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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

As manobras petistas na PGR

Passando por cima da Lava Jato de Curitiba, o grupo de Rodrigo Janot na procuradoria da República montou um esquema para favorecer o PT e prejudicar adversários do partido, em especial, o PMDB

As manobras petistas na PGR
Há duas semanas, a futura chefe do Ministério Público Federal, Raquel Dodge, foi procurada por emissários da Lava Jato de Curitiba. Na bagagem, os integrantes da maior operação de combate à corrupção da história recente do País levaram uma denúncia. No epicentro do escândalo, a entourage do ainda procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Segundo o relato, há cerca de um ano e meio, Janot e sua equipe desenvolveram um roteiro paralelo às investigações da Lava Jato com o objetivo de favorecer o PT e seus principais líderes. Nos últimos dias, sem a anuência da turma de Curitiba, o grupo do procurador-geral resolveu protelar a homologação da delação da OAS, cujo conteúdo – “nitroglicerina pura” para Lula e o PT – já está à disposição da PGR para ser encaminhada ao STF há mais de 10 dias, para dar prioridade máxima à conclusão de forçados acordos com o ex-deputado Eduardo Cunha e o doleiro operador do PMDB, Lúcio Bolonha Funaro. O objetivo da ação seria o de fortalecer uma suposta nova denúncia contra o presidente Michel Temer. Os aliados de Janot querem, a qualquer preço, que as delações de Funaro e Cunha envolvam Temer e a cúpula do PMDB, mesmo que para isso tenham que agir ao arrepio da lei.
Os interlocutores de Raquel Dodge enxergam nos métodos nada ortodoxos do time de Janot um movimento claro, objetivo e muito bem direcionado, mas de fins nada republicanos: um esquema montado e conduzido pelo procurador-geral da República destinado a favorecer o ex-presidente Lula e os principais líderes petistas nos processos em que são alvos. Ou seja, as delações da OAS que comprometem definitivamente Lula e Dilma e narra detalhes sobre o tríplex no Guarujá e o sítio em Atibaia, casos em que o ex-presidente já é réu, ficam para as calendas. Já as delações ainda sem provas concretas que possam comprometer o presidente Temer e seus aliados são aceleradas. Há quinze dias, um dos integrantes da força-tarefa da Lava Jato sediado no Rio Grande do Sul já havia feito desabafo sobre o esquema do PT no Ministério Público a um ministro do STJ. O encontro ocorreu no saguão de embarque do aeroporto de Brasília. “Agora se sabe que a operação montada por Janot só não dominou completamente a Lava Jato porque houve uma forte resistência do pessoal de Curitiba”, sapecou.
O esquema funciona desde meados de 2015, com momentos de maior e menor intensidade. Ganhou musculatura depois do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e, nas últimas semanas, enfureceu os procuradores e agentes federais hoje mais alinhados com o coordenador da força-tarefa do MPF, Deltan Dallagnol. O estopim foi a maneira como se desenrolaram as tratativas para a delação de Eduardo Cunha. O acordo estava sendo negociado havia mais de três meses. São cerca de 100 anexos, que comprometem 20 políticos entre parlamentares e governadores. Os procuradores de Curitiba sustentam que já têm provas suficientes para apontar Cunha como chefe de uma organização criminosa e afirmam que o que ele está revelando agora já está bem caracterizado nas investigações da Lava Jato. Portanto, são contra oferecer ao deputado os benefícios da delação premiada. Apesar disso, os procuradores ligados a Janot procuram, desde julho, convencer Cunha a informar sobre uma conta ou um truste mantido em paraíso fiscal que pudesse ter ligação com o presidente Michel Temer e chegaram a oferecer ao ex-presidente da Câmara a possibilidade de ser colocado em liberdade até o final do ano. Como o peemedebista não trouxe à luz fatos que se enquadrassem às conveniências do grupo de Janot, na segunda-feira 14, os advogados de Cunha receberam a notícia de que as negociações estavam encerradas. Na última semana, procuradores próximos à futura comandante da PGR manifestaram que delações obtidas pelo esquema de Janot poderão ser alvo de revisões, o que será possível apenas com a anuência do Supremo Tribunal Federal. “Embora tenha sido indicado pelo PT e não esconda suas simpatias pelo partido, não acreditamos que o ministro Fachin, responsável por acompanhar a Lava Jato no STF, compactue com esse tipo de coisa”, afirmou à ISTOÉ um procurador ligado à Raquel Dodge na terça-feira 15.

De acordo com os relatos feitos ao grupo da futura procuradora-geral, no início da Lava Jato, o esquema de Janot procurava dificultar as delações que apontassem para os líderes do PT. Depois de aceito o processo do impeachment de Dilma na Câmara, Janot e seu grupo passaram a facilitar as delações que envolvessem adversários do PT. O objetivo era o de procurar interferir nos votos contra Dilma. “Ficou claro que há um direcionamento das delações”, afirma o procurador do Rio Grande do Sul. “Num primeiro momento para procurar evitar o impeachment colocando os líderes de todos os partidos em um mesmo saco. Agora, o roteiro de Janot é o de levar a pique o governo”.
O problema, para o procurador-geral, é que ele está cada átimo de tempo mais esvaziado na PGR. Desde que a Câmara rejeitou a denúncia contra o presidente e com a ascensão de Raquel Dodge ao posto máximo do MPF, o esquema vem ruindo como castelo de cartas. Escaldados, os procuradores antes unha e carne com Janot já atuam no sentido de se reposicionar internamente. Ninguém quer ficar carimbado como “preposto de Janot” a menos de um mês da troca da guarda na PGR. “Aos poucos, ele vai virando uma rainha da Inglaterra. Ninguém mais o obedece”, afirmou um integrante do MP de Brasília. Diante desse cenário, até a propalada segunda denúncia contra Temer estaria comprometida. “Sem as novas delações, falta substância e até apoio interno para uma nova investida contra o presidente”, acrescentou o mesmo procurador.
Claro há exceções. Uma delas é o procurador Carlos Fernando. Na semana passada, ele declarou que havia sido convidado por Temer, ainda na condição de vice-presidente, para uma conversa noturna fora da agenda, no Palácio Jaburu, para discutir os rumos da Lava Jato. O procurador não tem como provar o que diz e também não consegue explicar por que não fez tão importante revelação no momento em que o convite teria sido feito há um ano.
DELAÇÕES DIRIGIDAS

“Além do empenho em dirigir os depoimentos de Cunha, há duas delações que foram conduzidas pelo esquema de Janot para favorecer o PT”, confidenciou o procurador de Porto Alegre ao ministro do STJ. A primeira delas foi a do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. Historicamente ligado ao PMDB, Machado afirmou que líderes do partido como o ex-presidente José Sarney, o ex-ministro Romero Jucá e o senador Renan Calheiros, estariam empenhados em paralisar as investigações da Lava Jato. Como Machado não tinha como provar o que disse, ele foi orientado pela turma de Janot a gravar conversas com Sarney, Jucá e Renan no sentido de tentar obter algo que os comprometessem. A PF chegou inclusive a fornecer equipamentos de gravação e escuta para que o delator dirigido fizesse seu trabalho. As gravações foram feitas, mas não conseguiram elucidar nada. Mesmo assim, Machado teve a delação homologada. Recentemente, a PF reconheceu que a delação do ex-presidente da Transpetro se revelou ineficaz. “Não apenas quanto à demonstração da existência dos crimes ventilados, bem como quanto aos próprios meios de prova ofertados”, resumiu a delegada Graziela Machado da Costa e Silva. A delação dirigida de Machado foi feita em maio do ano passado e gerou notícias negativas para o PMDB e seus principais líderes. A votação do impeachment ocorreu três depois.
O mais flagrante esquema de favorecimento ao PT implantado por Janot na PGR se deu com a delação do empresário Joesley Batista. Nesse caso, além dos procuradores ligados ao grupo de Curitiba, as críticas também partem da Polícia Federal. Os policiais condenam com eloquência o acordo entre os sócios da JBS, os irmãos Joesley e Wesley Batista, que estão soltos, sem tornozeleira eletrônica, e tiveram até o direito de partir para um exílio dourado em Nova York. “As críticas internas são enormes”, contou um investigador à ISTOÉ. Para a Polícia Federal, os Batista não entregaram o que prometerem e, mesmo assim, continuam usufruindo dos benefícios como se tivessem cumprido o prometido. “Não havia motivo para conceder tantos privilégios a um grupo que cometeu crimes graves”, afirma outro delegado que atua há anos na Lava Jato. Janot é acusado de ter concedido um salvo conduto a Joesley, que não ficou nem um dia preso. Enquanto outros delatores não viveram esse ‘dolce far niente’. Além dos demasiados benefícios, delegados criticam abertamente a falta de provas nos acordos dos sócios da JBS. Eles entendem que apesar de todo o alarde, muito pouco foi documentado, o que fragiliza a delação.
Um dos exemplos da falta de elementos para assegurar a delação da JBS é o das investigações de contratos com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Para a Polícia Federal, os trabalhos caminhavam bem antes da assinatura dos acordos. “As investigações já estavam adiantadas, não precisava dessa delação”, disse um delegado na quarta-feria 16. “A gente alcançaria o mesmo resultado sem conceder tantos benefícios a pessoas que lesaram os cofres públicos por anos”, completou outro investigador ouvido por ISTOÉ. O objetivo do grupo de Janot ao acelerar a delação da JBS era o de desestabilizar a gestão de Temer ás vésperas da votação das reformas e obter elementos para forçar uma denúncia oficial contra o presidente.
Diante do escândalo, o grupo de Raquel Dodge já definiu que essa delação vai passar por um pente fino. Em algumas conversas, a futura procuradora- geral já afirmou que será rigorosa numa eventual revisão do caso. Ele terá que comprovar as acusações que fez. Além de facilitar e até incentivar as acusações contra o PMDB, Temer e parte do PSDB, principalmente Aécio Neves, o esquema paralelo montado por Janot dentro do Ministério Público procurou dificultar as delações que envolvem o alto escalão petista e até fez vistas grossas a algumas arbitrariedades. Quando a ex-presidente Dilma tentou nomear Lula para a Casa Civil, por exemplo, Janot cambaleou. No final de março, deu sinal verde dizendo que um presidente teria o direito de escolher seus ministros. Constrangido, foi obrigado a recuar e dez dias depois, em abril, pediu a anulação da nomeação porque o ato estava maculado de desvio de finalidade.

O esquema pró-PT passou a operar de forma mais visível e incisiva a partir de abril do ano passado, quando a Câmara dos Deputados aprovou a abertura de processo de impeachment contra ex-presidente Dilma Rousseff. Até então, a atuação do grupo se dava de maneira discreta, tentando impedir que as delações envolvendo a cúpula petista fossem homologadas. Para tanto, de acordo com um procurador que atua em Porto Alegre, Janot e seu grupo eram absolutamente rigorosos na busca de provas para tudo o que fosse revelado pelos delatores. No caso do ex-senador Delcídio Amaral, por exemplo, as confissões feitas por ele só receberam sinal verde da procuradoria após exaustiva investigação da Polícia Federal, que confirmou suas declarações por intermédio dos sistemas de segurança de restaurantes e cópias de passagens aéreas. Diretores de empreiteiras como Andrade Gutierrez e UTC só obtiveram os benefícios da delação premiada após apresentarem cópias de extratos bancários e de longas perícias feitas na contabilidade das empresas. “As exigências eram muitas e boa parte da investigação só foi avante devido o posicionamento do juiz Sérgio Moro e o respaldo encontrado por ele nos desembargadores do Tribunal Regional Federal”, disse o procurador ao ministro do STJ. Pelo bem do País e do estado democrático de direito, que hoje resvala no estado de exceção, os dias da atual gestão à frente da PGR estão contados.
Colaborou Tábata Viapiana

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A corrupção da bolivariana do PT

A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, é fisgada pela PF por corrupção passiva qualificada e lavagem de dinheiro, radicaliza o discurso e torna-se a voz mais vigorosa no partido em defesa do regime ditatorial de Nicolás Maduro

Crédito: Wenderson Araujo
É DO LEVANTE Para Gleisi, o Brasil poderia se tornar uma grande Venezuela (Crédito: Wenderson Araujo)
A senadora Gleisi Hoffmann não é apenas a representante legal do Partido dos Trabalhadores — enquanto presidente da legenda da estrela rubra. Gleisi é hoje o retrato mais bem acabado do fosso profundo em que se embrenhou a sigla. Como irmãos siameses, ambos podem ser facilmente confundidos. Cordeiro só na epiderme de porcelana, Gleisi é como o PT dos últimos tempos: posa de tolerante, mas nunca apresentou-se tão autoritária. Finge-se de democrata, mas não hesita em franquear apoio a ditaduras — como a instaurada por Nicolás Maduro, na Venezuela. Alega ser vítima de perseguição política, mas é quem melhor encarna o papel de algoz de parcela dos brasileiros. Arvora-se paladina da ética, mas é constantemente flagrada com as mãos sujas da corrupção. É a tal cegueira mental de que falava José Saramago: consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que for suscetível de servir aos seus interesses. Na última semana, a Polícia Federal concluiu um contundente relatório em que imputa a Gleisi os crimes de corrupção passiva qualificada e lavagem de dinheiro. O relatório congrega laudos técnicos, registros de telefonemas, planilhas e trechos de delações de executivos da Odebrecht e de sócios de uma agência de publicidade da qual a petista se valeu para receber propina. A partir dos documentos é possível traçar o caminho do dinheiro até Gleisi Hoffmann. Uma das planilhas em poder da PF indica as datas de oito pagamentos de R$ 500 mil cada para a campanha de “Coxa” ao Senado em 2014. Segundo a delegada Graziela Machado “existem elementos suficiente a confirmar que o codinome Coxa se refere a Gleisi Helena Hoffmann”. O esquema envolveu também o Ministro do Planejamento no governo Lula e das Comunicações no governo Dilma, Paulo Bernardo — marido de Gleisi e que chegou a preso por desviar recursos de empréstimos concedidos a servidores públicos aposentados. O conjunto de desembolsos à petista perfaz um total de R$ 4 milhões, mas os colaboradores chegaram a mencionar repasses de R$ 5 milhões apenas no ano de 2014.
SOFTWARE DE FACHADA Em 2016, a PF desbaratou o esquema da Consist, chefiado por Paulo Bernardo (Crédito:Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Setor de propinas

A apuração começou em fevereiro de 2016, quando a PF apreendeu documentos na residência de Maria Lúcia Tavares, secretária do Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, o já famoso departamento de propinas da empresa. Em dezembro do ano passado, três executivos da Odebrecht detalharam as anotações apreendidas pela PF e as mensagens de correio eletrônico relacionadas a Gleisi e ao codinome “Coxa”: o presidente do grupo, Marcelo Odebrecht, o da unidade infraestrutura, Benedicto Júnior, e o diretor da empresa na região Sul, Valter Lana. Segundo a PGR, o trio narrou “diversos repasses financeiros” nos anos eleitorais de 2008, 2010 e 2014, por solicitação direta de Paulo Bernardo. De acordo com Odebrecht, o acerto para pagar Gleisi passou pelas mãos do ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil Antonio Palocci, hoje preso em Curitiba.

O advogado do casal Rodrigo Mudrovitsch disse à ISTOÉ que as informações levantadas “não autorizam” as conclusões dos investigadores. A PF, no entanto, é taxativa: “Há elementos suficientes para apontar a materialidade e autoria dos crimes de corrupção passiva qualificada e lavagem de dinheiro praticados pela senadora, seu então chefe de gabinete, Leones Dall Agnol e seu marido, Paulo Bernardo da Silva. Os autos também comprovam que a parlamentar e seu marido, juntamente com Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Valter Luiz Arruda Lana, foram responsáveis pelo cometimento de crime eleitoral”. Agora, o destino de Gleisi está nas mãos da Procuradoria-Geral da República, a quem caberá pedir ou não seu indiciamento ao relator do caso no Supremo Tribunal Federal, o ministro Edson Fachin.
AFINIDADE ELETIVA Gleisi esteve com Maduro na posse Dilma (Crédito:Divulgação)
Espelho de um PT que deixou as bandeiras históricas de lado para enveredar pelo caminho da indigência moral, Gleisi é alvo da Lava Jato desde os primórdios da investigação. Na ocasião, os policiais descobriram que ela recebera R$ 1 milhão em propinas desviadas da estatal. Para emitir sua versão sobre esse processo em particular, no qual é ré, a senadora será interrogada pela Justiça no próximo dia 28, ao lado do marido Paulo Bernardo. É possível que o julgamento ocorra ainda este ano. O dinheiro, neste caso, foi repassado por doleiros. Seria apenas o fio de um extenso novelo que implicava o até então casal mais influente da Esplanada. A propina era desviada para um escritório de advocacia de Curitiba por meio de uma operação dissimulada: a Consist, empresa originalmente de software, fazia de conta que pagava pelos serviços advocatícios e, sem deixar digitais, os advogados bancavam as despesas do casal. Um dos sócios, o advogado Sasha Reck, depois de acusado de envolvimento na falcatrua, resolveu se mexer. Encomendou uma auditoria independente nas contas do escritório e descobriu aquilo que a Polícia Federal não levaria muito tempo para entender: o contrato de serviços jurídicos com a Consist era de fachada. A empresa também operou no Ministério do Planejamento e irrigou as contas do PT, por meio do ex-tesoureiro João Vaccari — razão pela qual Bernardo amargou seis dias na prisão, em 2016.
Gleisi discursa durante abertura do 23o encontro do Foro de São Paulo (Crédito:Divulgação)
“O PT manifesta seu apoio e solidariedade ao governo do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), seus aliados e ao presidente Maduro, frente à violenta ofensiva da direita contra o governo da Venezuela”
“Gostando-se ou não de Maduro, ele tem legitimidade, foi eleito na urna, o que não é o caso de quem governa o Brasil”
“Temos a expectativa que a Assembléia Constituinte possa contribuir para uma consolidação cada vez maior da revolução bolivariana e que as divergências políticas se resolvam de forma pacífica”
“A vitória da Assembleia Constituinte demonstra claramente que é possível enfrentar e derrotar as novas táticas eleitorais e golpistas da direita”
“No Brasil também defendemos uma Constituinte para implantar as reformas”
Como é possível notar, Gleisi e PT sempre tiveram tudo a ver. Hoje, suas conveniências entrelaçam-se mais do que nunca. Em junho, Gleisi conquistou a presidência do partido com 60% dos votos dos delegados. Em sua primeira declaração, disse que o partido não iria fazer autocrítica de seus atos escabrosos “porque não contribuiria para fortalecer o discurso dos adversários”. “Não somos organização religiosa, não fazemos profissão de culpa, tampouco nos açoitamos. Não vamos ficar enumerando os erros que achamos para que a burguesia e a direita explorem nossa imagem”, discursou Gleisi. Em seguida, na mesma toada de seu padrinho mais ilustre, o ex-presidente Lula, a senadora petista passou a dourar outra narrativa: a de vítima. Foi para exercitá-la que “Coxa” foi guindada ao posto também com a bênção de José Dirceu. Em recente reunião em sua residência, o ex-capitão do time de Lula assim classificou a petista: “Ela é orgânica e focada”.
Além de se esgueirar dos avanços da PF sobre ela, o foco da presidente petista, ultimamente, consiste em tecer loas ao regime ditatorial de Nicolás Maduro, na Venezuela. No PT, a senadora é quem entoa com mais vigor o discurso pró-Maduro. Desde o início da repressão, Gleisi deu toda sorte de demonstrações de solidariedade ao governo venezuelano. No último Congresso do PT, por exemplo, recebeu uma delegação da embaixada venezuelana. Presente ao evento, o ex-presidente Lula não mencionou o tema, como era aguardado, uma vez que na campanha eleitoral ele havia gravado um vídeo em favor de Maduro. Razão: ele e outros petistas seriam contra a Constituinte, em dissonância com o que tem pregado Gleisi. No partido, no entanto, há quem diga tratar-se de uma estratégia. Enquanto Lula é poupado da exposição a um tema para lá de delicado, caberia a presidente do PT, por assim dizer, o “serviço sujo” — o qual ela pratica com convicção e impressionante entusiasmo.
PT ajudou a bancar a ditadura de Maduro
De 2006 a 2014, os governos de Lula e Dilma financiaram, por meio do BNDES, importantes projetos na Venezuela
Sem segredo
Ao abrir o 23º encontro do Foro de São Paulo, dia 16 na Nicarágua, a presidente do PT declarou, em nome do partido, apoio ao governo do Partido Socialista Unido da Venezuela. “O PT manifesta o seu apoio e solidariedade ao PSUV, seus aliados, e ao presidente Nicolás Maduro, frente à violenta ofensiva da direita pelo poder na Venezuela. Temos a expectativa de que a Assembleia Constituinte possa contribuir para uma consolidação cada vez maior da revolução bolivariana e que as divergências políticas se resolvam de forma pacífica”, disse. O endosso da Constituinte feito por Gleisi carrega um outro significado: escancara o desejo irrefreável do PT de executar um programa bolivariano no País. Nos 13 anos em que esteve no poder foram inúmeras as tentativas de aplicá-lo, sem sucesso devido à solidez de nossas instituições. Mas o programa de censura a meios de comunicação e perseguição a adversários políticos, caso o partido retorne ao poder, já não constitui mais um segredo de polichinelo no PT, a julgar pelos recentes discursos de Lula.
Independentemente das reais intenções, o apoio à ditadura de Maduro representa, sem sombra de dúvida, a página mais vergonhosa da história do Partido dos Trabalhadores e, consequentemente, de Gleisi. O que se vê por lá é uma catástrofe humanitária sem precedentes. Os números são eloquentes, por desoladores. Em quatro Estados daquele País, a desnutrição infantil já alcança 20% das crianças com menos cinco anos de idade. O País amarga ainda a segunda maior taxa de homicídios do mundo. O índice de assassinatos em Caracas é 14 vezes maior que o de São Paulo, por exemplo. A inflação projetada para este ano é de 2.200%. Para se manter a qualquer custo no poder, Maduro apela para a violência extrema. Só nas últimas semanas, a guerra civil conflagrada no País deixou um saldo de mais de 100 mortes. É para ele que Gleisi bate palmas. Para justificar essa cumplicidade, os petistas, Gleisi à frente, praticam uma desonestidade intelectual: cada denúncia contra o regime é encarada como parte de uma campanha da CIA ou da imprensa “golpista”. Nada mais falso. São os órgãos internacionais de defesa dos direitos humanos, nos quais se escudaram a esquerda latino-americana no passado, quem mais apontam para os descalabros venezuelanos. “Na Venezuela toda a gama de direitos humanos é violentada. Direitos econômicos, sociais, culturais. As liberdades fundamentais, o direito à associação, a liberdade de expressão. Está havendo um contexto repressivo e militarizado diante das demonstrações de descontentamento social, no qual, além disso, são feitas detenções arbitrárias como ferramenta de controle, de calar as vozes da dissidência”, afirmou recentemente Erika Rivas, diretora da Anistia Internacional para as Américas.
Não foram apenas as afinidades eletivas que levaram Gleisi a alcançar a presidência do PT. A senadora se cacifou para assumir o partido quando passou a adotar a postura de líder da tropa de choque de Lula e Dilma no Senado. Na verdade, começava ali a manchar publicamente a própria biografia. Depois do impeachment, para deleite do petismo, ela transformou sua atividade parlamentar em sinônimo da política do quanto pior melhor, promovendo uma oposição inconsequente que em nada contribui para o avanço do País. A postura da presidente do PT ecoou entre os eleitores. Recentemente, Gleisi conversava com um jornalista quando foi abordada por uma cidadã: “Oi, Gleisi, você já está preparada para ser presa?”, perguntou. Ao que a petista replicou com uma resposta atravessada. “Não, querida, mas você pode ir”. Resultado: abriu o flanco para tomar outra invertida. “Eu não. A bandida aqui não sou eu”, sapecou a mulher. O diálogo foi gravado e viralizou nas redes sociais. Internamente no partido, a atitude intempestiva da senadora não foi bem recebida. Houve quem recomendasse recato, no momento em que a sigla experimenta a maior crise de sua história. Ela não aquiesceu.
O PT A CONHECE BEM

Outro motivo de desgaste interno é a maneira imprudente, para dizer o mínimo, com que Gleisi sempre escolheu seus assessores mais próximos. Seu mais lamentável intento foi nomear Eduardo Gaievski (PT/PR) para trabalhar no gabinete contíguo o da presidente deposta Dilma Rousseff (PT), quando ela era ministra da Casa Civil. E, pasme, como responsável pelas políticas da Presidência para Jovens e Adolescentes. Gaievski não tem currículo. Ostenta uma ficha corrida de dar calafrios. Hoje ele é acusado de crimes sexuais, sendo a maior parte deles contra menores. Na sequência, Gleisi escolheu o deputado André Vargas (PT/PR) para chefiar sua campanha ao governo do Paraná, para depois ter de afastá-lo pelo envolvimento com o doleiro Alberto Youssef e o ex-Diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, em fraudes investigadas pela PF. A petista não pode alegar que desconhecia a face mais obscura de Vargas. Em 1998, ele foi indiciado por desvio de R$ 14 milhões da Prefeitura de Londrina (PR) para abastecer o caixa 2 da campanha a deputado do seu marido Paulo Bernardo. Na verdade, ela o conhecia muito bem. E era por isso que ele estava lá. É como ela própria, Gleisi: é por conhecê-la a fundo que o PT a alçou ao comando máximo da legenda.
Os malfeitos de Gleisi

• A senadora Gleisi Hoffmann é investigada no STF por ter recebido R$ 1 milhão em propinas da Odebrecht para sua campanha ao Senado em 2010
• No próximo dia 28, ao lado do marido Paulo Bernardo, Gleisi estará sentada no banco dos réus para dar sua versão sobre o caso
• O dinheiro era repassado a Gleisi por doleiros. A propina era desviada por um escritório de advocacia de Curitiba
• O casal Gleisi e Paulo Bernardo usava a empresa de software Consist para simular o pagamento de serviços advocatícios. Na verdade, era por meio dela que o casal tinha suas contas pessoais bancadas. A Consist também mantinha polpudos contratos com o Ministério do Planejamento, comandado por Paulo Bernardo durante o governo Dilma
• No departamento de propinas da Odebrecht foram encontradas planilhas de três repasses de R$ 150 mil cada, no total de R$ 450 mil, feitos à Coxa, o codinome de Gleisi. Os pagamentos foram feitos entre 2008 e 2010
• A senadora está sendo julgada na Comissão de Ética do Senado por quebra de decoro, ao invadir a mesa diretora do Senado, em 11 de julho deste ano
Colaborou Eduardo Militão

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Militares transexuais acionam Trump na justiça

Militares transexuais acionam Trump na justiça
O presidente americano Donald Trump em Bedminster, Nova Jersey, no dia 8 de agosto de 2017 - AFP
Cinco mulheres militares transexuais acionaram o presidente americano, Donald Trump, e ao Pentágono na justiça após o recente anúncio de que as pessoas transgênero não poderiam mais trabalhar no exército.
Nas ações, interpostas nesta quarta-feira ante um tribunal federal, as mulheres -que integram a aviação, o serviço de guarda-costas e o exército- se referem à incerteza sobre seu futuro, assim como sobre a possibilidade de perder seus direitos pós-militares (em especial o de aposentadoria).
Um porta-voz do Pentágono não quis comentar o caso por se tratar de um litígio em curso.
Em uma série de tuítes há duas semanas, Trump voltou atrás sobre uma medida aprovada por seu antecessor Barack Obama mais de um ano antes.
“Após consultas com meus generais e especialistas militares, deem-se por informados de que o governo dos Estados Unidos não aceitará e não permitirá às pessoas transgênero desempenhar alguma função nas Forças Armadas americanas”, afirmou na época.
O anúncio foi feito com pouca ou nenhuma coordenação com o Pentágono e durante as férias do secretário de Defensa, Jim Mattis.
A ação é contra Trump, Mattis e outros altos funcionários militares. Foi interposta pelo Centro Nacional para os Direitos das Lésbicas (NCLR, na sigla em inglês) e pela Aliança Gay e Lésbica contra a Difamação (GLAAD). Nenhuma das demandantes se identificou.
“A diretriz de Trump de excluir as pessoas transgênero dos serviços das Forças Armadas tem gerado muito dano a nossos militares”, disse Shannon Minter, diretor jurídico do NCLR.
“Os militares transgênero foram tomados de surpresa com este anúncio e têm dificuldades para entender o que significa para seu futuro e para suas famílias”, acrescentou.
De acordo com a demanda, restabelecer a proibição é inconstitucional.
Segundo as estimativas, de 1.320 a 15.000 transexuais servem no exército dos Estados Unidos, com 1,3 milhão de militares em serviço ativo.
Desde o anúncio presidencial, a Casa Branca não detalhou ao Pentágono o procedimento a seguir, motivo pelo qual a política de aceitação de pessoas transgênero se mantém sem mudanças concretas até agora.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Janot tem 'obsessiva conduta' e 'motivação pessoal', diz defesa de Temer

Por meio de seu advogado, presidente pediu a suspeição de procurador-geral da República, que o denunciou por corrupção passiva no caso JBS

Brasília - Ao Supremo Tribunal Federal (STF), a defesa do presidente Michel Temer afirmou nesta terça-feira, que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, tem "uma obsessiva conduta persecutória". Por meio de seu advogado, o criminalista Antônio Claudio Mariz de Oliveira, o presidente pediu a suspeição - e impedimento - de Janot, que o denunciou por corrupção passiva no caso JBS.
Temer disse que preocupação com segurança no Rio 'é de todos os brasileiros' Márcio Mercante / Agência O Dia
"A motivação, tudo indica, é pessoal. Estamos assistindo a uma obsessiva conduta persecutória. O E. Procurador-Geral - em que pese o máximo respeito que devotamos à sua pessoa e à Instituição a que pertence - parece se sentir incumbido de uma missão maior, que extravasaria suas funções protocolares, a autorizar o emprego de medidas não amparadas pelo ordenamento legal", afirmou a defesa à Corte máxima.
A estratégia de Temer, ao pedir a suspeição de Janot, e se antecipar a uma possível nova denúncia do procurador. A primeira acusação formal de Janot foi recusada pela Câmara dos Deputados em 2 de agosto por 263 votos a 227. A autorização para eventual processo no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o peemedebista precisava do aval de 2/3 dos deputados, ou 342 de 513.
A denúncia do procurador-geral da República tinha base na delação dos acionistas e executivos do Grupo J&F, que controla a JBS. O ex-assessor especial do presidente e ex-deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) também é acusado formalmente.
O procurador afirma que o ex-deputado era "pessoa de mais estrita confiança" de Temer "para tratar dos interesses escusos de Joesley Batista junto ao Governo Federal".
Segundo a acusação formal da Procuradoria-Geral da República, entre os meses de março e abril de 2017, em Brasília e em São Paulo, Temer recebeu, por intermédio de Rocha Loures, vantagem indevida de cerca R$ 500 mil. O dinheiro teria sido ofertado por Joesley Batista.
No pedido de suspeição, a defesa de Temer citou uma fala de Janot em 1.º de julho, no 12.º Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Na ocasião, o procurador, afirmou que "enquanto houver bambu, lá vai flecha" e que até o dia 17 de setembro - data em que termina o mandato de Janot - a "caneta" é dele.
"Flechará, pois tem a caneta, se os alvos forem reais ou meramente fruto de sua imaginação, portanto quixotescos, pouco importa. Importa atirar", afirmou Mariz.
"Portanto, provar é de somenos, o importante é flechar. Parece pouco interessar ao Procurador se o alvo a ser atingido, além da pessoa física de Michel Temer, é a instituição Presidência da República; as instituições republicanas; a sociedade brasileira ou a Nação. O fundamental é dar continuidade à sua sanha de arqueiro contumaz."

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A desfaçatez de Lula

O petista freqüenta o sítio de Atibaia desde quando era presidente. Esteve no local 270 vezes. Reformas foram realizadas por empreiteiras a seu pedido. Mesmo diante de provas irrefutáveis, Lula insiste no discurso de que nada sabia

A desfaçatez de Lula
Dezembro de 2010. Lula ainda era presidente. Dona Marisa, falecida no início deste ano, procurou Emílio Odebrecht, dono da Construtora Odebrecht, e pediu para que a empreiteira reformasse o sítio de Atibaia, onde o então presidente passaria a descansar depois que deixasse a Presidência. “Vou para o meu sítio”, contou Lula a amigos. O patriarca da empreiteira ordenou, então, que Alexandrino Alencar, diretor da companhia, se encarregasse das benfeitorias. Com a propriedade moldada a seu feitio, o petista e sua família passaram a frequentar o local religiosamente. Em seis anos, esteve no sítio por 270 ocasiões. Até a eclosão das denúncias contra ele, ao se manifestar sobre o paradeiro do ex-presidente, sua assessoria emitiu pelo menos 12 notas oficiais em que afirmava com todas as letras que o petista passaria os fins de semana “em sua casa de veraneio em Atibaia”. Ou seja, até ser acossada pela Lava Jato, a família Lula não tinha o menor constrangimento em reconhecer o imóvel como seu. A retórica se ajustou à luz dos novos fatos. Agora, perto de ser condenado de novo em primeira instância, Lula, que se tornou réu pela sexta vez na última semana, recorre a subterfúgios para negar o óbvio ululante: que o sítio lhe pertence e foi repaginado pelas empreiteiras OAS e Odebrecht como contrapartida a obtenção de contratos na Petrobras.
No total, as empreiteiras gastaram R$ 1,025 milhão nas reformas do sítio, conforme concluiu o juiz Sergio Moro, ao aceitar, na terça-feira 1, a denúncia contra Lula por corrupção e lavagem de dinheiro. Em seu despacho, Moro afirmou que o ex-presidente “teria participado conscientemente do esquema criminoso. Como parte de acertos de propinas destinadas à sua agremiação política, o grupo Odebrecht e o grupo OAS teriam pago vantagem indevida ao ex-presidente Lula consubstanciada em reformas no sítio de Atibaia por ele utilizado”. Formalmente, o sitio está registrado em nome de Jonas Suassuna e Fernando Bittar, sócios de Lulinha. Mas extraoficialmente, “a propriedade é de Lula”, diz o juiz. “O sítio passou a sofrer significativas reformas ainda em 2010, durante o mandato presidencial e que prosseguiram até 2014”, lembrou Moro. Lá, foram feitos investimentos “sempre com o conhecimento de Luiz Inácio”.
Para comprovar que Lula é o verdadeiro dono do sítio, o MPF anexou ao processo mensagens eletrônicas trocadas entre o caseiro da propriedade, conhecido como Maradona, com seguranças do ex-presidente. Uma delas falava que “um pintinho” havia sido atropelado pela “perua”. O MPF ainda incluiu na denúncia que, quando a PF fez buscas no local, roupas e bens pessoais do petista e de dona Marisa estavam guardadas no quarto do casal. Até uma camisa do Corinthians, escrito Lula nas costas, foi apreendida. Também foram encontradas notas fiscais de compra de material de construção – em nome de Marisa. Em outra devassa feita no imóvel de Lula em São Bernardo, a PF apreendeu uma minuta da escritura de compra e venda do sítio. Estava lá a digital do advogado de Lula, Roberto Teixeira, a quem coube preparar o documento de compra e venda em nome de Fernando Bittar. Um verdadeiro “batom na cueca”, como se diz no jargão policial quando há provas irrefutáveis de um crime.
A reforma de R$ 1 milhão

• O MPF afirma que Lula é o verdadeiro dono do sitio de Atibaia
• A propriedade, no entanto, está em nome de Fernando Bittar e Jonas Suassuna, sócios de seu filho Lulinha
• O imóvel está avaliado em R$ 1, 5 milhão
• Mas, a pedido de Lula, a Odebrecht, a OAS e seu compadre José Carlos Bumlai, gastaram R$ 1,025 milhão para reformar a propriedade
• Lula diz que não é dono do local, mas nos últimos 6 anos esteve lá 270 vezes
• Em emails, o caseiro do sítio, Maradona, comunicava os seguranças de Lula até sobre a morte de “pintinhos” na propriedade
• Em buscas em seu apartamento, a PF encontrou uma minuta da escritura do sítio

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

MPF denuncia 16 suspeitos de integrar quadrilha que trouxe fuzis pelo Galeão

quadrilha que trouxe fuzis pelo Galeão

Organização foi descoberta após a apreensão de 60 armas de guerra no terminal de cargas do aeroporto, em junho deste ano

Rio - O Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro denunciou, nesta quarta-feira, 16 suspeitos de integrar a quadrilha de tráfico internacional de armas descoberta em junho deste ano, quando 60 fuzis de guerra foram encontrados pela polícia no Terminal de Cargas do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro (Galeão).
Armas apreendidas no setor de cargas do Galeão WhatsApp O DIA (98762-8248)
Segundo o MPF, entre 2014 e 2017 os acusados importaram armas ilegalmente 75 vezes. Fuzis, carregadores e munições eram disfarçados nas declarações de importação como aquecedores e bombas de água. Os objetos eram trazidos de Miami, nos Estados Unidos.
As autoridades estimam que, durante três anos, quase 300.000 munições e cerca de 1.000 fuzis com carregadores tenham sido trazidos para o Brasil pela quadrilha. As armas eram compradas por valores entre US$2,5 mil e US$3,5 mil (aproximadamente entre R$7,8 mil e R$10,9 mil na cotação atual) e vendidas por entre R$37,5 mil e R$53 mil.
Barbieri Divulgação
Os denunciados Frederik Barbieri, Ana Cláudia Santos, João Filipe Cordeiro Barbieri, Alexandre Cláudio Duarte Pires, Edson da Silva Ornellas, Mrcus Garrido Lourenço, Cláudio Alves Mendonça, Márcio Pereira e Costa, João Victor Silva Roza, Gil dos Santos Almeida, José Carlos dos Santos Lins, André Callil Assen, Victor Hugo Ferreira dos Santos Cardozo, Francisco Souza Siqueira e Luciano de Andrade Faria são acusados de organização criminosa, tráfico internacional e comércio ilegal de armas de fogo, munições e acessórios de uso restrito. Quatorze denunciados tiveram a prisão preventiva decretada.
As investigações revelaram a existência da quadrilha, chefiada por Frederik Barbieri, que tem dupla nacionalidade (brasileira e americana), sua esposa Ana Cláudia Santos e seu filho João Filipe Cordeiro Barbieri. As armas eram distribuídas a facções criminosas do Rio de Janeiro.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Aumenta satisfação com o Aeroporto de Fortaleza

Índice passou de 4,30, no primeiro trimestre deste ano, para 4,32 no segundo trimestre, segundo pesquisa
O grau de satisfação geral dos passageiros do Aeroporto Internacional Pinto Martins, em Fortaleza, melhorou no segundo trimestre de 2017 em relação ao primeiro trimestre, passando de 4,30 para 4,32, segundo a última pesquisa realizada pela Secretaria de Aviação Civil (SAC) divulgada ontem (31) pelo Ministério dos Transportes.
No ranking geral dos 15 aeroportos brasileiros pesquisados, o Aeroporto de Fortaleza ficou em 10º lugar, na frente dos terminais de Manaus (4,29), Porto Alegre (4,23), Congonhas (4,17), Cuiabá (4,07) e Salvador (3,86). O Aeroporto de Viracopos, em Campinas, aparece na primeira colocação com nota de 4,90, seguido dos terminais de Curitiba (4,74), Brasília (4,58), Recife (4,49), Confins (4,47), Santos Dumont (4,47), Natal (4,42), Guarulhos (4,41) e Galeão (4,34).
Indicadores
No resultado por indicador de satisfação, o Aeroporto de Fortaleza ganhou destaque nos seguintes quesitos em relação aos demais terminais: Tempo de fila na emigração (4,83), Disponibilidade de assentos na sala de embarque (4,80), Cordialidade e prestatividade dos funcionários do check-in (4,63), Qualidade da informação prestada pela cia aérea (4,58), Disponibilidade de tomadas (4,35) e Disponibilidade e localização de bancos/caixas eletrônicos/casas de câmbio (4,01).
Na outra ponta, as piores notas na comparação com os demais foram: Custo-benefício do estacionamento (2,57), Custo-benefício dos produtos de lanchonetes e restaurantes (2,98), Custo-benefício dos produtos comerciais (2,99), Tempo de fila da aduana (3,00), Qualidade da internet / wi-fi disponibilizada pelo aeroporto (3,15), Facilidade de Desembarque no meio-fio (3,90) e Cordialidade do funcionário da aduana (3,93).
Resultados gerais
Neste segundo trimestre foram entrevistados 13,1 mil passageiros, sendo que quase metade dos viajantes (49%), deram notas 5 (muito bom) para o indicador de satisfação geral avaliado na pesquisa. O resultado foi a maior porcentagem registrada da série histórica desde o início da coleta de dados, em 2013. Outros 43% avaliaram com notas 4 (bom), 7% com notas 3 (regular) e apenas 1% com notas 2 (ruim).
Além disso, entre os 15 terminais avaliados, 14 tiveram nota acima de 4 - média estipulada pela Conaero (Comissão Nacional de Autoridades Aeroportuárias), - e todos eles apresentaram melhoria em relação a si mesmo na comparação com o segundo trimestre de 2016.
Pela segunda vez consecutiva, o Aeroporto Internacional Marechal Rondon, em Cuiabá, apresentou a maior evolução no índice de satisfação geral de um aeroporto em relação a si próprio. O crescimento desta vez foi de 21,1%, considerando o segundo trimestre de 2016 e de 2017.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

O “laranja” do posto da Lava Jato

Um homem que usa roupas “puídas e manchadas” é dono de hotéis e empresas de fachada. A PF o trata como testa de ferro da família Chater, dona do Posto da Torre, que deu origem à Operação Lava Jato, e que agora é acusado de movimentar ilegalmente US$ 2 bilhões

Crédito: Divulgação
TV DE TUBO Sebastião Corrêa, que aparece como dono de hoteis e empresas, leva vida humilde e suspeita (Crédito: Divulgação)
É uma pessoa muito humilde, sem vaidade e ostentação. Esse é seu Sebastião Corrêa, segundo seu advogado. De fato, ele é um homem de idade avançada, que mora num apartamento de um hotel decadente em Brasília, o Bay Park, no qual a PF encontrou “mobiliários simples e um tanto desorganizados”, além de “poucas peças de roupas puídas e manchadas”. Mas foi lá também que os policiais tiveram uma surpresa. Em meio à bagunça do lugar, a PF apreendeu US$ 25 mil e R$ 129 mil em dinheiro vivo num cofre, moedas pelo chão e uma caixa com R$ 5 mil em notas de R$ 2, assim como um revólver 38 com seis balas. Foi com esse paradoxo que a PF descreveu Sebastião Corrêa em seu relatório de busca e apreensão realizada em 26 de abril, quando o prendeu em flagrante por posse irregular de arma de fogo – ele foi solto no mesmo dia após pagar fiança de R$ 1 mil.
Os agentes da PF foram até o Bay Park, à beira do Lago Paranoá, no Setor de Hotéis e Turismo Norte em Brasília, como parte da Operação Perfídia, que investiga a atuação empresarial do genro de Sebastião Alves Corrêa, Tony Chater, e a irmã dele, Cláudia Chater – ambos são primos do doleiro Carlos Habib Chater, condenado a dez anos de prisão pelo juiz Sérgio Moro na Operação Lava Jato. Chater é dono do Posto da Torre, em Brasília, onde funcionava uma casa de câmbio e um lava jato de automóveis, que acabou emprestando o nome para a Operação Lava Jato, a maior devassa ao meio político da história do País. No hotel, os agentes encontram o empreendimento em situação de “abandono” e “com mais da metade do complexo desativado”, de acordo com relatório obtido por ISTOÉ. Apesar disso, nove prédios com total de 810 apartamentos estão em construção no local.
A Operação Perfídia investiga documentos apreendidos com a família Chater que apontam que eles “lavaram” mais de U$ 2 bilhões para políticos de Brasília, cujos nomes ainda estão sendo investigados. E a PF quer saber porque o Bay Park, que aparece nessa investigação, está em nome de Sebastião, um homem que ainda usa uma velha TV com tubo em seu apartamento. Para a PF, ele é “laranja” dos familiares do dono do Posto da Torre.
Mas, afinal, o que é o Bay Park? A reportagem obteve documentos da PF revelando que ao menos quatro empresas funcionam no mesmo endereço do Setor de Hoteis e têm o nome fantasia ou endereço eletrônico indicando “Bay Park” perante a Receita Federal: Brasil Hospedagens, Correia Hospedagem, Marina Tour e Lago Paranoá. As duas primeiras estão em nome de Sebastião e a terceira já esteve em nome dele. A Marina está em nome de Arolita, a filha de Sebastião, e do marido dela, Tony Chater. A Lago Paranoá está registrada em nome de Arolita e da prima Raimunda Neves. O emaranhado de empresas logo foi percebido pela PF. “Foi constatado que a família possui um estranho hábito de constituir empresas e alternar seus quadros sociais entre os familiares, encerrando e criando razões sociais distintas para explorar o mesmo segmento com o mesmo nome fantasia”, analisa o relatório do delegado Renato Pagotto.
Quem é dono do Bay Park?

Segundo a PF, Sebastião “tem ou já teve participação societária na maioria das empresas do grupo” investigado na Operação Perfídia. A hipótese dos agentes e delegados é que ele “supostamente participa da abertura de empresas de fachada e da movimentação financeira do grupo”. No relatório de busca e apreensão, os policiais afirmam que Sebastião “controla precariamente a contabilidade da empresa Bay Park Hotel”. No mesmo dia 26 de abril, houve buscas contra o filho dele, Airam Corrêa. “Ficou evidente que o padrão de vida ostentado por ambos os alvos de investigação é infinitamente inferior ao volume de recursos movimentados pela família e suas empresas”.
LAVANDERIA INFLAMÁVEL A operação Lava Jato começou no posto da família Chater, para quem Sebastião estaria se prestando a “laranja”
E quem é o dono do Bay Park? O advogado de Sebastião, Arolita e Airam, Luiz Philipe Resende, diz que o hotel é da empresa Lago Paranoá, pertencente à mulher de Tony. Sebastião administra essa firma? “Diretamente não”, responde o advogado. Segundo ele, o homem leva vida simples e não tem nenhum sócio ou investidor informal. “Ele trabalha 24 horas, é incansável, tudo o que ganha é reinvestido”, descreve. “Ele não tem vaidade, tem vontade de trabalhar e fazer patrimônio. É isso que tem feito a vida toda”. Mas, para a PF, a situação de Sebastião não é bem essa. Ele é suspeito de ser “laranja” da família Chater e de estar sendo usado para “lavar” dinheiro de operações fraudulentas, que encobrem quem mandou para o exterior pelo menos U$ 2 bilhões nos últimos tempos.
O DOLEIRO Carlos Habib Chater foi quem detonou a Lava Jato
Sebastião é sogro de Tony Chater, acusado de movimentar dinheiro ilegal. PF desconfia que seja laranja
A PF tenta descobrir qual a relação do Bay Park com o resto da Operação Perfídia. Philipe Resende e o advogado de Tony e Cláudia, Ennio Bastos, dizem que não há ligação. Na casa de Cláudia, foram encontrados documentos mencionando o envio de cerca de US$ 5 bilhões da Venezuela para a Dinamarca. Mas Bastos afirma que aquilo era apenas um “modelo de contrato” que se encontra na internet. A assessoria da PF afirmou à ISTOÉ que a Perfídia “é uma investigação em andamento e na qual foram encontrados documentos que carecem de explicação”. Cláudia Chater foi solta pelo juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara, em 6 de julho. Segundo Bastos, ela e o irmão foram envolvidos indevidamente no caso. “É uma peça de ficção científica”, critica. Por telefone, Tony Chater negou quaisquer ilegalidades e afirmou que a Operação Perfídia não tem provas contra ele. A PF diz que este caso da família Chater pode se transformar numa nova operação, tão importante como foi a Lava Jato. É esperar para ver.

Um patrimônio sob suspeição
Polícia Federal está intrigada com as propriedades em nome do humilde de Sebastião Corrêa
• O Bay Park, à beira do Lago Paranoá, fica no Setor de Hotéis e Turismo Norte e está em situação de “abandono”, “com mais da metade do complexo desativado”. Apesar disso, nove prédios com total de 810 apartamentos estão em construção
• Ao menos quatro empresas funcionam no mesmo endereço e têm o nome fantasia ou o endereço eletrônico indicando “Bay Park”: Brasil Hospedagens, Corrêa Hospedagem, Marina Tour e Lago Paranoá. Duas estão em nome de Sebastião Corrêa, uma já esteve em nome dele, duas estão em nome da filha dele, uma está em nome também de seu genro Tony Chater
• No apartamento de Sebastião, a PF encontrou “mobiliários simples e um tanto desorganizados”, além de “peças de roupas simples, puídas e manchadas”, um revólver 38 com seis balas, sistema de segurança com câmeras, US$ 25 mil e R$ 125 mil em dinheiro vivo
• Para a PF, Sebastião “controla precariamente a contabilidade da empresa Bay Park Hotel, mas “o padrão de vida ostentado” foi considerado “infinitamente inferior ao volume de recursos movimentados pela família e suas empresas”

terça-feira, 25 de julho de 2017

Uma geração perdida para as balas

Incapacidade do Estado em garantir a segurança de alunos da rede pública do Rio de Janeiro ameaça o futuro de milhares de jovens e provoca alerta até do Fundo das Nações Unidas para a Infância

Crédito: Silvia Izquierdo
A advertência vem da instituição internacional com maior autoridade no assunto: “Interrupções seguidas em ambientes
GUERRA Moradora do Complexo da Maré, Kelly Santos da Silva já teve de se jogar no chão com o filho de
3 anos para escapar dos tiros (Crédito:Marcelo Tabach)
violentos afetam negativamente a capacidade de uma criança de se concentrar e de aprender”. A declaração do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), na quinta-feira 20, é dirigida ao Rio de Janeiro.
O que aconteceu até agora na capital fluminense é suficiente para comprometer todo o ano letivo: quase 130 mil alunos de estabelecimentos municipais ficaram sem aulas pelo menos um dia e 381 colégios tiveram que fechar as portas (leia quadro) devido à troca de tiros entre facções rivais de traficantes, entre bandidos e policiais ou devido ao toque de recolher determinado pela milícia. Somente em oito dias do primeiro semestre todas as unidades funcionaram normalmente.
Essa aberração não tem encontrado anteparo nos planos da Secretaria Estadual de Segurança Pública para conter a violência, e o jeito tem sido tentar sobreviver no clima de terror. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha, por exemplo, concluiu, semana passada, um treinamento dado a representantes de colégios localizados em áreas de risco. Eles ensinam “comportamento seguro em meio a balas” — um absurdo, mas que no Rio de Janeiro poderia ser incluído no rol de matérias curriculares.
Assim como nas escolas, os pais incluem, entre os deveres de casa, estratégias para que os filhos consigam fugir dos tiros. “Quando você ouvir um barulho muito alto, corra para o abraço”, diz Kelly Santos da Silva, 27 anos para o filho Gael, de 3 anos.
É a maneira lúdica que ela encontrou para estimular o garotinho a procurar alguém que possa ajudá-lo. “Um dia, voltávamos da escola quando começou uma guerra. Me joguei no chão com ele enquanto as cápsulas de balas caíam ao nosso redor”, recorda ela, que é moradora do Complexo da Maré.
Alguém pode aprender em um lugar assim? A filósofa e escritora Tania Zagury responde: “Um ser humano só tem condição de se interessar por aprendizado se suas necessidades básicas estão satisfeitas”. A sobrevivência, claro, é a primeira delas. “Apenas um milagre faria um aluno ficar interessado em aula enquanto há uma troca de tiros do lado de fora da escola”.
TOQUE DE RECOLHER

No início de agosto começa o segundo semestre escolar em todo o País. Quase todo. Pelo menos algumas escolas de Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro, não sabem se poderão reabrir. Por ordem de milicianos, as portas devem ser fechadas às 20h30, o que impede a realização de aulas noturnas e prejudica cerca de mil alunos. “A gente fica sem saber o que fazer até o momento em que eles mandam avisar se pode ou não dar aula”, disse um diretor de escola que não quis se identificar.
Na luta para minimizar os efeitos nefastos da violência, os professores desempenham papel importante. Roberto de Oliveira Ferreira, que leciona Música no Ciep Roberto Morena, na comunidade de Três Pontes, em Paciência, tem uma senha combinada com seus pequenos alunos: “Vamos para o corredor. Vai ter aula diferente.” Ao ouvir a frase, a criançada senta no chão e começa a cantar ao som do violão do professor, até os tiros pararem de zunir. “Tentamos minimizar o trauma e acalmá-los, além de proteger.”
“Se tem tiro, meu filho não vai à escola. Prefiro ele sem aula do que morto por bala perdida” Alice da Silva, mãe de Luís Felipe, 8 anos
Um levantamento da Secretaria Municipal de Educação mostra que a evasão escolar é alarmente em áreas de risco. No ano passado, 821 alunos de 20 escolas situadas em locais de conflitos abandonaram os estudos. Segundo estudo da ONG Todos Pela Educação com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) cerca de 2,5 milhões de crianças com idade entre 4 e 17 anos estão fora das salas de aula no Brasil. A violência carioca só faz piorar o quadro. “Quando tem tiro, meu filho não vai. Prefiro ele sem aula do que morto por bala perdida”, diz, categórica, Alice da Silva, mãe de Luís Felipe, 8 anos, estudante da Escola Barão Homem de Mello, no Morro dos Macacos, onde eles moram. Se o garoto não vai para a aula, a mãe, que é manicure, também não tem como trabalhar — um ônus extra da violência em comunidades pobres.
NO CHÃO Alunos deitados na escola para fugir de tiros, (Crédito:MAURO PIMENTEL)
O presidente da Associação Pró-Melhoramento do Morro dos Macacos, Marco Aurélio da Cruz Alves, resume: “As crianças crescem vendo tiros e armas para todos os lados, tendo que faltar às aulas devido a confrontos armados. Muitas delas acabam se envolvendo com ‘o lado ruim’ por falta de estudo e oportunidades.” No dia 17 de agosto haverá um ato no Aterro do Flamengo, na zona sul carioca, reunindo todas as escolas em um apelo à paz. Para o secretário municipal de Educação, César Benjamin, as instituições educacionais “são, cada vez mais, espaços de resistência da civilização contra a barbárie.” Por enquanto, a barbárie está vencendo.
Professores são treinados pela Cruz Vermelha (Crédito:Divulgação)

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Onde foram parar os escudeiros de Dilma

Eles integravam a tropa de choque da ex-presidente e eram estrelas no PT. Hoje, mergulhados em denúncias, Mercadante, Erenice Guerra, Cardozo e Ricardo Berzoini fogem dos holofotes como o diabo da cruz

Onde foram parar os escudeiros  de Dilma
ALOIZIO MERCADANTE Aposentado, recebe R$ 15 mil e complementa a renda prestando consultorias sobre política educacional - JOSÉ EDUARDO CARDOZO Dedica-se a proferir palestras nos EUA, Inglaterra, Portugal e Espanha - ERENICE GUERRA Fechou o escritório de advocacia por falta de clientes e ainda não definiu o que vai fazer da vida - RICARDO BERZOINI Nos bastidores, trabalha para ser candidato em 2018 no Distrito Federal
Eles haviam alcançado o Olímpo político. Eram figuras do mais alto escalão na Esplanada dos Ministérios em Brasília e donos de trajetória ascendente no PT. Hoje, vivem no ostracismo. E, por ora, por mais contraditório que possa parecer, querem mesmo ficar por lá – de preferência longe das luzes da ribalta. Alvos da Lava Jato, Aloizio Mercadante, Ricardo Berzoini, José Eduardo Cardozo e Erenice Guerra tentam tocar suas vidas de forma reclusa, bem diferente de um passado recente, quando encarnavam os papéis de principais escudeiros da ex-presidente Dilma Rousseff.
Acusado de obstrução de Justiça e delatado por suposto caixa dois, o ex-ministro da Casa Civil, da Educação e da Ciência e Tecnologia Aloízio Mercadante pediu aposentadoria este ano. Recebe R$ 15 mil mensais como ex-senador, ex-deputado e professor da Unicamp. Para complementar a renda, se vira como consultor. “Ele está desenvolvendo uma consultoria sobre política educacional brasileira para um organismo multilateral”, confirmou sua assessoria. Em setembro, foi hostilizado em Portugal. Conhecido por seu temperamento difícil, o ex-senador foi vaiado e xingado de “ladrão” e “corrupto” no Aeroporto de Lisboa, por supostamente furar a fila do check-in. Ele nega.
Tal como o companheiro de partido, Berzoini, hostilizado recentemente num restaurante, só que sem furar o lugar de ninguém, também resolveu submergir. Neste caso, um recuo tático: o petista já trabalha com um olho nas eleições de 2018. Ex-deputado por São Paulo, ele mudou seu domicílio eleitoral para Brasília este ano. Petistas ouvidos por ISTOÉ garantem que ele é um dos cotados para ser candidato a deputado federal ou mesmo a governador do DF.
Funcionário de carreira do Banco do Brasil, Berzoini deixou de disputar as eleições de 2014 para ajudar na campanha de Dilma Rousseff. Agora, avaliam, seria a hora de o PT retribuir o esforço. Em Brasília, o ex-parlamentar disputaria o mesmo nicho de votos da sindicalista Érika Kokay (PT), uma das principais lideranças da legenda na cidade. Segundo Érika, ainda não há definição de nomes para a disputa de 2018. “Mas seria uma honra e um orgulho para o PT ter o ex-deputado Berzoini disputando qualquer cargo”, disse Érika.
O que representa um orgulho para o PT não necessariamente constitui um orgulho para a população. Berzoini foi duplamente delatado na Lava Jato. Em 2016, o executivo da Andrade Gutierrez Flávio Machado contou que Berzoini pediu 1% de propinas de todas as obras da empresa com o governo federal. Já o ex-presidente da OAS Leo Pinheiro envolveu Berzoini numa trama para enterrar a CPI da Petrobras, potencialmente constrangedora para o governo Dilma.
POSTURA ANUNCIADA

O serviço prestado por Berzoini certamente teria agradado a outro integrante da tropa de Dilma: o ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Linha de frente da ex-presidente deposta, hoje, Cardozo não aparenta estar preocupado com governos. Abandonou a política. Dedica-se somente à advocacia e à carreira acadêmica. É sócio de escritórios em São Paulo e Brasília, cidades onde leciona direito administrativo em instituições como a PUC-SP.
Em entrevista à ISTOÉ disse que se ocupa a proferir palestras nos EUA, Inglaterra, Portugal e Espanha. Assegurou que não pretende lançar-se em 2018. Rechaçou, contudo, que esteja no ostracismo. “Tive uma postura publicamente anunciada em relação a sair da vida pública, após muitos anos”, afirmou Cardozo.
Erenice Guerra não fez declaração pública de desistência da política. O que ela abandonou foi seu escritório de advocacia em Brasília. Desde que a Lava Jato irrompeu, seus negócios haviam minguado. Até que ela decidiu fechá-lo. Agora, também quer distância dos holofotes. A ex-ministra da Casa Civil é uma das investigadas no chamado inquérito do “quadrilhão” no Supremo. Sem cargo e sem perspectivas de reativar o trabalho de advogada, ela vai ter que dançar quadrilha em outras plagas.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Distúrbios em greve na Venezuela deixam dois mortos e nove feridos

Distúrbios em greve na Venezuela deixam dois mortos e nove feridos
Ativistas opositores durante protesto em Caracas, em 20 de julho de 2017 - AFP
Dois jovens – de 23 e 24 anos – morreram e outras nove pessoas ficaram feridas durante os protestos desta quinta-feira em meio à greve convocada pela oposição contra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua Assembleia Constituinte, informou a Procuradoria.
Uma das vítimas foi identificada como Ronney Tejera, 24, que participava de uma manifestação no bairro de Los Teques, em Caracas, quando foi “atingido por arma de fogo, ação que provocou sua morte imediata”, segundo a Procuradoria, que não identificou os responsáveis.
Na cidade de Valencia (norte), Andrés Uzcátegui, 23 anos, morreu durante “uma manifestação” na localidade de La Isabelica, em um confronto que deixou ainda seis feridos, segundo a Procuradoria.
Desde o início da atual onda de protestos contra Maduro, no dia 1º de abril, 99 pessoas morreram e milhares ficaram feridas.
Durante a greve desta quinta-feira, ocorreram confrontos entre manifestantes que bloqueavam as ruas com barricadas e as forças de segurança, que utilizaram bombas de gás lacrimogêneo e tiros de cartucho para dispersar os protestos.
Em Los Ruices (leste de Caracas), manifestantes atiraram pedras em funcionários do canal estatal de televisão VTV e queimaram uma cabine da polícia.
Também ocorreram confrontos nos subúrbios leste e oeste da capital, assim como nos Estados de Zulia (noroeste), Aragua (centro) e na Ilha Margarita.
Segundo Alfredo Romero, diretor da ONG Fórum Penal, a greve desta quinta-feira deixou ao menos 173 detidos em todo o país, mas principalmente em Caracas e nos Estados de Zulia e Nueva Esparta.
A paralisação de 24 horas começou às 6h locais (7h, horário de Brasília). Chamada de “hora zero” pela oposição, essa convocação intensifica as manifestações iniciadas em 1º de abril contra Maduro.
Animada pelos 7,6 milhões de votos do plebiscito simbólico que realizou no domingo passado (16) contra Maduro e contra sua Constituinte, a oposição convocou um cessar das atividades formais e informais, mas de forma ativa.
Várias ruas foram bloqueadas com barricadas e os ônibus não circularam em Caracas e em outras cidades importantes do país.
Dezenas de estabelecimentos comerciais fecharam suas portas hoje, e muitos trabalhadores tiveram de caminhar por várias quadras debaixo de chuva, especialmente no leste de Caracas, onde os protestos se concentraram. O metrô funcionou normalmente.
Mas no centro de Caracas e em bairros com forte presença de chavistas, como Catia (oeste), poucos aderiram à greve.
“Voltamos a triunfar, agora rumo ao domingo, 30 de julho, de vitória em vitória, moral máxima”, afirmou Maduro ao referir-se à data da eleição dos membros da Assembleia Constituinte contra a qual a greve foi convocada.
O presidente assegurou que as indústrias básicas e os setores petroleiro, energético e a administração pública trabalharam a 100%, e só reconheceu falhas no serviço de ônibus urbanos que, segundo ele, funcionaram a 90%.
“Eles que nunca trabalharam que fiquem sem trabalhar; nós vamos é em frente”, afirmou, durante um comício de campanha pela Constituinte transmitido pela televisão governamental VTV.
A greve contou com o apoio da cúpula empresarial, de câmaras de comércio e indústria, de parte dos sindicatos, de estudantes e funcionários dos transportes. Já o governo controla a estratégica indústria petroleira e o setor público, com quase três milhões de empregados.
“A Assembleia Constituinte é apenas uma maneira de disfarçar a transformação da Venezuela em um Estado comunista”, alertou o presidente da Fedecámaras, Carlos Larrazábal.
“Essa paralisação é um embate de forca entre um empresariado e uma população famélica e pauperizada e um governo também quebrado que controla os poucos recursos de um país petroleiro”, opinou o presidente do instituto Datanálisis, Luis Vicente León.
“São dias importantes para o governo entender que uma saída democrática e pacífica para a crise, para os trabalhadores, significa retirar a Constituinte”, declarou à AFP o líder sindical Froilán Barrios.
O líder opositor Henrique Capriles declarou que “o governo quer tapar o sol com um dedo, mas hoje parece (o feriado) 1º de janeiro em grande parte do país”.
“É uma queda de braço entre um empresariado e uma população famélica e pauperizada contra um governo também quebrado, mas que controla os poucos recursos” do país, opinou o analista Luis Vicente León.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Publicitário Marcos Valério fecha acordo de delação premiada com a PF

A Polícia Federal (PF) confirmou hoje (19) que o publicitário Marcos Valério assinou um acordo de delação premiada. Para ter validade, o acordo ainda precisa ser homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Os termos negociados estão sob sigilo, por envolver agentes políticos com foro privilegiado.
As negociações em torno de um acordo de delação premiada do publicitário vinham se arrastando desde o ano passado. Em junho de 2016, seus advogados apresentaram ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) uma proposta de colaboração para revelar informações relacionadas com a Ação Penal 536, do qual é um dos réus.
Marcos Valério
O publicitário Marcos Valério assinou acordo de colaboração com a PFAgencia Brasil/Arquivo
Nesta ação, é investigado o esquema que ficou conhecido como mensalão mineiro, que envolve benefícios ilegais obtidos com a participação de Valério para a campanha de Eduardo Azeredo ao governo de Minas Gerais em 1998. Um dos fundadores do PSDB e ex-presidente da legenda, Azeredo já foi condenado em primeira instância à pena de 20 anos e 10 meses de prisão. Ele entrou com recurso no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e aguarda o julgamento em liberdade.
De acordo com a PF, o acordo com Marcos Valério foi assinado no dia 6 de julho com base em uma vasta documentação. Devido ao sigilo, não foi informado se o acordo costurado está ligado somente aos delitos investigados na Ação Penal 536 ou se também envolve outros esquemas criminosos.
Atualmente, Marcos Valério cumpre pena de 37 anos pelos crimes julgados na Ação Penal 470, o processo do mensalão, no qual foram condenados políticos do PT, PMDB, PP, PTB e do extinto PL. Ele teria atuado como um operador dos esquemas e foi preso pelos crimes de corrupção ativa, peculato, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
Transferência prisional
Há dois dias, Marcos Valério foi transferido para a Associação de Proteção e Assistências ao Condenado (Apac), de Sete Lagoas, na região metropolitana de Belo Horizonte. Esta transferência era uma das reivindicações do publicitário para assinar o acordo de delação. Desde 2013, ele estava preso na Penitenciária Nelson Hungria, de Contagem, também na região metropolitana. Antes, ele também ficou um período no Presídio da Papuda, no Distrito Federal.
A transferência para a Apac foi determinada em decisão judicial assinada pelo juiz Wagner de Oliveira Cavalieri, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). Em seu despacho, ele explicou que atendeu um pedido da PF e mencionou que o acordo de colaboração premiada estava sendo concluído. O magistrado destacou ainda que Valério teve prioridade para a transferência de presídio por ter informações de interesse da Justiça e da sociedade brasileira. “Em que pese a existência de formalidades e fila para a transferência de presos para o sistema Apac, no caso em contento, o interesse público se sobrepõe aos interesses individuais”.
Com uma realidade distinta do sistema carcerário comum, a Apac possui uma metodologia de trabalho específica para permitir a recuperação e ressocialização do preso. Em um ambiente mais humanizado, eles têm assistência espiritual, social, médica, psicológica e jurídica prestada por voluntários da comunidade. Também são ofertados cursos educacionais e profissionalizantes.
Além da transferência de unidade prisional, Marcos Valério pleiteia a redução de suas penas. A Agência Brasil tentou contato com o advogado Jean Robert Kobayashi Júnior, responsável pelo pedido de Marcos Valério, mas seu celular estava desligado.
* Colaborou Felipe Pontes, repórter da Agência Brasil

quarta-feira, 19 de julho de 2017

E viva a folia!

Entre os principais eventos de música do País, o Fortal chega à 26ª edição com novidades. Além dos trios, um palco traz artistas locais entre os intervalos
No corredor da folia grandes nomes do cenário nacional da música com trios que trazem o melhor do axé, forró, sertanejo e funk ( Foto: Fernanda Siebra )
De amanhã até domingo (23), Fortaleza se transforma na capital da micareta indoor com a apresentação de três blocos por dia.
A folia começa com o Pirraça que destaca sucessos da dupla sertaneja Jorge e Mateus. No repertório, hits como "Se o Amor Tiver Lugar" e "Medida Certa".
Depois o Fortal inova com bloco Bagunça que promove uma mistura de ritmos. De um lado o swing contagiante do axé, do outro a batida envolvente do funk carioca com É o Tchan e MC Kevinho. No fim da noite, a atração mais esperada acontece no encontro dos trios do Vumbora com Bell Marques e seus filhos, Rafa e Pipo. Na sexta, Claudia Leitte comanda o Largadinho que destaca o hit "Taquitá". Seguida pelo bloco Eh Loco que traz Saulo com canções que passeiam do axé às letras mais calmas e emocionantes. E encerrando a noite Bell Marques é o anfitrião do Sirigüella.
No sábado (22) o bloco Eh Loco abre a noite, desta vez com a dupla Simone e Simaria e Gabriel Diniz. A segunda apresentação traz novamente Bell Marques no Sirigüella. Para encerrar a noite com muita alegria o "Rei da Folia", Durval Lélys, no Me Abraça. Na última volta a Banda Eva também sobe no trio.
No domingo, Bell faz sua última apresentação. Ivete Sangalo chega com o Coruja e para encerrar Wesley Safadão contagia com o "Vai Safadão".
Mais informações
Fortal
De 20 a 23 de julho, quinta-feira e sábado das às 20h, sexta-feira às 20h30 e domingo às 19h30. (3261.4050). www.fortal.com.br

Fortal 2017

Programação
Quinta (20/07)
20h - Pirraça
(Jorge e Mateus)
20h45 - Bagunça
(É o Tchan e MC Kevinho)
21h30 - Vumbora
(Bell, Rafa e Pipo Marques)
Sexta (21/07)
20h30 - Largadinho
(Claudia Leitte)
21h15 - Eh Loco
(Saulo)
22h - Sirigüella
(Bell Marques)
Sábado (22/07)
20h - Eh Loco (Simone e Simaria e Gabriel Diniz)
20h45 - Sirigüella
(Bell Marques)
21h30 - Me Abraça
(Durval Lélys/Banda Eva)
Domingo (23/07)
19h30 - Sirigüella
(Bell Marques)
20h15 - Coruja (Ivete Sangalo)
21h - Vai Safadão (Wesley Safadão)

terça-feira, 18 de julho de 2017

Deputados querem ‘distritão’ para garantir novo mandato

Esse modelo pode dificultar a renovação da Câmara e favorecer a permanência dos deputados que já estão no poder, por serem mais conhecidos

Deputados de PMDB, PSDB e ao menos oito partidos do centrão fizeram acordo para incluir na proposta de reforma política – a ser analisada em agosto na Câmara – artigo que cria o “distritão”. A informação foi divulgada na edição desta terça-feira do jornal O Estado de S.Paulo. Pelo sistema, seriam eleitos os candidatos mais votados em cada estado. Hoje, no sistema proporcional, soma-se o número de votos de todos os candidatos e na legenda e, a partir daí, define-se quantos assentos o partido terá direito – daí a importância dos candidatos que “puxam” votos, como Tiririca (PR-SP), que podem ajudar a eleger parlamentares com poucos eleitores.
A ideia é apresentar a sugestão de emenda durante as discussões do texto do relator da reforma política, Vicente Cândido (PT-SP). Como o petista sugere um sistema “transitório” para as eleições de 2018, os parlamentares articulam o “distritão” como sistema permanente.  A proposta foi tema de debate em uma reunião na casa do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), na quarta-feira passada. Estavam presentes parlamentares do Centrão, do PMDB, da oposição e do PT, que discorda da medida.
O “distritão” é visto pelos atuais deputados como forma de tentar assegurar a própria reeleição. Esse modelo pode dificultar a renovação da Câmara e favorecer a permanência dos deputados no poder, uma vez que eles são conhecidos por maior parcela do eleitorado pela participação em eleições passadas, visibilidade midiática e máquina administrativa, como acesso a emendas que garantem verbas para obras em redutos eleitorais.
A emenda será apresentada pelo deputado Miro Teixeira (Rede-RJ) e vai transformar os estados em distritos. O parlamentar, porém, negou que a proposta tenha a finalidade de garantir a renovação dos mandatos. “Isso quem vai decidir é o povo. O ‘distritão’ garante a representação das minorias.”
A bancada do PMDB deverá votar majoritariamente a favor desse sistema, segundo o jornal. “Há uma maioria na Câmara a favor da proposta, apenas existe uma discordância se o sistema deve ser transitório ou permanente”, afirmou o deputado Hildo Rocha (PMDB-MA), que não estava presente no encontro. “Só não há consenso porque a oposição é contra”, disse.
O sistema defendido por Cândido em relatório é o distrital misto. Pela regra, o eleitor votaria duas vezes: uma no candidato e outra no partido de preferência.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Cândido, o indecente

Arquiteto da "emenda Lula", o deputado Vicente Cândido sugere fundo público de campanha de R$ 5,9 bilhões.

O deputado Vicente Cândido (PT-SP) não faz jus ao sobrenome. De ingênuo só tem as asas que o levam a voar na criatividade malévola. É o relator da proposta de reforma política em tramitação na Câmara, cujo ponto central é a criação de um fundo público para financiamento de campanhas eleitorais a 0,5% da receita líquida da União. Coisa para R$5,9 bilhões, mantidas as previsões do ministério do Planejamento. Ao deputado _ note-se, com apoio da maioria dos líderes partidários _ não ocorre melhor ideia para reformar a política que não a de onerar o Orçamento pátrio. Assim: os partidos fazem besteira e o cidadão paga a conta.
Pois o mesmo deputado teve outra ideia: sugerir uma emenda constitucional proibindo a prisão de candidatos a eleições nos oito meses antecedentes ao pleito. Hoje essa proibição, excetuado o crime em flagrante, limita-se a 15 dias. A proposta tem intenção assumida pelo autor: impedir que políticos sejam presos ao longo da campanha, dentro os quais o seu chefe partidário, Luiz Inácio da Silva. Em princípio, seus colegas reagiram contra. Afinal, o tema posto assim com essa explicitação de defesa com endereço certo e por todos sabido, não cabe ao figurino oficial de defesa das investigações doa em quem doer.
Mas, nunca se sabe. Quando se tem alguém para assumir a defesa do indefensável, tudo é possível. Aprovada proposta de emenda constitucional, vários seriam os beneficiários. Inclusive os chamados criminosos comuns que poderiam se registrar como candidatos para conquistar imunidade. Uma espécie de foro privilegiado por via torta.

sábado, 15 de julho de 2017

Morte de Castello Branco em acidente aéreo faz 50 anos

Primeiro presidente do regime militar governou entre 1964 e 1967, em um período de grave crise econômica
Humberto Castello Branco
Antes da chegada dos militares ao poder, Humberto Castello Branco teve como maior destaque em sua carreira a participação na 2ª Guerra Mundial
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Avião em que o ex-presidente sofreu o desastre fatal está exposto em um espaço no 23º Batalhão de Caçadores, na av. 13 de Maio, no bairro Benfica, em Fortaleza
Na próxima terça (18), completam-se 50 anos da morte de Humberto de Alencar Castello Branco, primeiro presidente do regime militar (1964-1985).
O cearense voltava de uma viagem a Quixadá, onde visitou a amiga, a imortal escritora Rachel de Queiroz (1910-2003), primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, autora do romance "O Quinze".
A bordo de um avião bimotor, ele pediu ao piloto para sobrevoar a lagoa de sua infância, onde costumava brincar, a lagoa de Messejana. A alteração da rota prevista, a fim de atender ao desejo nostálgico do então ex-presidente, terminou em um acidente aéreo, como narra a biografia escrita pelo jornalista e escritor cearense Lira Neto, em 2004.
A aeronave foi atingida por um caça da FAB em voo teste e caiu em um terreno entre os bairros do Mondubim e Messejana.
"Castello ainda é muito reverenciado por sua dedicação integral às Forças Armadas, caráter forte e talento intelectual. Saiu do Ceará e teve uma trajetória brilhante", diz o general da reserva Júlio Lima Verde, hoje assessor para assuntos históricos e culturais do Exército.
O reconhecimento militar a Castello está em denominações oficiais de quartéis, além de nomes de instituições de ensino e vias de tráfego importantes. Por exemplo, o 23º Batalhão de Caçadores (BC), na avenida 13 de Maio, também é chamado de Batalhão Marechal Castello Branco, onde há um espaço em sua homenagem, com exibição de objetos históricos, com destaque para o avião do fatídico acidente. No quarteirão do Palácio da Abolição, na avenida Barão de Studart, fica seu mausoléu.
"Ele ganhou respeito na Segunda Guerra Mundial, passou 300 dias na Itália chefiando a seção de operações da 1ª divisão de infantaria da Força Expedicionária Brasileira (FEB), montando os planos de operações", destaca o general Lima Verde. Filho de pai militar, ele deixou o Ceará e foi estudar na Escola Militar de Porto Alegre (RS), onde se tornou alvo de trotes dos alunos. As descrições pejorativas eram frequentes também ao longo da carreira, segundo seu biógrafo.
"Ele se irritava demais com os apelidos que teve de colecionar ao longo de sua vida", citou Lira.
Rivalidade com Lacerda
Um dos seus maiores desafetos era o jornalista Carlos Lacerda, líder da UDN (partido de orientação conservadora), que publicava até ofensas pessoais.
Apesar disso, o biógrafo de Castello Branco relata que "nos anos de governo de Castello, em nenhum momento a imprensa foi censurada", relatou o biógrafo. Na presidência (1964-1967), ele enfrentou uma grave crise econômica, com inflação elevada. Também criou a Zona Franca de Manaus, que impulsionou o desenvolvimento da região.
Castello Branco também teve um papel na educação militar, comandando a escola de formação de oficiais.
"Ele construiu os alicerces, organizou a casa. Ele criou o Banco Central, a Polícia Federal, a Embratur, o FGTS e tantas outras coisas", lembrou o general.
Guerra fria
Sua biografia cita que Castello tinha a "ilusão de entregar o governo aos civis" após normalizar o cenário político, mas a situação saiu de seu controle, e o regime militar endureceu em seguida com medidas autoritárias.
O historiador Airton de Farias mencionou o contexto histórico enfrentada pela gestão de Castello na presidência. "O Castello vai ter um papel importante, mais legalista, no começo dos anos 1960, quando o jogo político no Brasil está cada vez mais radicalizado entre o governo de João Goulart, entre as esquerdas e grupos conservadores", disse Airton, citando o contexto da Guerra Fria, o embate entre capitalistas e comunistas. "Os militares conservadores viam João Goulart como um governo comunista e defendiam um regime de força", descreveu o historiador.
Castello também estudou nos EUA e na França no curso superior de guerra e tinha a reputação de ter lutado na Segunda Guerra Mundial. "O Exército brasileiro tinha forte ligação com os EUA. Não só com os EUA, mas também com a França, onde os militares brasileiros aprenderam técnicas de tortura usadas na guerra na Argélia", ressaltou.
"Você pega a história dos militares no Brasil e percebe que, desde o final do século XIX, após a Guerra do Paraguai, há duas posturas, duas visões: o militar profissional, que vai cumprir as ordens, independente de quem governa, e o chamado militar cidadão, mais ativo em termos políticos. Castello fez parte da geração de militares com atuação política, algo que marca toda sua trajetória", disse Airton.