuo tático: o petista já trabalha com um olho nas eleições de 2018. Ex-deputado por São Paulo, ele mudou seu domicílio eleitoral para Brasília este ano. Petistas ouvidos por ISTOÉ garantem que ele é um dos cotados para ser candidato a deputado federal ou mesmo a governador do DF.
Funcionário de carreira do Banco do Brasil, Berzoini deixou de disputar as eleições de 2014 para ajudar na campanha de Dilma Rousseff. Agora, avaliam, seria a hora de o PT retribuir o esforço. Em Brasília, o ex-parlamentar disputaria o mesmo nicho de votos da sindicalista Érika Kokay (PT), uma das principais lideranças da legenda na cidade. Segundo Érika, ainda não há definição de nomes para a disputa de 2018. “Mas seria uma honra e um orgulho para o PT ter o ex-deputado Berzoini disputando qualquer cargo”, disse Érika.
O que representa um orgulho para o PT não necessariamente constitui um orgulho para a população. Berzoini foi duplamente delatado na Lava Jato. Em 2016, o executivo da Andrade Gutierrez Flávio Machado contou que Berzoini pediu 1% de propinas de todas as obras da empresa com o governo federal. Já o ex-presidente da OAS Leo Pinheiro envolveu Berzoini numa trama para enterrar a CPI da Petrobras, potencialmente constrangedora para o governo Dilma.
POSTURA ANUNCIADA

O serviço prestado por Berzoini certamente teria agradado a outro integrante da tropa de Dilma: o ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Linha de frente da ex-presidente deposta, hoje, Cardozo não aparenta estar preocupado com governos. Abandonou a política. Dedica-se somente à advocacia e à carreira acadêmica. É sócio de escritórios em São Paulo e Brasília, cidades onde leciona direito administrativo em instituições como a PUC-SP.
Em entrevista à ISTOÉ disse que se ocupa a proferir palestras nos EUA, Inglaterra, Portugal e Espanha. Assegurou que não pretende lançar-se em 2018. Rechaçou, contudo, que esteja no ostracismo. “Tive uma postura publicamente anunciada em relação a sair da vida pública, após muitos anos”, afirmou Cardozo.
Erenice Guerra não fez declaração pública de desistência da política. O que ela abandonou foi seu escritório de advocacia em Brasília. Desde que a Lava Jato irrompeu, seus negócios haviam minguado. Até que ela decidiu fechá-lo. Agora, também quer distância dos holofotes. A ex-ministra da Casa Civil é uma das investigadas no chamado inquérito do “quadrilhão” no Supremo. Sem cargo e sem perspectivas de reativar o trabalho de advogada, ela vai ter que dançar quadrilha em outras plagas.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Distúrbios em greve na Venezuela deixam dois mortos e nove feridos

Distúrbios em greve na Venezuela deixam dois mortos e nove feridos
Ativistas opositores durante protesto em Caracas, em 20 de julho de 2017 - AFP
Dois jovens – de 23 e 24 anos – morreram e outras nove pessoas ficaram feridas durante os protestos desta quinta-feira em meio à greve convocada pela oposição contra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua Assembleia Constituinte, informou a Procuradoria.
Uma das vítimas foi identificada como Ronney Tejera, 24, que participava de uma manifestação no bairro de Los Teques, em Caracas, quando foi “atingido por arma de fogo, ação que provocou sua morte imediata”, segundo a Procuradoria, que não identificou os responsáveis.
Na cidade de Valencia (norte), Andrés Uzcátegui, 23 anos, morreu durante “uma manifestação” na localidade de La Isabelica, em um confronto que deixou ainda seis feridos, segundo a Procuradoria.
Desde o início da atual onda de protestos contra Maduro, no dia 1º de abril, 99 pessoas morreram e milhares ficaram feridas.
Durante a greve desta quinta-feira, ocorreram confrontos entre manifestantes que bloqueavam as ruas com barricadas e as forças de segurança, que utilizaram bombas de gás lacrimogêneo e tiros de cartucho para dispersar os protestos.
Em Los Ruices (leste de Caracas), manifestantes atiraram pedras em funcionários do canal estatal de televisão VTV e queimaram uma cabine da polícia.
Também ocorreram confrontos nos subúrbios leste e oeste da capital, assim como nos Estados de Zulia (noroeste), Aragua (centro) e na Ilha Margarita.
Segundo Alfredo Romero, diretor da ONG Fórum Penal, a greve desta quinta-feira deixou ao menos 173 detidos em todo o país, mas principalmente em Caracas e nos Estados de Zulia e Nueva Esparta.
A paralisação de 24 horas começou às 6h locais (7h, horário de Brasília). Chamada de “hora zero” pela oposição, essa convocação intensifica as manifestações iniciadas em 1º de abril contra Maduro.
Animada pelos 7,6 milhões de votos do plebiscito simbólico que realizou no domingo passado (16) contra Maduro e contra sua Constituinte, a oposição convocou um cessar das atividades formais e informais, mas de forma ativa.
Várias ruas foram bloqueadas com barricadas e os ônibus não circularam em Caracas e em outras cidades importantes do país.
Dezenas de estabelecimentos comerciais fecharam suas portas hoje, e muitos trabalhadores tiveram de caminhar por várias quadras debaixo de chuva, especialmente no leste de Caracas, onde os protestos se concentraram. O metrô funcionou normalmente.
Mas no centro de Caracas e em bairros com forte presença de chavistas, como Catia (oeste), poucos aderiram à greve.
“Voltamos a triunfar, agora rumo ao domingo, 30 de julho, de vitória em vitória, moral máxima”, afirmou Maduro ao referir-se à data da eleição dos membros da Assembleia Constituinte contra a qual a greve foi convocada.
O presidente assegurou que as indústrias básicas e os setores petroleiro, energético e a administração pública trabalharam a 100%, e só reconheceu falhas no serviço de ônibus urbanos que, segundo ele, funcionaram a 90%.
“Eles que nunca trabalharam que fiquem sem trabalhar; nós vamos é em frente”, afirmou, durante um comício de campanha pela Constituinte transmitido pela televisão governamental VTV.
A greve contou com o apoio da cúpula empresarial, de câmaras de comércio e indústria, de parte dos sindicatos, de estudantes e funcionários dos transportes. Já o governo controla a estratégica indústria petroleira e o setor público, com quase três milhões de empregados.
“A Assembleia Constituinte é apenas uma maneira de disfarçar a transformação da Venezuela em um Estado comunista”, alertou o presidente da Fedecámaras, Carlos Larrazábal.
“Essa paralisação é um embate de forca entre um empresariado e uma população famélica e pauperizada e um governo também quebrado que controla os poucos recursos de um país petroleiro”, opinou o presidente do instituto Datanálisis, Luis Vicente León.
“São dias importantes para o governo entender que uma saída democrática e pacífica para a crise, para os trabalhadores, significa retirar a Constituinte”, declarou à AFP o líder sindical Froilán Barrios.
O líder opositor Henrique Capriles declarou que “o governo quer tapar o sol com um dedo, mas hoje parece (o feriado) 1º de janeiro em grande parte do país”.
“É uma queda de braço entre um empresariado e uma população famélica e pauperizada contra um governo também quebrado, mas que controla os poucos recursos” do país, opinou o analista Luis Vicente León.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Publicitário Marcos Valério fecha acordo de delação premiada com a PF

A Polícia Federal (PF) confirmou hoje (19) que o publicitário Marcos Valério assinou um acordo de delação premiada. Para ter validade, o acordo ainda precisa ser homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Os termos negociados estão sob sigilo, por envolver agentes políticos com foro privilegiado.
As negociações em torno de um acordo de delação premiada do publicitário vinham se arrastando desde o ano passado. Em junho de 2016, seus advogados apresentaram ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) uma proposta de colaboração para revelar informações relacionadas com a Ação Penal 536, do qual é um dos réus.
Marcos Valério
O publicitário Marcos Valério assinou acordo de colaboração com a PFAgencia Brasil/Arquivo
Nesta ação, é investigado o esquema que ficou conhecido como mensalão mineiro, que envolve benefícios ilegais obtidos com a participação de Valério para a campanha de Eduardo Azeredo ao governo de Minas Gerais em 1998. Um dos fundadores do PSDB e ex-presidente da legenda, Azeredo já foi condenado em primeira instância à pena de 20 anos e 10 meses de prisão. Ele entrou com recurso no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e aguarda o julgamento em liberdade.
De acordo com a PF, o acordo com Marcos Valério foi assinado no dia 6 de julho com base em uma vasta documentação. Devido ao sigilo, não foi informado se o acordo costurado está ligado somente aos delitos investigados na Ação Penal 536 ou se também envolve outros esquemas criminosos.
Atualmente, Marcos Valério cumpre pena de 37 anos pelos crimes julgados na Ação Penal 470, o processo do mensalão, no qual foram condenados políticos do PT, PMDB, PP, PTB e do extinto PL. Ele teria atuado como um operador dos esquemas e foi preso pelos crimes de corrupção ativa, peculato, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
Transferência prisional
Há dois dias, Marcos Valério foi transferido para a Associação de Proteção e Assistências ao Condenado (Apac), de Sete Lagoas, na região metropolitana de Belo Horizonte. Esta transferência era uma das reivindicações do publicitário para assinar o acordo de delação. Desde 2013, ele estava preso na Penitenciária Nelson Hungria, de Contagem, também na região metropolitana. Antes, ele também ficou um período no Presídio da Papuda, no Distrito Federal.
A transferência para a Apac foi determinada em decisão judicial assinada pelo juiz Wagner de Oliveira Cavalieri, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). Em seu despacho, ele explicou que atendeu um pedido da PF e mencionou que o acordo de colaboração premiada estava sendo concluído. O magistrado destacou ainda que Valério teve prioridade para a transferência de presídio por ter informações de interesse da Justiça e da sociedade brasileira. “Em que pese a existência de formalidades e fila para a transferência de presos para o sistema Apac, no caso em contento, o interesse público se sobrepõe aos interesses individuais”.
Com uma realidade distinta do sistema carcerário comum, a Apac possui uma metodologia de trabalho específica para permitir a recuperação e ressocialização do preso. Em um ambiente mais humanizado, eles têm assistência espiritual, social, médica, psicológica e jurídica prestada por voluntários da comunidade. Também são ofertados cursos educacionais e profissionalizantes.
Além da transferência de unidade prisional, Marcos Valério pleiteia a redução de suas penas. A Agência Brasil tentou contato com o advogado Jean Robert Kobayashi Júnior, responsável pelo pedido de Marcos Valério, mas seu celular estava desligado.
* Colaborou Felipe Pontes, repórter da Agência Brasil

quarta-feira, 19 de julho de 2017

E viva a folia!

Entre os principais eventos de música do País, o Fortal chega à 26ª edição com novidades. Além dos trios, um palco traz artistas locais entre os intervalos
No corredor da folia grandes nomes do cenário nacional da música com trios que trazem o melhor do axé, forró, sertanejo e funk ( Foto: Fernanda Siebra )
De amanhã até domingo (23), Fortaleza se transforma na capital da micareta indoor com a apresentação de três blocos por dia.
A folia começa com o Pirraça que destaca sucessos da dupla sertaneja Jorge e Mateus. No repertório, hits como "Se o Amor Tiver Lugar" e "Medida Certa".
Depois o Fortal inova com bloco Bagunça que promove uma mistura de ritmos. De um lado o swing contagiante do axé, do outro a batida envolvente do funk carioca com É o Tchan e MC Kevinho. No fim da noite, a atração mais esperada acontece no encontro dos trios do Vumbora com Bell Marques e seus filhos, Rafa e Pipo. Na sexta, Claudia Leitte comanda o Largadinho que destaca o hit "Taquitá". Seguida pelo bloco Eh Loco que traz Saulo com canções que passeiam do axé às letras mais calmas e emocionantes. E encerrando a noite Bell Marques é o anfitrião do Sirigüella.
No sábado (22) o bloco Eh Loco abre a noite, desta vez com a dupla Simone e Simaria e Gabriel Diniz. A segunda apresentação traz novamente Bell Marques no Sirigüella. Para encerrar a noite com muita alegria o "Rei da Folia", Durval Lélys, no Me Abraça. Na última volta a Banda Eva também sobe no trio.
No domingo, Bell faz sua última apresentação. Ivete Sangalo chega com o Coruja e para encerrar Wesley Safadão contagia com o "Vai Safadão".
Mais informações
Fortal
De 20 a 23 de julho, quinta-feira e sábado das às 20h, sexta-feira às 20h30 e domingo às 19h30. (3261.4050). www.fortal.com.br

Fortal 2017

Programação
Quinta (20/07)
20h - Pirraça
(Jorge e Mateus)
20h45 - Bagunça
(É o Tchan e MC Kevinho)
21h30 - Vumbora
(Bell, Rafa e Pipo Marques)
Sexta (21/07)
20h30 - Largadinho
(Claudia Leitte)
21h15 - Eh Loco
(Saulo)
22h - Sirigüella
(Bell Marques)
Sábado (22/07)
20h - Eh Loco (Simone e Simaria e Gabriel Diniz)
20h45 - Sirigüella
(Bell Marques)
21h30 - Me Abraça
(Durval Lélys/Banda Eva)
Domingo (23/07)
19h30 - Sirigüella
(Bell Marques)
20h15 - Coruja (Ivete Sangalo)
21h - Vai Safadão (Wesley Safadão)

terça-feira, 18 de julho de 2017

Deputados querem ‘distritão’ para garantir novo mandato

Esse modelo pode dificultar a renovação da Câmara e favorecer a permanência dos deputados que já estão no poder, por serem mais conhecidos

Deputados de PMDB, PSDB e ao menos oito partidos do centrão fizeram acordo para incluir na proposta de reforma política – a ser analisada em agosto na Câmara – artigo que cria o “distritão”. A informação foi divulgada na edição desta terça-feira do jornal O Estado de S.Paulo. Pelo sistema, seriam eleitos os candidatos mais votados em cada estado. Hoje, no sistema proporcional, soma-se o número de votos de todos os candidatos e na legenda e, a partir daí, define-se quantos assentos o partido terá direito – daí a importância dos candidatos que “puxam” votos, como Tiririca (PR-SP), que podem ajudar a eleger parlamentares com poucos eleitores.
A ideia é apresentar a sugestão de emenda durante as discussões do texto do relator da reforma política, Vicente Cândido (PT-SP). Como o petista sugere um sistema “transitório” para as eleições de 2018, os parlamentares articulam o “distritão” como sistema permanente.  A proposta foi tema de debate em uma reunião na casa do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), na quarta-feira passada. Estavam presentes parlamentares do Centrão, do PMDB, da oposição e do PT, que discorda da medida.
O “distritão” é visto pelos atuais deputados como forma de tentar assegurar a própria reeleição. Esse modelo pode dificultar a renovação da Câmara e favorecer a permanência dos deputados no poder, uma vez que eles são conhecidos por maior parcela do eleitorado pela participação em eleições passadas, visibilidade midiática e máquina administrativa, como acesso a emendas que garantem verbas para obras em redutos eleitorais.
A emenda será apresentada pelo deputado Miro Teixeira (Rede-RJ) e vai transformar os estados em distritos. O parlamentar, porém, negou que a proposta tenha a finalidade de garantir a renovação dos mandatos. “Isso quem vai decidir é o povo. O ‘distritão’ garante a representação das minorias.”
A bancada do PMDB deverá votar majoritariamente a favor desse sistema, segundo o jornal. “Há uma maioria na Câmara a favor da proposta, apenas existe uma discordância se o sistema deve ser transitório ou permanente”, afirmou o deputado Hildo Rocha (PMDB-MA), que não estava presente no encontro. “Só não há consenso porque a oposição é contra”, disse.
O sistema defendido por Cândido em relatório é o distrital misto. Pela regra, o eleitor votaria duas vezes: uma no candidato e outra no partido de preferência.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Cândido, o indecente

Arquiteto da "emenda Lula", o deputado Vicente Cândido sugere fundo público de campanha de R$ 5,9 bilhões.

O deputado Vicente Cândido (PT-SP) não faz jus ao sobrenome. De ingênuo só tem as asas que o levam a voar na criatividade malévola. É o relator da proposta de reforma política em tramitação na Câmara, cujo ponto central é a criação de um fundo público para financiamento de campanhas eleitorais a 0,5% da receita líquida da União. Coisa para R$5,9 bilhões, mantidas as previsões do ministério do Planejamento. Ao deputado _ note-se, com apoio da maioria dos líderes partidários _ não ocorre melhor ideia para reformar a política que não a de onerar o Orçamento pátrio. Assim: os partidos fazem besteira e o cidadão paga a conta.
Pois o mesmo deputado teve outra ideia: sugerir uma emenda constitucional proibindo a prisão de candidatos a eleições nos oito meses antecedentes ao pleito. Hoje essa proibição, excetuado o crime em flagrante, limita-se a 15 dias. A proposta tem intenção assumida pelo autor: impedir que políticos sejam presos ao longo da campanha, dentro os quais o seu chefe partidário, Luiz Inácio da Silva. Em princípio, seus colegas reagiram contra. Afinal, o tema posto assim com essa explicitação de defesa com endereço certo e por todos sabido, não cabe ao figurino oficial de defesa das investigações doa em quem doer.
Mas, nunca se sabe. Quando se tem alguém para assumir a defesa do indefensável, tudo é possível. Aprovada proposta de emenda constitucional, vários seriam os beneficiários. Inclusive os chamados criminosos comuns que poderiam se registrar como candidatos para conquistar imunidade. Uma espécie de foro privilegiado por via torta.

sábado, 15 de julho de 2017

Morte de Castello Branco em acidente aéreo faz 50 anos

Primeiro presidente do regime militar governou entre 1964 e 1967, em um período de grave crise econômica
Humberto Castello Branco
Antes da chegada dos militares ao poder, Humberto Castello Branco teve como maior destaque em sua carreira a participação na 2ª Guerra Mundial
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Avião em que o ex-presidente sofreu o desastre fatal está exposto em um espaço no 23º Batalhão de Caçadores, na av. 13 de Maio, no bairro Benfica, em Fortaleza
Na próxima terça (18), completam-se 50 anos da morte de Humberto de Alencar Castello Branco, primeiro presidente do regime militar (1964-1985).
O cearense voltava de uma viagem a Quixadá, onde visitou a amiga, a imortal escritora Rachel de Queiroz (1910-2003), primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, autora do romance "O Quinze".
A bordo de um avião bimotor, ele pediu ao piloto para sobrevoar a lagoa de sua infância, onde costumava brincar, a lagoa de Messejana. A alteração da rota prevista, a fim de atender ao desejo nostálgico do então ex-presidente, terminou em um acidente aéreo, como narra a biografia escrita pelo jornalista e escritor cearense Lira Neto, em 2004.
A aeronave foi atingida por um caça da FAB em voo teste e caiu em um terreno entre os bairros do Mondubim e Messejana.
"Castello ainda é muito reverenciado por sua dedicação integral às Forças Armadas, caráter forte e talento intelectual. Saiu do Ceará e teve uma trajetória brilhante", diz o general da reserva Júlio Lima Verde, hoje assessor para assuntos históricos e culturais do Exército.
O reconhecimento militar a Castello está em denominações oficiais de quartéis, além de nomes de instituições de ensino e vias de tráfego importantes. Por exemplo, o 23º Batalhão de Caçadores (BC), na avenida 13 de Maio, também é chamado de Batalhão Marechal Castello Branco, onde há um espaço em sua homenagem, com exibição de objetos históricos, com destaque para o avião do fatídico acidente. No quarteirão do Palácio da Abolição, na avenida Barão de Studart, fica seu mausoléu.
"Ele ganhou respeito na Segunda Guerra Mundial, passou 300 dias na Itália chefiando a seção de operações da 1ª divisão de infantaria da Força Expedicionária Brasileira (FEB), montando os planos de operações", destaca o general Lima Verde. Filho de pai militar, ele deixou o Ceará e foi estudar na Escola Militar de Porto Alegre (RS), onde se tornou alvo de trotes dos alunos. As descrições pejorativas eram frequentes também ao longo da carreira, segundo seu biógrafo.
"Ele se irritava demais com os apelidos que teve de colecionar ao longo de sua vida", citou Lira.
Rivalidade com Lacerda
Um dos seus maiores desafetos era o jornalista Carlos Lacerda, líder da UDN (partido de orientação conservadora), que publicava até ofensas pessoais.
Apesar disso, o biógrafo de Castello Branco relata que "nos anos de governo de Castello, em nenhum momento a imprensa foi censurada", relatou o biógrafo. Na presidência (1964-1967), ele enfrentou uma grave crise econômica, com inflação elevada. Também criou a Zona Franca de Manaus, que impulsionou o desenvolvimento da região.
Castello Branco também teve um papel na educação militar, comandando a escola de formação de oficiais.
"Ele construiu os alicerces, organizou a casa. Ele criou o Banco Central, a Polícia Federal, a Embratur, o FGTS e tantas outras coisas", lembrou o general.
Guerra fria
Sua biografia cita que Castello tinha a "ilusão de entregar o governo aos civis" após normalizar o cenário político, mas a situação saiu de seu controle, e o regime militar endureceu em seguida com medidas autoritárias.
O historiador Airton de Farias mencionou o contexto histórico enfrentada pela gestão de Castello na presidência. "O Castello vai ter um papel importante, mais legalista, no começo dos anos 1960, quando o jogo político no Brasil está cada vez mais radicalizado entre o governo de João Goulart, entre as esquerdas e grupos conservadores", disse Airton, citando o contexto da Guerra Fria, o embate entre capitalistas e comunistas. "Os militares conservadores viam João Goulart como um governo comunista e defendiam um regime de força", descreveu o historiador.
Castello também estudou nos EUA e na França no curso superior de guerra e tinha a reputação de ter lutado na Segunda Guerra Mundial. "O Exército brasileiro tinha forte ligação com os EUA. Não só com os EUA, mas também com a França, onde os militares brasileiros aprenderam técnicas de tortura usadas na guerra na Argélia", ressaltou.
"Você pega a história dos militares no Brasil e percebe que, desde o final do século XIX, após a Guerra do Paraguai, há duas posturas, duas visões: o militar profissional, que vai cumprir as ordens, independente de quem governa, e o chamado militar cidadão, mais ativo em termos políticos. Castello fez parte da geração de militares com atuação política, algo que marca toda sua trajetória", disse Airton.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Quem estava ao lado de Lula no primeiro discurso como condenado

No dia seguinte à condenação na Lava Jato, ex-presidente reuniu líderes petistas e de movimentos sociais na sede do PT, em São Paulo

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez nesta quinta-feira seu primeiro pronunciamento como condenado na Operação Lava Jato pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Cercado de líderes petistas e de movimentos sociais na sede do PT, em São Paulo, Lula reiterou sua candidatura à Presidência da República em 2018 para reagir à sentença de nove anos e seis meses de prisão aplicada a ele pelo juiz federal Sergio Moro.
“Se alguém pensa que, com essa sentença, me tirou do jogo, podem saber que eu estou no jogo. Até agora, eu não tinha reivindicado, mas agora eu reivindico do meu partido o direito de ser candidato a presidente”, afirmou, antes de declarar que lutará em três frentes para garantir seu nome na urna: “a briga jurídica, para poder ser candidato; a briga política, para ter o apoio do PT; e a briga das ruas”.
Lula discursou em pé durante trinta minutos, postado entre a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), ré em um processo da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção e lavagem de dinheiro, e o escritor Raduan Nassar, vencedor do Prêmio Camões de Literatura.
Além de Gleisi e Nassar, acompanharam a fala do ex-presidente na sede do PT líderes do partido no Congresso, como os deputados Carlos Zarattini (SP) e José Guimarães (PT-CE), o senador Lindbergh Farias (RJ) e o presidente da sigla em São Paulo e ex-prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho.
O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, a presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Marianna Dias, e o diretor da Liga do Funk Bruno Ramos, representaram os movimentos sociais alinhados ao PT.
Veja abaixo quem é quem na foto do primeiro discurso de Lula após a condenação:
(Miguel Schincariol/VEJA)
1. Deputado Leo de Brito (PT-AC)
2. Deputado Carlos Zarattini (PT-SP)
3. Deputada Benedita da Silva (PT-RJ)
4. Bruno Ramos (diretor da Liga do Funk)
5. Marianna Dias (presidente do UNE)
6. Vagner Freitas (presidente da CUT)
7. Senador Lindbergh Farias (PT-RJ)
8. Deputado José Guimarães (PT-CE)
9. Márcio Macêdo (vice presidente nacional do PT)
10. Luiz Marinho (presidente do PT paulista)
11. Senador José Pimentel (PT-CE)
12. Ex-ministra Eleonora Menicucci (PT)
13. Deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ)
14. Senadora e presidente do PT Gleisi Hoffmann (PR)
15. Raduan Nassar (escritor)
16. Cristiano Zanin Martins (advogado de Lula)
17. Senador Paulo Rocha (PT-PA)
18. Ex-ministro Manoel Dias (PDT)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Moro confisca tríplex, multa Lula e o proíbe de ter cargo público

Petista terá de pagar R$ 699.700 de multa e reparar erário em R$ 16 milhões, junto com outros réus; decisões dependem de confirmação em segunda instância

Além de condenar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a nove anos e seis meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o juiz Sergio Moro determinou outras punições no processo envolvendo o tríplex do Guarujá: confiscou o imóvel, fixou multas e reparação de danos e determinou a interdição do petista para ocupar cargos públicos.
Foram aplicadas duas multas a Lula, que somam 699.700 reais, sendo uma para o crime de corrupção passiva (543.000 reais) e outra, para o crime de lavagem de dinheiro (126.700 reais). As autuações foram calculadas com base na renda do ex-presidente, que foi de 952.814 reais no ano passado, apenas com lucros e dividendos recebidos da LILS Palestras.
Além da multa, o juiz também determinou a reparação dos danos causados ao erário pelos condenados – Lula e ex-diretores da OAS – e fixou este valor em 16 milhões de reais, que seria o montante destinado pela empreiteira a uma conta corrente reservada ao PT – o valor terá de ser corrigido e acrescido de juros de 0,5% ao mês a partir de dezembro de 2009.

Outra determinação de Moro foi o confisco do apartamento 164-A, tríplex do Condomínio Solaris, no Guarujá, que seria destinado a Lula como parte de propina paga pela OAS em contratos da Petrobras.
“Considerando que o apartamento (…) é produto de crime de corrupção e de lavagem de dinheiro, decreto o confisco (…). A fim de assegurar o confisco, decreto o sequestro sobre o referido bem”, escreveu o juiz, esclarecendo que o imóvel não pode nem “mais ser considerado como garantia em processos cíveis”.
Na sentença, o magistrado ainda determinou a “interdição para o exercício de cargo ou função pública” do ex-presidente e do empreiteiro Léo Pinheiro por 19 anos. A medida imposta por Moro não afeta, contudo, os direitos políticos do petista e a possibilidade de uma candidatura dele nas eleições de 2018.
O advogado criminalista Gustavo Badaró afirma que a eficácia da interdição será suspensa a partir do recurso da defesa de Lula ao TRF4 e, assim como a pena determinada por Moro, só entrará em vigor caso a segunda instância a confirme. Neste caso, Lula se tornaria inelegível pela Lei da Ficha Limpa, poderia ser preso e estaria afastado das funções públicas pelo período estipulado pelo magistrado.
“[A medida] não inclui a questão do mandato eletivo. Lula não poderia, por essa restrição, por exemplo, exercer a função de ministro ou prestar concurso público, mas se candidatar ele pode”, explica Badaró.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Lula pede inclusão de depoimentos e tenta atrasar sentença

Moro negou de pronto o pedido; sentença deve sair ainda esta semana

Na tentativa de atrasar a iminente sentença a ser proferida pelo juiz Sergio Moro, a defesa do ex-presidente Lula tentou uma última cartada na 13ª Vara Federal de Curitiba e pediu na noite de ontem a inclusão de 11 depoimentos para serem utilizados como “prova emprestada” na ação em que o petista é acusado de ter recebido, apenas no caso relacionado ao tríplex, benesses de 3,7 milhões de reais “oriundas do caixa geral de propinas da OAS com o PT”. Entre os depoimentos que Lula queria anexar ao processo do tríplex está o do empresário Jorge Gerdau.

A iniciativa da defesa do ex-presidente tinha a alegação jurídica de que “a prova emprestada pode ser utilizada para subsidiar o entendimento do Juízo quando tenha sido colhida originariamente com a participação da defesa técnica do acusado e não configure único elemento a embasar a motivação da decisão judicial”. O juiz Sergio Moro, porém, negou de pronto o pedido, informando que “a instrução já se encerrou faz tempo, as alegações finais foram apresentadas e o processo está concluso para sentença”. “Descabe o pretendido nessa fase e os depoimentos referidos sequer são relevantes para o julgamento da presente”, afirmou Moro.
A defesa de Lula ainda precisa ser intimada da decisão de Moro antes de o ex-presidente Lula receber a primeira sentença na Operação Lava-Jato.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O Brasil voltará a sorrir

Imagem de felicidade que sempre esteve associada ao brasileiro contrasta com a apatia e desencanto do momento atual, em que o País se sente órfão de lideranças. Como essa inevitável travessia pode construir uma nação melhor

Crédito: Divulgação
Houve um tempo, não muito distante, em que o brasileiro era conhecido pela alegria e pelo otimismo, apesar das adversidades. O Carnaval, o futebol, as belezas naturais, ainda que formassem um clichê até certo ponto irreal do País, eram motivos suficientes para manter a autoestima nacional nas alturas. A imagem de um povo feliz e irreverente, no entanto, ficou para trás. Se em 2002 84% dos brasileiros afirmavam sentir mais orgulho do que vergonha do país, hoje os ufanistas são apenas 50% da população. Uma pesquisa recente do Instituto Datafolha revela que 47%, quase a metade dos brasileiros, têm mais vergonha do que orgulho do Brasil. A escalada da corrupção, da violência e a crise política e econômica deixam a “luz no fim do túnel” cada vez mais fora do campo de visão. Pouco mais de um ano antes das eleições presidenciais de 2018, os brasileiros se sentem órfãos de lideranças — um sintoma de que ainda estamos longe de recuperar a confiança de tempos atrás. Se há uma boa notícia nesse cenário sombrio, é que ele tem tudo para ser passageiro. Seu desfecho inevitável será uma nação mais justa e menos corrupta — e certamente mais feliz, como nos velhos tempos.
A onda de descrença nos políticos avança desde 2005, com a revelação do escândalo do Mensalão, e se acentuou em 2014, com o início da operação Lava Jato. O esquema de corrupção, lavagem e desvio de dinheiro para campanhas eleitorais envolvendo a Petrobras, grandes empreiteiras e políticos pode chegar ao valor estratosférico de R$ 42 bilhões, ao mesmo tempo em que a oferta de serviços públicos, como segurança, saúde e educação, que constitucionalmente cabem ao Estado, beira o caos. Fora de controle, a violência no Brasil mata mais que a guerra na Síria. No ranking global da felicidade, divulgado pelas Nações Unidas em março, o Brasil caiu cinco posições e passou para o 22º lugar. A queda foi a segunda consecutiva: no período de 2013 a 2015, o País passou de 16º para 17º. Até o Carnaval do Rio de Janeiro, símbolo máximo da alegria nacional no exterior, esteve ameaçado: a liga das escolas de samba suspendeu os desfiles de 2018 assim que o prefeito Marcelo Crivella reduzir pela metade a verba para a entidade. Depois de muita discussão, as escolas irão para a avenida, dessa vez sem a costumeira euforia.
Os cortes nos orçamentos de municípios, estados e governo federal são resultado direto da queda na arrecadação, após mais de três anos de recessão na economia. Essa é a face da crise que mais impacta na falta de perspectiva da população brasileira.
ADEUS, BRASIL Osmair Fernandes Victor (à esq.), a esposa Cristiane e o filho Felipe embarcaram para Chicago em busca de mais qualidade de vida
Ainda que a inflação tenha dado trégua, o desemprego recorde assusta: são mais de 14 milhões de desempregados no País, muitos sem renda há meses. Até quem já construiu bons currículos profissionais e acadêmicos se viu obrigado a mudar de área ou buscar novos caminhos. A publicitária Adriana Galante, 29, trabalhou durante três anos no setor comercial de uma grande empresa de comunicação. Há um ano e meio, foi demitida. Desde então ela paga as contas como pode: faz eventos, busca trabalho em outras áreas e passou a vender acessórios femininos. “A gente sente a ansiedade de não saber como vai ser no mês seguinte, bate um desespero”, conta. O jeito, segundo ela, é se reinventar. “Quem tem veia empreendedora vai atrás disso ainda que seja informalmente. Quem tem formação em uma área busca novos nichos.”

Até o jeito de consumir do brasileiro mudou. A demanda por crédito, por exemplo, diminuiu com o medo do desemprego e da crise. O deslumbramento do auge do crescimento econômico acabou, e a mudança parece ter vindo para ficar. “Hoje o consumidor radicalizou mais a relação custo e benefício. Eles pensam melhor se de fato precisam daquele produto”, afirma Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, de pesquisas de opinião. O processo de compra também está diferente. “Estamos assistindo ao crescimento de economia compartilhada e dos produtos de segunda mão”, diz Meirelles. “Antes você usava o carro usado na entrada do carro novo, agora as pessoas fazem isso até com o celular”.
SEM EMPREGO A publicitária Adriana Galante está desempregada há um ano e meio e decidiu empreender para sobreviver à crise
Assalto e sequestro

O desencanto tem levado muita gente a tentar a vida em outro país. O número de declarações de saídas definitivas do Brasil, segundo a Receita Federal, já bateu recordes em 2017: são mais de 20,4 mil até junho, enquanto em todo o ano passado foram 20,3 mil. Osmair Fernandes Victor, 49, é um dos que optaram pela mudança. Ele embarcou rumo a Chicago, nos Estados Unidos, na segunda-feira 3, acompanhado da mulher e do filho de 13 anos. “O principal motivo é a possibilidade de uma qualidade de vida melhor”, diz. “Aqui, me sinto inseguro em deixar o meu filho sair da rua, já passei por mais de uma situação de assalto e sequestro relâmpago”. Victor, que até então era consultor empresarial, vendeu seu apartamento no Brasil e há dois anos vem planejando a mudança e a abertura de uma franquia em Chicago. “Por mais que aqui eu tenha uma situação econômica boa, eu não saio mais de casa, não consigo usufruir do dinheiro.”
“É importante criarmos um movimento unificado para acabar com
os políticos profissionais” Modesto Carvalhosa, jurista brasileiro (Crédito:Ernesto Rodrigues)
Diante desse cenário, fica a sensação de que o momento da mudança é inadiável. “Não dá mais para as pessoas fingirem que está tudo bem ou que os problemas são poucos”, afirma Renato Janine Ribeiro, filósofo e professor da Universidade de São Paulo. “A prisão dos empresários de ônibus no Rio de Janeiro, por exemplo, mostra que em 2013, quando as pessoas lutaram pelos R$ 0,20, brigaram contra um sistema em que muitas vezes o aumento da passagem está ligado diretamente à corrupção de empresários e políticos.” Talvez por isso, ambos — empresários e políticos — estejam tão em baixa entre os brasileiros: segundo dados do Instituto Locomotiva, 84% da população não sabe dizer o nome de alguém que possa tirar o País da crise, e 78% não sabem citar o nome de alguma empresa que esteja ao seu lado nesse momento.
“O legislativo e o executivo estão muito desvalorizados e a democracia depende desesperadamente deles”
Renato Janine Ribeiro, filósofo e professor da USP (Crédito:Gustavo Epifanio / AG. ISTOE)
Boa parte da desesperança brasileira reflete o que se vê no Congresso. Na Câmara dos Deputados, dos 513 parlamentares que ocupam cadeiras, 144 devem explicações ao Supremo Tribunal Federal — 13 deles acumulam 100 inquéritos e ações penais no STF. Desde 1988, quase todos os presidentes da Câmara estiveram envolvidos em escândalos de corrupção. O atual presidente, o peemedebista Rodrigo Maia, responde a dois inquéritos por ter recebido dinheiro da Odebrecht. Os dois antecessores de Maia, Eduardo Cunha e Eduardo Henrique Alves, ambos do PMDB, estão presos, acusados de corrupção e lavagem de dinheiro. No Senado, a situação não é melhor: em maio de 2016, um terço dos senadores respondia a alguma acusação tribunal. O caso mais recente é o do tucano Aécio Neves. Aécio, que chegou a ser afastado do Senado, mas já voltou a ocupar seu cargo, foi envolvido na mesma delação (a do empresário Joesley Batista, dono do frigorífico JBS) que ameaça o presidente Michel Temer. O presidente foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por corrupção, mas também é investigado por obstrução de Justiça e formação de organização criminosa — cabe à Câmara dos Deputados aceitar ou não a denúncia do procurador Rodrigo Janot.
Para muitos, a operação Lava Jato, que já efetuou mais de 198 prisões em três anos, é a principal esperança para garantir que a corrupção sistêmica no Brasil não permaneça impune. Mas a operação parece agora estar sob ataque.

INSPIRAÇÃO Denise Curi (à esq.), Carla Mayumi e Beatriz Pedreira são idealizadoras do Jogo da Política, que aproxima jovens dos três poderes do País (Crédito:ANDRE LESSA/ISTOE.)
Um Congresso de acusados
É A REGRA Quase todosos presidentes da Câmara nos últimos vinte anos estiveram envolvidos em denúncias de corrupção (Crédito:Wilson Dias/Agência Brasil)
 De cada três integrantes da Câmara dos Deputados, um é alvo de inquérito ou ações penais
Desde a nomeação do novo ministro da Justiça, Torquato Jardim, havia o medo de interferência na investigação. Em um primeiro momento, Jardim não descartou a troca de Leandro Daiello no comando da Polícia Federal. A mudança não ocorreu, mas, na quinta-feira 6, a direção da PF adotou uma medida que enfraquece a força-tarefa no Paraná: decidiu integrar os grupos de trabalho dedicados às operações Lava Jato e Carne Fraca. Isso significa que delegados que antes eram exclusivos da operação referente à Petrobras agora passarão a trabalhar em outros casos. A PF garante que o atual efetivo está adequado à demanda e será reforçado em caso de necessidade. A medida ocorre depois da transferência para outros estados de três dos principais delegados da força-tarefa: Érika Malena, Márcio Anselmo e Luciano Flores.
A corrupção não é um problema exclusivamente brasileiro. “No ranking global de transparência ficamos na 79ª posição, mas em relação aos BRICS temos a mesma pontuação de China e Índia, ficamos acima da Rússia e só perdemos para a África do Sul”, afirma o cientista político Antonio Lavareda. “Nos Estados Unidos, projeções dizem que os crimes de colarinho branco significam algo entre US$ 250 bilhões e US$ 1 trilhão por ano, o que é muito dinheiro para um país que já teve uma série de iniciativas ao longo do tempo para reduzir a corrupção.”
Os especialistas concordam que a crise pode ser para o Brasil o momento de virada de página. Na política, é hora de pensar no novo. “Essa crise é benéfica para a alteração das estruturas de poder no Brasil”, afirma o jurista Modesto Carvalhosa. “Nós temos a chance de criar um movimento unido e indicar novos quadros para o preenchimento das assembleias legislativas, do Congresso, do quadro de governadores e da própria presidência com nomes inteiramente diferentes”. A França, que recentemente empossou Emmanuel Macron como presidente e reelegeu apenas 140 dos 345 deputados que tentavam um novo mandato, pode ser uma inspiração. “Devemos ser capazes de eleger gente nova e desconhecida, o que vem ao encontro de uma tendência mundial, a de acabar com o profissionalismo político.”
R$ 2.023.949,28 é o valor que cada deputado custou aos contribuintes em 2016
“Somos corruptos”

Para os brasileiros, a redenção tampouco está fora da política. Dados do Instituto Datafolha mostram que entre os jovens a percepção sobre o País é negativa: 90% dos brasileiros de 14 a 24 anos avaliam a sociedade como pouco ou nada ética. Nem mesmo amigos ou familiares se salvam: 74% e 54% os acham pouco ou nada éticos, respectivamente. “Os brasileiros reconhecem que, como sociedade e indivíduo, somos corruptos”, afirma Lavareda. “A sociedade sonega, corrompe os agentes públicos no dia a dia e tem uma absoluta compulsão por levar vantagem nas mais diversas situações, então é importante que nesse momento de crise seja feita também uma reforma de valores.”
BRIGA Com escândalos e intolerância, Congresso Nacional está desmoralizado (Crédito:Alessandro Dantas)
155 dos 513 deputados devem explicações ao Supremo Tribunal Federal
Um bom sinal de que as mudanças estão por vir é o crescente número de brasileiros que acredita e trabalha pela renovação da política brasileira. Beatriz Pedreira, 31, faz parte de dois projetos nessa direção. Em um deles, o Update Politics, ela mapeia iniciativas de inovação política na América Latina. Em uma das ações, ela e seus três sócios querem acompanhar as eleições no México e na Colômbia e trazer ao Brasil ideais edificantes. “Nós olhamos os movimentos da América Latina como inspiração”, afirma. “Queremos aproximar essas iniciativas e fazer as pessoas verem que as coisas não dão certo só porque acontecem na Dinamarca, por exemplo”. O outro projeto, o Jogo da Política, é voltado para a educação cívica. O conjunto de três jogos que simulam os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário leva os jovens a vivenciarem situações cotidianas das três áreas. “As pessoas querem fazer diferente mas não sabem como chegar a isso”, diz Beatriz. “Existe o despertar, mas precisamos fazer um esforço maior para divulgar as iniciativas nesse sentido”.
Para os especialistas, o importante é não permitir que o cinismo se enraíze. Caso contrário, o País pode se deparar com dois cenários: a alienação e o afastamento cada vez maior da população das atividades políticas — o nível de abstenção nas eleições de 2014 já foi o maior desde 1998 -, ou o embarque em discursos extremistas com forte teor emocional. Ambos passam ao largo da imagem de nação feliz que o brasileiro sempre se orgulhou de ostentar. Fazer o Brasil voltar a sorrir como sempre só depende de nós, de como iremos votar e cobrar quem elegermos.
13 deputados acumulam 100 inquéritos e ações penais no STF
R$ 1 bilhão por ano é o custo da remuneração dos 513 deputados federais somados
19  dos 26 partidos  políticos com assento na Câmara são alvo de

323 inquéritos e ações penais
34 senadores são acusados de crimes
Com reportagem de Thais Skodowski