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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Europa tem destino nas próprias mãos, responde Merkel a Trump

O presidente eleito dos Estados Unidos defendeu a saída do Reino Unido da União Europeia e criticou a política de refugiados alemã

Os europeus têm seu destino em suas próprias mãos, declarou nesta segunda-feira a chanceler alemã, Angela Merkel, em resposta às críticas do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. 
“Penso que nós europeus temos nosso destino em nossas próprias mãos. Vou continuar me comprometendo para que os 27 Estados membros [da União Europeia] trabalhem juntos olhando para o futuro”, declarou a chanceler durante coletiva de imprensa, ao ser questionada sobre o apoio de Trump à saída do Reino Unido do bloco e a sua especulação de que outros países seguirão o mesmo caminho.
Em uma entrevista ao jornal alemão Bild e ao britânico The Times, publicada no domingo, o presidente eleito classificou a política de acolhimento migratória da Alemanha como “um erro catastrófico” e afirmou que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) é “obsoleta” . Merkel, cujo país recebeu mais de um milhão de solicitantes de asilo desde 2015, respondeu ao comentário acusando Trump de misturar a abertura a refugiados com uma estratégia fraca contra o terrorismo.
“Quero separar [o terrorismo] da questão dos refugiados no que diz respeito à guerra na Síria”, disse Merkel, destacando que “a maioria dos sírios” fugiram “da guerra civil, dos combates contra [o presidente Bashar] Assad e da repressão” do governo. “Quando ele estiver no cargo, o que ainda não é o caso, trabalharemos naturalmente com o novo governo americano e veremos quais acordos encontraremos”, comentou a chanceler.
Na entrevista publicada na noite de domingo, Trump havia declarado que as consequências da acolhida de refugiados na Alemanha foram sentidas recentemente, em alusão ao atentado com um caminhão contra um mercado de Natal em Berlim em 19 de dezembro, que deixou 12 mortos e foi reivindicado pela organização terrorista Estado Islâmico (EI).

França

Em resposta às críticas de Trump sobre a UE e a OTAN, o presidente da França, François Hollande, comentou que a Europa “não precisa de opiniões externas para dizer o que tem que ser feito”. “A Europa sempre estará pronta para buscar cooperação transatlântica, mas vai determinar seu caminho com base em seus próprios interesses e valores”, disse Hollande, durante cerimônia de despedida do embaixador americano em Paris, Jane Hartley.

(Com AFP)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Doente, deputado usa verba pública para uma viagem a cada 4 dias

Aníbal Gomes emendou quatro meses de faltas sob o argumento de que sofre com dores nas costas. Longe da Câmara, viajou mais de 30 vezes com o 'cotão'

Conhecido no noticiário político-policial da Operação Lava-Jato, o deputado federal e réu no petrolão Aníbal Gomes (PMDB-CE) é uma figura praticamente invisível na Câmara dos Deputados. De 1995 para cá (está no sexto mandato), há apenas registros de cinco discursos de Gomes em plenário – o último aconteceu em 2004, para saudar a nomeação do então senador e hoje deputado Carlos Bezerra (PMDB-MT) ao cargo de presidente do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Nesta legislatura, o peemedebista não apresentou nenhum projeto e, ao longo de todo o ano de 2016, apenas compareceu ao Congresso a partir de setembro.
A baixa assiduidade, no entanto, não se repete quando se trata de desfrutar dos privilégios concedidos aos congressistas. Mesmo em meio a uma sequência de faltas, o deputado cearense exigiu, por meio da cota parlamentar, o reembolso de seus gastos. O “cotão”, como é informalmente chamado, tem a finalidade exclusiva de custear despesas com o mandato. O deputado cobrou, no ano passado, o reembolso de 182.877,78 reais. Apenas deixou de apresentar notas enquanto afastou-se formalmente do cargo, de maio a setembro, e seu suplente sentou na cadeira.
Até mesmo quando justificou ter dores na coluna para não comparecer à Câmara – ele faltou a simplesmente todas as 36 sessões realizadas entre o início de fevereiro e o final de abril com tal argumento -, o deputado desfrutou do dinheiro que deveria cobrir exclusivamente gastos decorrentes da atividade parlamentar.
Nesse período, Gomes fez mais de trinta viagens entre Fortaleza, sua base eleitoral, e Brasília, onde mora com a família. Ou seja: uma média de um voo a cada quatro dias. Todas as notas foram apresentadas à Casa e, em seguida, reembolsadas. Ao faltar às sessões nos primeiros quatro meses do ano, o congressista afirmou que estava em tratamento de saúde.
O site de VEJA pediu os atestados, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), com as motivações apresentadas por Gomes para justificar as sucessivas ausências na Câmara dos Deputados. O fornecimento dos dados, no entanto, foi negado sob o argumento de que informações relativas a procedimentos médicos são “expressamente” consideradas atos pessoais e, portanto, protegidas por sigilo. A Casa ressaltou, ainda, que as informações exigem “consentimento expresso” para serem repassadas.
Procurado, o deputado disse que apresentou atestados em “quase todas as faltas”. “Houve algumas que não [apresentei]”, admitiu. “A gente fica até com vergonha. É tão problemático que às vezes a gente prefere não ir para não estar lá atormentando os médicos. Mas quase todas estão justificadas”, completou. A ausência por questões de saúde é um dos poucos argumentos aceitos para evitar que haja corte de salário proporcional à quantidade de faltas.
O deputado afirmou ainda sentir fortes dores na coluna e já ter passado por duas cirurgias. “O fato de estar doente, em crise, e, portanto, não ir ao plenário, não quer dizer que dois ou três dias depois eu não esteja bom o suficiente para fazer uma viagem ao meu estado. E coluna é assim, meu amor: tem dia que eu não me levanto. Aí eu tomo um remédio, ligo para o médico, e dois dias depois estou andando”, disse, para justificar a rotina de faltas.
Em dezembro de 2016, o Supremo Tribunal Federal acolheu denúncia do Ministério Público que esmiuçou um pouco mais profundamente a atuação do parlamentar cearense. Aníbal Gomes tornou-se réu por corrupção (ativa e passiva) e lavagem de dinheiro. Ele é acusado de prometer pagamento de propina de 800.000 reais ao então diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa para permitir e facilitar as negociações entre a estatal e empresas de praticagem da Baixada Santista e de São Sebastião (SP). Gomes também é alvo de outra denúncia, ainda não analisada pelo Supremo, em que é acusado de receber propina no petrolão em nome do presidente do Senado, Renan Calheiros , (PMDB-AL), de quem é aliado.

sábado, 14 de janeiro de 2017

A nova safra de delações

Um segundo tempo de delações é esperado. A perspectiva de depoimentos de Leo Pinheiro (OAS), Antonio Palocci (ex-ministro) e Eduardo Cunha (ex-presidente da Câmara), assombram o ex-presidente Lula

A nova safra de delações
EDUARDO CUNHA NAVIOS SONDA O ex-deputado Eduardo Cunha pode detalhar o que fez com os US$ 5 milhões que ganhou na compra de navios-sonda pela Petrobras; LÉO PINHEIRO TRÍPLEX NO GUARUJÁ Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, pode contar como foi o negócio que fez com Lula no caso do triplex do Guarujá; OTÁVIO MARQUES DE AZEVEDO O RECALL DA ANDRADE O ex-presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Marques de Azevedo, pode explicar como foram as propinas de obras no Rodoanel; ANTONIO PALOCCI O CAIXA O ex-ministro Antonio Palocci pode falar sobre a contabilidade do dinheiro que recebia da Odebrecht e repassava para o PT e especialmente para Lula
O Supremo Tribunal Federal (STF) já está se preparando para receber uma nova leva de delações premiadas. O ex-presidente da OAS, Léo Pinheiro, o ex-ministro Antonio Palocci, e o ex-deputado Eduardo Cunha devem fazer delações e apavoram o ex-presidente Lula, que já é réu em cinco ações penais. Léo Pinheiro deve dar mais detalhes de como financiou bens privados de Lula, como o triplex do Guarujá. Já o ex-ministro Palocci deve contar sobre como ajudou a transferir para o ex-presidente dinheiro de propina que lhe foi repassado pela Odebrecht.
O ex-deputado Eduardo Cunha também assusta Lula, porque foi durante o governo petista que ele atuou em negócios com a Petrobras que lhe renderam milhões de reais em propinas, como na compra na Coréia de navios-sondas da Samsung. Nesses negócios, em 2008, Cunha ganhou mais de US$ 5 milhões em propinas, que acabaram depositadas na Suíça. Mas Cunha pode encrencar também seus amigos do PMDB, sobretudo ministros do governo Michel Temer, como o Moreira Franco (da secretaria de privatizações) e Eliseu Padilha (Casa Civil).
Além dessas explosivas delações, há também o recall que a delação dos 77 executivos da Odebrecht deve provocar. Juízes da equipe do ministro do STF, Teori Zawascki, que analisam os depoimentos de executivos da Odebrecht, constataram que será necessário que alguns delatores de outras empreiteiras, como da Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa, voltem a prestar novos depoimentos, para esclarecer fatos que vieram à público agora. Houve executivo que mentiu ou omitiu coisas agora reveladas pela Odebrecht.
OMISSÕES

Com a assinatura do acordo de delação premiada da Odebrecht e sua provável homologação pelo STF após a volta do recesso do Judiciário, os investigadores da Lava Jato vão se deparar com uma demanda reprimida de antigas e novas delações. No primeiro caso, delatores que não revelaram tudo que sabiam vão ter que prestar novos esclarecimentos sobre fatos omitidos em seus depoimentos e que podem lhe render problemas perante a Justiça. Em tese, essa omissão poderia significar o rompimento da delação, provocando a perda dos benefícios do acordo. Além desses, novos colaboradores em negociação com o Ministério Público Federal devem ajudar a desvendar as peças do quebra-cabeças de corrupção sistêmica que se apossou da Petrobras e outros órgãos públicos durante a gestão petista.
A expectativa dentro da Lava Jato é que executivos de duas empreiteiras, a Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa, façam os chamados “recall” em suas delações, porque os investigadores descobriram indícios de crimes que seus executivos não haviam contado anteriormente. Isso aconteceu principalmente por meio de novas delações premiadas. No caso da Andrade, o ex-presidente da empresa, Otávio Marques de Azevedo, deve prestar novo depoimento. Os procuradores querem saber detalhes de irregularidades em obras da gestão tucana de Minas Gerais, enquanto a Camargo deve contar fatos relacionados à construção do Rodoanel em São Paulo. Esses depoimentos ainda estão sob negociação com os procuradores, que querem uma justificativa factível para a omissão desses fatos, para definir se romperão os acordos ou se podem mantê-los.
SEGUNDA ONDA O ministro do STF, Teori Zawascki, comanda em fevereiro nova fase de delações que assombram os políticos
SEGUNDA ONDA O ministro do STF, Teori Zawascki, comanda em fevereiro nova fase de delações que assombram os políticos
Também o ex-senador Delcídio do Amaral (ex-PT-MS), que foi preso pela Lava Jato em novembro de 2015 e pouco tempo depois assinou uma delação, deve ser colocado contra a parede para esclarecer fatos que não revelou. Isso porque a delação da Odebrecht trouxe a público relatos de pagamentos de propina a Delcídio em troca da obtenção de sua ajuda na aprovação de medidas no Congresso Nacional que eram de interesse da empreiteira. Nada disso havia sido contado por Delcídio em sua delação, o que pode complicar a sua situação, já que o ex-senador só deixou a prisão depois de ter assinado o acordo. Hoje, ele vive uma espécie de retiro em sua fazenda, no interior do Mato Grosso do Sul.

AS OMISSÕES DOS DELATORES

O que os procuradores querem saber no recall das delações
Otávio Marques de Azevedo
O que já contou
– Pagou propina ao PT e PMDB por meio de doações oficiais por causa de obras do governo
O que falta contar
– Irregularidades em obras do governo de Minas Gerais, como a cidade administrativa
Gustavo da Costa Marques
O que já contou
– Ex-diretor da Camargo Corrêia admitiu participação em cartel na Petrobras e pagamento de propina para obter contratos
O que falta contar
– Irregularidades em obras do governo de São Paulo
Delcídio do Amaral
O que já contou
– Participou de trama para tentar obstruir a Lava Jato
O que falta contar
– Pagamentos de propina da Odebrecht para obter benefícios em medidas discutidas no Congresso

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Operação da PF mira ‘coiotes’ que levam brasileiros aos EUA

Cerca de trinta policiais cumprem sete mandados de busca e apreensão e cinco de prisão preventiva em Rondônia, Santa Catarina e Minas Gerais

A Polícia Federal deflagrou nesta sexta-feira a Operação Piratas do Caribe que tem como principal alvo a ramificação brasileira de uma organização criminosa de “coiotes” responsável por levar brasileiros ilegalmente para os Estados Unidos. Os investigadores também buscam por elementos que indiquem onde se encontram os doze brasileiros desaparecidos, em novembro de 2016, na região das Bahamas.
Cerca de trinta policiais federais cumprem sete mandados de busca e apreensão e cinco de prisão preventiva em Rondônia, Santa Catarina e Minas Gerais. As investigações começaram a partir do desaparecimento de um brasileiro que teria tentado entrar ilegalmente nos Estados Unidos, com auxílio de “coiotes”, que são agentes que ajudam na travessia ilegal de áreas de fronteira. Eles cobravam quantias de até 60 mil reais para intermediar o transporte ilegal via Bahamas.
Antes de sair do Brasil, os imigrantes ficavam em alguma cidade com aeroporto internacional de fácil acesso, aguardando a ordem de embarque para as Bahamas, que ocorria quando um determinado agente de imigração daquele país facilitava a entrada dos brasileiros.
Já nas Bahamas, os imigrantes aguardavam durante vários dias para embarcar para os Estados Unidos de barco.  Além dos riscos que envolvem a imigração ilegal para outros países, os “coiotes” escondiam os reais perigos envolvidos na travessia, como a passagem pela região do Triângulo da Bermudas, famosa pelo alto índice de tempestades, naufrágios e desaparecimento de embarcações e aeronaves.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

‘Vamos voltar a governar este país’, diz Lula em ato em Salvador

Em encontro com sem-terra, ex-presidente afirma que andará pelo Brasil para recuperar sua imagem e do PT e que espera que acusadores peçam desculpas

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quarta-feira em Salvador, durante encontro com militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que vai voltar a ser presidente da República“Se preparem, porque, se necessário, eu serei candidato. Se eu for candidato, é para a gente ganhar as eleições. Nós vamos voltar a governar este país”, disse a uma plateia que usava bonés vermelhos com a inscrição “Estamos com Lula” e gritavam “Brasil pra frente, Lula presidente”.
O petista também afirmou que espera receber desculpas daqueles que o acusam hoje por crimes de corrupção. “A única coisa que eu peço a Deus é que essas pessoas, quando chegarem à conclusão de que não tem nada contra mim, peçam desculpas”, afirmou.
Segundo ele, o ódio construído contra seu governo está prejudicando o Brasil. “Não é possível que o ódio que eles têm de mim faça com que prejudiquem o País”, afirmou no discurso, no qual também criticou a gestão de Michel Temer (PMDB).
“O que está acontecendo no Brasil é algo anormal. Esse país não pode sair da alegria, do otimismo e da esperança que estava para a desgraça que estamos vivendo hoje”, disse.
Ele acusou Temer de entregar a Petrobras a multinacionais e destruir todas as políticas de valorização nacional da empresa. Lula defendeu que o governo federal precisa voltar a fazer investimentos diretos e a bancar financiamentos a pequenos empresários e consumidores através dos bancos públicos.
O ex-presidente disse ainda que durante este ano vai andar pelo país para recuperar a imagem do PT e a sua própria imagem. Ele voltou a afirmar que a legenda está sendo criminalizada pela mídia e pela Justiça.
Lula é réu em cinco processos judiciais, sendo três deles no âmbito da Operação Lava-Jato – dois estão com o juiz Sergio Moro, alvo de constantes críticas do petista e de seus advogados, que o consideram parcial. O ex-presidente também é réu em ações decorrentes das operações Zelotes e Janus. Uma condenação em segunda instância pode torná-lo inelegível para 2018.
(Com Estadão Conteúdo)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Em despedida, Obama pede para americanos se engajarem

O primeiro presidente negro da história do país pediu aos americanos que se unam para lutar contra os desafios que ameaçam a democracia

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez um discurso de despedida na noite desta terça-feira, em Chicago, a poucos dias de deixar o cargo após oito anos de mandato. Durante quase uma hora de fala, Obama pediu aos americanos que se unam para lutar contra os desafios que ameaçam a democracia. Em um discurso emocionado transmitido para todo o país, ele alertou o povo americano que uma mudança nos rumos do país só ocorrem “quando as pessoas comuns se envolvem para exigi-la”. No próximo dia 20, Obama deixará a presidência dos Estados Unidos. O presidente eleito Donald Trump assumirá no seu lugar.
De acordo com o presidente, se não forem criadas oportunidades para todas as pessoas no país, a divisão e a insatisfação só vão ficar mais nítidas nos próximos anos, ameaçando a democracia.  Além disso, Obama apontou que a renda em 2016 nos EUA cresceu para todas as raças e faixas etárias, homens e mulheres. “Então, se vamos ser sérios sobre a questão racial, precisamos manter leis contra a discriminação – na contratação, na habitação, na educação e no sistema de justiça criminal.”
Obama também disse que seu país é atualmente “um lugar melhor e mais forte” do que quando ele chegou ao poder em 2009, e atribuiu esses avanços aos esforços do povo americano que confiou em sua mensagem de esperança e mudança há oito anos. “Vocês foram a mudança. Vocês responderam às esperanças do povo, e graças a vocês, em quase todas as medidas, os Estados Unidos são um lugar melhor e mais forte que quando começamos”, disse Obama, em seu último discurso como presidente, realizado diante de 20.000 pessoas em Chicago, cidade onde iniciou na política.
Lamento e autoelogio — Em uma mea culpa, o presidente, que deixará o cargo no próximo dia 20, reconheceu que o progresso durante sua presidência “não foi uniforme”, e que “às vezes parece que damos um passo atrás por cada dois passos adiante”, mas que seu país sempre se caracterizou por “andar para frente”. Mas, voltando a exaltar seu legado, ele disse que, se há oito anos tivesse prometido que o país “deixaria para trás uma grande recessão”, abriria “um novo capítulo com o povo cubano, encerraria o programa nuclear do Irã”, conseguiria a legalidade do casamento homoafetivo e reformaria o sistema de saúde, “teriam me falado que estaria sonhando demais”.
Racismo — O primeiro presidente negro dos EUA reconheceu que, apesar do caráter histórico que representou sua eleição, o racismo segue vivo no país e fica com “mais trabalho por fazer” para eliminar os preconceitos contra as minorias e imigrantes. “Depois da minha eleição, muito foi falado de um Estados Unidos pós-racial. Essa visão, embora bem intencionada, nunca foi realista. Porque o racismo continua sendo uma força potente e um fator de divisão em nossa sociedade”, admitiu Obama.
Faltando dez dias para que seu sucessor, Donald Trump, assuma o poder, Obama se comprometeu em garantir uma transferência de poder “pacífica”, para que o próximo governo “possa nos ajudar a enfrentar os muitos desafios que ainda teremos”. Apesar das diferenças entre suas ideias e as de Trump, Obama afirmou se sentir “ainda mais otimista sobre o país” que quando assumiu o poder, porque sabe que seu governo não apenas “ajudou muitos americanos, mas também inspirou” muitos outros, especialmente aos jovens.
“O futuro está em boas mãos”, disse Obama, ao classificar a nova geração como “altruísta, criativa e patriótica” e pediu para todos cidadãos serem “guardiões” da democracia, não somente quando houver eleições, mas “durante toda a vida”. Barack Obama terminou seu discurso com uma série de agradecimentos a sua família e sua equipe na Casa Branca, e prometeu seguir lutando por que acredita quando deixar o poder. “Yes, we can. Yes, we did” (“Sim, nós podemos. Sim, nós fizemos”), encerrou o presidente.
(Com agências EFE e Reuters)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A propina da propina

A Lava Jato descobriu que funcionários de confiança dos empreiteiros que pagavam propinas a agentes públicos desviavam dinheiro que deveria ter sido entregue aos políticos e acabaram depositando os recursos em suas próprias contas no exterior

A propina da propina
Poderia ser apenas uma história secular de Ali Babá e os 40 Ladrões, do livro “Mil e Uma Noites”. Mas a narrativa do ladrão que rouba ladrão acontece aos montes no Brasil e não é de hoje. A Operação Lava Jato trata de revelar mais um episódio no qual se escancara que a ganância dos corruptos não tem limites nem respeita regras.
Quando a Odebrecht criou o secreto Setor de Operações Estruturadas, escalou apenas executivos da mais alta confiança da família. Além de ser exigida discrição total desses profissionais, a tarefa consistia, como se sabe, em distribuir sistematicamente dinheiro de propinas a políticos no Brasil e no exterior como contrapartida a contratos com o poder público e a toda sorte de vantagens que os políticos poderiam lhes proporcionar. A ação era tão profissionalizada que contava até com um sistema de informática exclusivo para a prática, muito mais protegido contra vazamentos e invasões.
Mas se a preocupação dos donos da empresa estava em possíveis ameaças fora das paredes da companhia, eles se surpreenderam ao descobrir que estavam sendo roubados justamente por seus funcionários escolhidos a dedo, que se mostraram como raposas cuidando de um galinheiro.
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Roubo dentro de “casa”

A descoberta só foi possível depois que vieram à tona delações de operadores de propina do meio político e de ex-agentes da Petrobras ligados à arrecadação de dinheiro sujo. Os valores não batiam com os registrados nas planilhas do setor de operações estruturadas que, teoricamente, teriam sido retirados dos cofres empresariais para abastecer o sistema.
Presidente do conselho de administração da empreiteira, Emilio Odebrecht, que já presenciou as mais desavergonhadas práticas de corrupção do Brasil, conversou com um velho conhecido de seu círculo próximo. A esta fonte, ele relatou ter ficado absolutamente surpreso e decepcionado ao saber que estava sendo roubado dentro da própria “casa”, por gente de sua absoluta confiança e muito bem remunerada. O diálogo foi revelado pela coluna Brasil Confidencial, de ISTOÉ, há dois meses. Na terça-feira 3, investigadores da Lava Jato confirmaram que ao menos um dos executivos do departamento de propinas roubou a Odebrecht e depositou dinheiro em uma conta em Genebra, na Suíça. A informação surgiu com o vazamento conhecido como SwissLeaks, feito por um ex-funcionário do banco HSBC. Advogados da empreiteira discutem até ressarcimento à empresa, sob o inacreditável argumento de apropriação indébita da propina endereçada a outros corruptos.
Caça às raposas O procurador Rodrigo Janot quer saber como os executivos desviaram para suas contas as propinas que deveriam ser pagas aos políticos
CAÇA ÀS RAPOSAS O procurador Rodrigo Janot quer saber como os executivos desviaram para suas contas as propinas que deveriam ser pagas aos políticos
Essa constatação de que executivos roubaram as propinas, pode gerar um novo inquérito da Procuradoria-Geral da República, à cargo do procurador Rodrigo Janot A prática de bandido passando a perna em bandido, no entanto, não é nada nova. No Brasil, remonta aos tempos da Intendência das Minas, com superintendentes responsáveis por captar impostos sobre o ouro, como o quinto e a finta para a coroa portuguesa. A história relata que os portugueses reclamavam que seus funcionavam desviavam para os próprios bolsos parte dos tributos.
Desvios de propinas são antigos

Na história recente, o ex-deputado federal Valdemar da Costa Neto foi acusado de embolsar mais de R$ 10 milhões no esquema do mensalão. Mas parte deste dinheiro deveria ter sido repassado a membros do extinto PL (hoje PR), legenda que era presidida por ele na época. Valdemar disse que o dinheiro lhe foi repassado de caixa dois do PT, mas o STF não se comoveu e o condenou a 7 anos e dez meses de prisão. Ficou preso dois anos, mas agora está em liberdade. Obteve indulto.
Os exemplos não param por aí. O ex-ministro de Lula José Dirceu foi amplamente defendido pelos militantes petistas que acreditavam que os roubos praticados pelo ex-guerrilheiro haviam sido exclusivamente redirecionados para a causa do partido e para o projeto de manutenção do poder. Mas ao perceberem que na verdade ele afanou parte do roubo e meteu em sua própria conta, Dirceu perdeu o título de “guerreiro do povo brasileiro” e hoje está preso em Curitiba, esquecido pela esquerda.
O próprio ex-presidente Lula, segundo as investigações da Lava Jato, parece lançar mão de prática semelhante: aproveitar-se de esquema criminoso com as empreiteiras para obter benefício próprio. É acusado de receber favores de empreiteiros e, ao invés de usar o dinheiro para beneficar o partido, acabou usando os recursos para o enriquecimento próprio. Ele é réu em cinco ações criminais. O mesmo aconteceu com seu ex-ministro Antonio Palocci, que amealhou fortuna. Os investigadores da Lava Jato acreditam que ele tenha desviado mais de R$ 128 milhões no esquema do Petrolão. O ex-ministro da Fazenda de Lula também está preso em Curitiba preventivamente.
O dinheiro sumiu
Desvio no meio do caminho
No mensalão e na Lava Jato há inúmeras histórias de dinheiro que foi dado por empreiteiros a políticos, mas que não chegou ao seu destino. Em alguns casos, diretores das construtoras acabaram desviando os recursos no meio do caminho. Ao invés
de lambuzarem as mãos dos políticos, conforme estava acertado com os donos das empreiteiras, depositaram os valores no exterior em nome deles próprios
Prática antiga
No meio político, é comum que dirigentes partidários se encarreguem de arrecadar dinheiro para financiar atividades do partido que representam ou campanhas eleitorais de parlamentares e, ao final, o dinheiro apurado acaba não chegando aos cofres partidários
Cofre meio cheio, meio vazio
Tudo d epende da perspectiva. Para alguns, o cofre deveria estar cheio de dinheiro de propinas, mas o “tesoureiro” diz que está vazio. Policiais Federais contaram à IstoÉ que há casos em que o dirigente político recebeu uma fortuna da empreiteira (R$ 2 milhões, por exemplo), para distribuir aos membros de seu partido, mas o cidadão diz que só recebeu R$ 1 milhão, embolsando
R$ 1 milhão restante
Chama a polícia?
Houve situação em que o dirigente recebeu R$ 1 milhão, mas disse que o dinheiro não chegou às suas mãos e como trata-se de dinheiro “sujo”, de caixa 2, ninguém pode chamar a polícia
O dinheiro evaporou
Já houve casos em que o cidadão recebeu R$ 4 milhões, embolsou tudo e “sumiu” com o dinheiro. Por se tratar de caixa 2, também ninguém reclamou na Justiça
Os empreiteiros “enganados”

domingo, 8 de janeiro de 2017

A era do ódio

Crimes motivados por intolerância fazem cair a máscara da cordialidade do brasileiro. O que se vê é a face de uma nação com raiva, capaz de apoiar assassinatos, avessa ao diálogo e aberta ao confronto

A era do ódio
LUTO Enterro das vítimas do assassino que matou 12 pessoas na noite de Ano Novo, em Campinas
“…Não tenho medo de morrer ou ficar preso, na verdade já estou preso na angústia da injustiça, além do que eu preso, vou ter 3 alimentações completas, banho de sol, salário, não precisarei acordar cedo pra ir trabalhar, vou ter representantes dos direito humanos puxando meu saco, também não vou perder 5 meses do meu salário em impostos. No Brasil, crianças adquirem microcefalia e morrem por corrupção, homens babacas morrem e matam por futebol, policiais e bombeiros morrem dignamente pela profissão, jovens do bem (dois sexos) morrem por celulares, tênis, selfies e por ídolos, jornalistas morrem pelo amor à profissão, muitas pessoas pobres morrem no chão de hospitais para manter políticos na riqueza e poder! A justiça brasileira é igual ao Lewandowski, (um marginal que limpou a bunda com a constituição no dia que tirou outra vadia do poder) um lixo! Filho, não sou machista e não tenho raiva das mulheres (essas de boa índole, eu amo de coração, tanto é que me apaixonei por uma mulher maravilhosa, a Kátia). Tenho raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei vadia da penha…”
“O indivíduo que matou em Campinas deveria compartilhar essas opiniões na rede e receber apoio de  pessoas fracas e frustradas” Leandro Karnal, historiador, sobre Sidnei Ramis de Araújo (à esq., com o filho que ele também assassinou)
“O indivíduo que matou em Campinas deveria compartilhar essas opiniões na rede e receber apoio de  pessoas fracas e frustradas”
Leandro Karnal, historiador, sobre Sidnei Ramis de Araújo (à esq., com o filho que ele também assassinou)
A carta, que destila raiva e intolerância por diversos setores da sociedade, foi encontrada após a chacina ocorrida na noite de Ano Novo, em Campinas, no interior de São Paulo. Foi escrita por Sidnei Ramis de Araújo, de 46 anos, que executou 12 pessoas de uma mesma família, sendo nove mulheres. O filho de 8 anos a quem ele se dirige no texto também foi morto pelo pai. A justificativa para a matança que chocou o País foi o fato de Araújo estar impedido de conviver com o menino, após decisão da Justiça. Inconformado com a atitude da “vadia”, como chamava a ex-mulher, Isamara Filier, 41 anos, decidiu executá-la sumariamente, assim como todas as suas parentes presentes na celebração. Mais um crime de feminicídio, atitude apoiada por muitas pessoas nas redes sociais, como pode ser observado no quadro com comentários da pagina 64. Mas Araújo não vociferou apenas contra as mulheres. Critica ainda a legislação que pune homens que agridem companheiras, como se eles estivessem agindo corretamente, fala contra presos, defensores de direitos humanos e Judiciário, numa narrativa vertiginosa e carregada de ódio.
Uma semana antes, na noite do dia 25, o ambulante Luiz Carlos Ruas, conhecido como Índio, 54 anos, foi espancado até a morte dentro do metrô de São Paulo por Alipio dos Santos e Ricardo do Nascimento porque tentou defender uma travesti dos ataques dos dois. Poucos dias antes, Débora Soriano de Melo foi espancada e estuprada por Willy Gorayeb Liger em um bar na zona leste de São Paulo. Ele confessou tê-la matado com um taco de beisebol após uma discussão e está preso. Não há um único dia sem que um crime pavoroso ocorra no País. Mas apenas esses três relatados acima, ocorridos nas últimas semanas, mostram que o Brasil vive tempos de cólera.
Em algum momento do processo histórico brasileiro nos reconhecemos como o povo da cordialidade, da alegria, do samba. Mas essa construção social tem perdido força à medida que o discurso de ódio se prolifera, seja nas conversas no ônibus, nas mesas de bar ou nos comentários nas redes sociais. O que se vê são xingamentos, embates, críticas vazias, ironias e provocações. “A verdade é que somos uma sociedade extremamente violenta, são 50 a 60 mil homicídios por ano”, afirma a socióloga Wânia Pasinato, especialista em violência de gênero. “Além disso, aceitamos a violência em sua forma mais seletiva. 95% das vítimas são negros e jovens e 10% são mulheres.” Para o filósofo e professor de ética e filosofia política da Universidade de São Paulo, Renato Janine Ribeiro, entramos num estado de anomia, de falta de regras, em que a sociedade abre espaço para atitudes extremas. “Há uma propagação do ódio. Não passamos um dia sem um crime motivado por esse sentimento”, afirma.
A chacina em Campinas é carregada de misoginia. Antes de ser morta, a vítima havia feito cinco boletins de ocorrência contra o ex-marido por agressão e violência. A ironia é que, mesmo assim, a lei Maria da Penha, que ele critica em sua carta, não foi posta em prática, já que mesmo com tantas denúncias nenhum processo de investigação foi aberto contra ele. Em outro bárbaro crime de feminicídio também na noite de Ano Novo, em Minas Gerais, Renata Rodrigues Aureliano foi incendiada pelo ex-companheiro que exigia retomar o relacionamento. Diante da negativa, jogou gasolina nela e a incendiou na frente do filho de 9 anos. Renata morreu por falência múltipla de órgãos. A vítima também já havia registrado um boletim de ocorrência contra Jeferson Diego Caetano da Costa. Na quarta-feira 4, um homem de 43 anos foi detido em Jaboticabal (SP) depois de postar mensagens no Facebook dizendo que iria invadir o Fórum para matar duas juízas e uma promotora envolvidas em uma disputa judicial que ele travava com a ex-mulher pela guarda do filho. Nas mensagens, dizia repetir o que aconteceu em Campinas.
“Há uma guinada conservadora que reforça a intolerância”, afirma a socióloga Wânia Pasinato. Quando se tratam de crimes motivados por preconceito, há vários grupos sociais que são alvo, além das mulheres, como negros, gays e transexuais. “Isso acontece porque o ódio busca o que pareça mais fraco”, afirma o historiador e professor da Universidade Estadual de Campinas Leandro Karnal. Além disso, quando há uma parcela social que legitima essas ações, que culpa o outro pelos próprios problemas, o sentimento fica ainda mais perigoso. “O indivíduo que matou em Campinas deveria compartilhar essas opiniões na rede e receber apoio de outras pessoas também fracas e frustradas. Lentamente, ele percebeu que havia base para fazer algo.”
De onde vem a raiva?

Para a psicóloga Mafoane Odara, do Instituto Avon, o discurso do politicamente correto também pode estar travestido de violência. “Em uma pesquisa as pessoas dizem que só se pode acabar com o machismo pela educação, mas 50% dos homens e 33% das mulheres afirmam que jamais dariam uma boneca para o filho brincar.” Para mudar, é preciso afincar as políticas de segurança e de disseminação da tolerância e cobrar dos gestores públicos medidas adequadas e punições efetivas. Mas a mudança pode começar também nos pequenos universos individuais. Para Karnal, o ódio sempre vem acompanhado de sentimentos comuns a todos: medo, dor e frustração. A diferença é a capacidade de cada um em gerenciar limites. Ou desenvolvemos essa habilidade ou, parafraseando Gandhi, será olho por olho, e o Brasil acabará cego.
Ecos da intolerância
Os assustadores comentários em portais de notícias sobre a chacina em Campinas mostram que muitas pessoas compartilham do ódio
“É um discurso coerente de uma pessoa que foi levada ao limite.  Quem aqui pode afirmar que não faria o mesmo se tivesse seu filho tirado de si com uma acusação falsa de abuso?”
(Thiago S.)
“Esse cara foi movido pelo desespero. Talvez a mulher tenha feito o que é muito comum em finais de relacionamento: atacar a honra de um homem por meio de mentiras e fofocas. Essa história não tem um vilão só não.”  
(Ulysses N.)
“O nome desse desequilíbrio chama-se: injustiça. Está na hora de rever os direitos civis e de família.”
(Eduardo G.)
“Não se deve afrontar a honra de um homem!”
(Paulo S.)
“Enquanto o feminismo continuar incentivando as mulheres a se separarem, humilharem seus maridos e tirarem deles o que eles mais amam (seus filhos) continuarão sendo assassinadas. ”
(André A.)
“Se a mulher fosse submissa, andasse de burca e não tivesse pedido o divórcio, isso não teria acontecido.”
(Alex O.)
Denúncias e mortes
90 mil
queixas de violência contra mulher foram recebidas por mês pelo Ligue 180 em 2016. Houve um aumento de 52% em relação a 2015
133%
Foi o aumento no número de relatos de violência doméstica e familiar se comparados os dados do ano passado
11 mil
Boletins de ocorrência são registrados por mês somente no Estado de São Paulo
390
Mulheres são assassinadas por mês no Brasil, o equivalente a 13 por dia
Em 35,1%
dos casos de feminicídios, os agressores são parceiros ou ex-parceiros

sábado, 7 de janeiro de 2017

Os donos do crime

Quem são e como se organizam os chefes das facções criminosas que controlam os complexos penitenciários brasileiros e ameaçam levar uma guerra sangrenta para as ruas do País

Os donos do crime
Eles espalham terror, impõem sua lei nos presídios e têm poder semelhante aos grandes grupos de mafiosos. Ao longo dos últimos trinta anos, se tornaram conhecidos e temidos pela população brasileira. As facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) cresceram em importância não só nos estados onde surgiram, mas em todo o País. As atividades dos grupos, inicialmente concentradas nos complexos prisionais, venceram as muralhas das penitenciárias e ganharam as ruas em ações cinematográficas. Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, à frente do CV, e Marcos Willians Hermes Camacho, o Marcola, à frente do PCC, se tornaram homens procurados internacionalmente e ganharam notoriedade continental. Nem o mais pessimista especialista em segurança pública poderia prever tamanha expansão desse tipo de organização criminosa. Expansão esta que só tende a crescer, ancorada na omissão do Estado.
Na semana passada, o Brasil foi apresentado, de forma traumática, a mais uma representante desta seara podre da sociedade brasileira . A “Família do Norte”, conhecida pela sigla FDN, dominou o noticiário nacional e internacional depois de comandar a execução de 56 presos ligados ao PCC durante rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, no Amazonas (leia reportagem na página 56). Foi o maior massacre dentro de uma prisão desde 1992, quando a Casa de Detenção de São Paulo, conhecida como Carandiru, foi invadida durante uma briga e 111 detentos foram mortos. Em vídeo feito por um detento na parte interna do Compaj, entre corpos decapitados e muito sangue, vê-se uma bandeira da organização criminosa. “É FDN que comanda, porra!”, desafia o preso que empunha a flâmula, sem se preocupar em esconder o rosto.
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MISSÃO Bandeira do PCC pela paz não faz mais sentido; dinheiro é a força que move a facção
A FORÇA DA FACÇÃO

A FDN surgiu em 2006 da aliança entre dois ex-rivais do mundo do tráfico de Manaus. José Roberto Fernandes Barbosa, conhecido como “Compensa”, controlava a venda de drogas na região Oeste da cidade, enquanto Gelson Carnaúba, o “G”, dominava a região Sul. Presos, ambos cumpriram pena em presídios federais, onde tiveram contato com membros do CV e do PCC, e de lá voltaram determinados (ou orientados), segundo a Polícia Federal, a estruturarem uma operação nos moldes das facções do eixo Rio-São Paulo. Não demorou para o negócio decolar.
Em pouco tempo, a dupla dominou quase toda a rota “Solimões”, na região da fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, e passou a escoar grandes quantidades de cocaína para vender em Manaus, distribuir pelo Brasil e exportar para a Europa. Já em 2006, Barbosa aparece em vídeo durante sua própria festa de aniversário, organizada para mais de duzentos convidados, em um luxuoso buffet de Manaus. Durante os parabéns, é visto rodeado por amigos em cerimônia que lembra o beija-mão dos mafiosos italianos. Cada convidado que o abraça entrega uma joia de ouro – seja anel, pulseira, relógio ou colar. Sorridente, o criminoso bate palma e posa para foto. Também em 2006, Barbosa funda o “Compensão”, time de futebol que viria a se tornar uma das mais populares equipes amazonenses na categoria “amador”. Pesadamente financiado, o time foi campeão duas vezes em sua categoria e até hoje amedronta adversários, que dizem temer as ameaças que frequentemente vêm das arquibancadas.
Mesmo com a detenção de Barbosa, em setembro de 2009, a arrecadação da FDN continuou a crescer. Os negócios nessa época iam tão bem que os cerca de R$ 1 milhão em receita mensal passou a bancar não só a operação do grupo, mas também os honorários de um time de nove advogados dedicados exclusivamente ao bando. À época, Barbosa e seus comparsas já respondiam por crimes como evasão de divisas, tortura, sequestro, lavagem de dinheiro, homicídio, corrupção de autoridades, e tráfico internacional de drogas e armas. Mas foi a partir do momento em que Barbosa foi preso que a FDN deslanchou. Na cadeia, mas com mordomias (leia quadro), sem muito o que fazer e protegido por seus aliados, o traficante pôde se dedicar aos negócios. Foi com Barbosa detido que a facção colocou no ar seu sistema digital de compra e venda de drogas e de monitoramento das ruas do tráfico. Foi também nesse período que reformulou o processo de seleção de novos membros. Agora, os integrantes devem passar por uma rigorosa peneira com participação de filiados de vários escalões.
EX-ALIADOS CV e PCC já foram parceiros nos negócios e comandaram rebeliões pelo Brasil
EX-ALIADOS CV e PCC já foram parceiros nos negócios e comandaram rebeliões pelo Brasil
PROFISSIONAIS

Atualmente, a FDN é a terceira maior facção criminosa do País. O grupo nunca escondeu que, nesse esforço organizacional, suas inspirações foram o Comando Vermelho (CV) e, fundamentalmente, o Primeiro Comando da Capital (PCC), hoje seu maior rival. No Brasil, não há exemplo maior de estruturação e planejamento do crime do que o PCC. Criado em 1993 no Anexo da Casa de Custódia de Taubaté, a 130km de São Paulo, o grupo surgiu com estatuto próprio e missão clara: “combater a opressão dentro do sistema prisional paulista”. Os anos se passaram e a missão parece se resumir a ganhar dinheiro. A facção tem hoje mais de 22 mil membros espalhados por praticamente todos os estados do País (leia quadro). À frente da potência que virou o PCC está Marcos Willians Hermes Camacho, o Marcola. Preso por roubo a bancos desde 1999, ele comanda com mão de ferro a estrutura fortemente hierarquizada que é a facção.
Com Marcola, o PCC expandiu e diversificou seus negócios, tidos como muito dependentes do tráfico de drogas até o final dos anos 1990. Hoje, sabe-se que possui times de futebol na Zona Leste de São Paulo. Também é proprietário de companhias de ônibus, forma advogados e teria feito um prefeito na Grande São Paulo. É dono de uma refinaria clandestina em Boituva, no interior de São Paulo, que, durante anos, desviou óleo da Petrobras, o refinou e o revendeu em uma rede de postos de gasolina, também de sua propriedade. E ajuda a operacionalizar a ocupação de terras na região metropolitana de São Paulo para depois exigir 25% das habitações construídas nos terrenos invadidos. Os imóveis são mais tarde entregues às famílias de detentos que estão desamparados.
Hoje, estima-se que o PCC tenha uma receita anual bruta de cerca de R$ 300 milhões – o equivalente à operação de uma indústria como a Caloi, que fabrica bicicletas desde 1948. Muito do dinheiro foi reinvestido na facção. Parte, porém, ficou para o conforto de Marcola e família. A mulher do traficante, por exemplo, costuma ser levada para visitá-lo por um motorista particular a bordo de uma Toyota SW4, carro que não custa menos de R$ 150 mil. Já Marcola, vaidoso, esbanja com cremes e procedimentos de beleza. Recentemente, pediu à Justiça autorização para fazer um tratamento de botox dentro da cadeia. O pedido foi negado.
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EXPANSÃO E MEDO

Embora hoje menos poderoso do que foi nas décadas de 1980 e 1990, o Comando Vermelho (CV) ainda impõe respeito. Fundado no Rio de Janeiro, o grupo surgiu em 1973 e foi pioneiro entre as facções criminosas brasileiras. Sob a liderança de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, o CV dominou mais de 80% do tráfico da cidade e espalhou terror com roubos a banco e violência. Beira-Mar ganhou fama no Exterior graças à visibilidade do Rio de Janeiro e tentou dar início a um processo de diversificação dos negócios do grupo já na década de 1990 – antes, portanto, do PCC. A iniciativa, porém, foi interrompida por sua prisão, em 2001, na Colômbia. Desorganizada, a facção perdeu relevância. Hoje, porém, tenta crescer no País com alianças como a feita com a FDN.72
Entre especialistas de segurança pública, é sabido que organizações criminosas surgem e crescem onde o Estado não se faz presente. Hoje, as facções cresceram de tal forma que há quem argumente que já não faz mais sentido falar em “poder paralelo” quando se está referindo a elas, mas sim em “poder de fato”. Em São Paulo, sabe-se que coube ao PCC mediar o acordo que promete acabar com as brigas entre as torcidas organizadas. Com isso, o grupo espera aumentar o público nos jogos, lançar um time e faturar com a nova atividade. Ainda na capital paulista, sabe-se que o PCC também trabalha para acabar com as cracolândias. Para o grupo, a droga não é comercialmente viável.
O espaço ocupado por esses bandidos profissionalmente organizados só foi possível porque há um vácuo na política penitenciária do Estado. E ele permanecerá, e se estenderá, se não forem tomadas providências pelo poder público. A guerra que se anuncia a partir do ataque da semana passada não será curta. “A reação do PCC já começou”, diz o padre Valdir Silveira, coordenador nacional da Pastoral Carcerária da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). “Recebi ligações de familiares de presos que alertaram para o que está por vir”, afirma. Enquanto nada for feito, Beira-Mar, Marcola e Compensão continuarão apavorando o Brasil.
Quem é quem
Marcola – Marcos Willians Herbas Camacho
Líder do Primeiro Comando da Capital (PCC), Marcola, 48 anos, nasceu na Vila Yolanda, em Osasco (SP). Órfão de mãe, não conheceu o pai e já roubava aos 9 anos, no Centro de São Paulo. Sua primeira condenação foi em 1987 por assalto à mão armada. Só foi preso em 1999 por participar de dois roubos a banco e cumpre pena em presídio de segurança máxima em Presidente Venceslau
Fernandinho Beira-Mar – Luiz Fernando da Costa
Nascido em Duque de Caxias (RJ), Fernandinho Beira-Mar, 49, foi criado na favela Beira-Mar e é líder do Comando Vermelho (CV). Aos 20 anos, foi preso por furtar armas do Exército. Cumpriu pena, voltou à favela e tornou-se líder do tráfico. Para fugir da polícia, já se refugiou no Paraguai e se aliou às FARC. Foi preso em 2001 e cumpre pena de 200 anos em Porto Velho (RO) e
Zé Roberto da Compensa – José Roberto Fernandes Barbosa
Compensa, 44 anos, fundou a facção Família do Norte (FDN), de Manaus. Aos 12 anos iniciou a vida no crime e já foi preso quatro vezes. Compensa é o elo dos traficantes do Peru e da Colômbia com o Brasil. Já esteve preso em Porto Velho (RO) e Catanduvas (PR). Durante uma fuga, em 2013, matou dois comparsas que se aliaram ao PCC. Cumpre pena em Catanduvas (SC).
A trajetória das facções
Saiba quando surgiram, quantos membros possuem e quanto arrecadam anualmente as maiores facções do País
Primeiro Comando da Capital (PCC)
1993 é o ano em que a organização criminosa surgiu, no Centro de Reabilitação Penitenciária de Taubaté, no Vale do Paraíba
7 mil é a quantidade de integrantes do PCC em São Paulo
20 a 22 mil são os membros do grupo fora de São Paulo
R$ 300 milhões é quanto o PCC arrecada anualmente
Comando Vermelho (CV)
• 1979 foi ao ano em que o CV foi criado, na prisão Cândido Mendes, na Ilha Grande, em Angra dos Reis (RJ)
• 3 a 8 mil é a quantidade de integrantes no Rio de Janeiro
• 16 mil são os membros do grupo fora do estado fluminense
• R$ 57,6 milhões* é quanto o CV arrecada anualmente
Família do Norte (FDN)
2006 foi ao ano em que Gelson Carnaúba, o Mano G, e Zé Roberto Compensa, voltaram para Manaus após passarem um tempo cumprindo pena em presídios federais e decidiram criar a FDN para conter o PCC
200 mil é a quantidade de membros cadastrados em um sistema informatizado e com senhas
R$ 6-12 milhões é quanto arrecada anualmente

Marcola, Beira-Mar e Compensa têm vida diferente da de outros homens presos
LUXO Cela no Compeja era para visitas íntimas
Os líderes das três maiores facções do País são tratados de forma diferente nos presídios. E não é com mais rigidez, como se espera. Pelo contrário. Marcola, do PCC, pode receber, de suas visitas, creme hidratante, condicionador e outros produtos para cuidados pessoais. Normalmente, esses itens só podem ser entregues pelo correio e são revistados. Até o final do ano passado, Marcola tinha um dermatologista com quem fazia consultas. O médico chegou a pedir autorização para a aplicação de botox. O pedido foi negado. O chefe do PCC também pode receber visitas íntimas, vive em uma cela espaçosa sozinho e pode até pedir pizza. Em maio de 2015, Fernandinho Beira-Mar viajou de helicóptero de Porto Velho (RO) ao Rio de Janeiro para acompanhar um processo. Os gastos com o transporte e com os honorários ficaram em, pelo menos, R$ 120 mil. Ele recebe produtos para cuidados pessoais, visitas íntimas e até o ansiolítico Rivotril, para insônia. Zé Roberto Compensa também tem suas mordomias. De dentro da cela, tocou o time de futebol da FDN, tem direito a visitas íntimas, ônibus especial para transporte próprio e de parentes, tolerância acima da média na cadeia, além de vigilância praticamente inexistente.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

PCC já teria plano para se vingar de Família do Norte

O ponto de partida para a investigação é uma carta supostamente assinada pelo Comando Regional Norte do PCC

A Polícia Civil de São Paulo investiga se o Primeiro Comando da Capital (PCC) já teria repassado a “ordem” para que bandidos aliados se mobilizem para se vingar da facção criminosa Família do Norte (FDN), que matou 60 presos em penitenciárias do Amazonas.
O ponto de partida para a investigação é uma carta supostamente assinada pelo Comando Regional Norte do PCC, que circula em grupos de WhatsApp. Em um dos trechos, diz-se que “essa dita facção FDN será dizimada da face da terra”. Para isso, afirmam que contam com o apoio de bandidos do exterior e até de facções rivais.
A união dos criminosos seria porque a FDN, ao promover o massacre em Manaus, quebrou o “código de ética” do crime, que impõe uma suposta convivência com grupos rivais, pois a “meta” sempre foi “lutar contra o Estado e não contra nossos irmãos mesmo que de outras organizações fossem”.
Diz o texto: “Saibam que vocês (FDN) declaram guerra não só ao PCC, mas a todos aqueles que lutam contra o Estado corrupto brasileiro… Essa chacina foi uma declaração de guerra contra o tráfico de drogas de todo o Brasil. Uma facção sozinha não será capaz de destruir anos de aliança dos irmãos”. Os bandidos afirmam ainda que a guerra de facções travada nos morros, nas periferias, nas favelas, vai ganhar as ruas.
Na carta, os criminosos se mostram solidários às famílias das vítimas e dizem que vão providenciar indenização. Pedem também ajuda financeira dos demais integrantes da facção criminosa para complementar os valores. O texto acaba com a conhecida saudação do PCC “paz, justiça e liberdade”.
Força-tarefa
O Ministério Público Estadual do Amazonas formou uma força-tarefa com 12 promotores que vão acompanhar as investigações sobre o massacre de Manaus. As apurações vão desde descobrir quem são os responsáveis pela matança até as suspeitas de irregularidades e superfaturamento do sistema de terceirização da gestão prisional do Estado.
Segundo o presidente da Associação Amazonense do Ministério Público, promotor Reinaldo Alberto Nery de Lima, o grupo vai apurar pelo menos cinco frentes: a investigação do massacre, da conduta dos gestores, dos contratos das empresas prestadoras de serviços, situação dos presos provisórios e dos presídios do interior.
Ele disse que o Ministério Público, juntamente com as demais autoridades, está atento para eventuais desdobramentos no âmbito criminal por causa da chacina em Manaus. É investigada uma possível participação de integrantes do PCC em oito assassinatos registrados em dez horas na capital.
“A população fica assustada sem saber se é uma coincidência (as mortes) ou não. Mas o Ministério Público também vai acompanhar essa investigação”, afirmou.
Guerra
Para o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), as mortes em Manaus são uma consequência da guerra entre o PCC e o Comando Vermelho.
Segundo as investigações, as facções eram “parceiras” no tráfico de drogas, mas ao longo do ano passado aconteceram vários desentendimentos. Depois da morte do narcotraficante Jorge Rafaat, em junho, na fronteira com o Paraguai, houve o rompimento definitivo. O motivo é que o PCC não aceitou dividir com o CV o lucro do tráfico de drogas na fronteira daquele país.
Em outubro, 18 presos ligados ao PCC morreram em rebeliões em presídios de Roraima e Rondônia, que são dominados pela FDN, aliada do CV no tráfico de drogas na fronteira com a Bolívia.
Ainda segundo Gakiya, as investigações apuraram que o PCC, após as mortes de outubro, fez um mapeamento de presos de outras facções, principalmente do CV, que estão detidos em presídios paulistas. A suspeita é de que se vai articular uma represália em algum momento. Nessa guerra do tráfico, as investigações descobriram também que o PCC se aliou à facção Amigos dos Amigos (ADA), que domina o tráfico na favela da Rocinha, no Rio.
(Com Estadão Conteúdo)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Petrobras vende unidade no Chile por US$ 470 milhões

A operação é parte do plano de parcerias e desinvestimentos da Petrobras, que visa reduzir o endividamento da companhia

A Petrobras informou que concluiu nesta quarta-feira a operação de venda de 100% da Petrobras Chile Distribuición (PCD) para a Southern Cross Group. Com o negócio, aprovado em 22 de julho de 2016, a Petrobras terá entrada de caixa de 470 milhões de dólares (1,5 bilhão de reais), dos quais 90 milhões de dólares (290 milhões de reais) oriundos da distribuição de dividendos líquidos de impostos da PCD.

Os 380 milhões de dólares (1,22 bilhão de reais) restantes foram pagos nesta quarta-feira pela Southern Cross, segundo a companhia, que disse ainda que valor está sujeito a ajustes finais. A PCD é a companhia de distribuição de combustíveis da Petrobras no Chile e possui 279 postos de serviços, uma planta de lubrificantes, oito terminais de distribuição, operações em onze aeroportos e participação em duas empresas de logística.
A operação é parte do plano de parcerias e desinvestimentos 2015-2016 da Petrobras, que atingiu 13,6 bilhões de dólares (43,82 bilhões de reais) no biênio, em programa que visa reduzir o endividamento da companhia. A meta estipulada pela companhia era de se desfazer de 15,1 bilhões de dólares (48,65 bilhões de reais) em ativos no período.
(Com Reuters)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

EUA provocam ‘efeito dominó’ contra a Odebrecht

Após a publicação dos documentos pelo Departamento de Justiça dos EUA, oito países anunciaram que iriam investigar o grupo

A divulgação de documentos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos que detalham o pagamento de propinas pela Odebrecht em onze países, além do Brasil, provocou uma espécie de “efeito dominó” de sanções contra a empreiteira. Segundo as autoridades americanas, a construtora brasileira pagou 788 milhões de dólares (2,5 bilhões de reais) em propinas para representantes de governos em troca de contratos que lhe renderam lucro estimado em 2,6 bilhões de dólares (6 bilhões de reais).
Após a publicação dos documentos pelo EUA, oito países anunciaram que iriam investigar o grupo: México, Peru, Equador, Argentina, Colômbia, Guatemala, República Dominicana e Panamá. Na sequência, vieram sanções concretas. O Equador é o terceiro país a adotar medidas oficiais contra a empresa. Na terça-feira da semana passada, o Panamá anunciou que a empresa não poderia participar de novas licitações. No país, a Odebrecht teria pago 59 milhões de dólares (188 milhões de reais) em propina. Na última quarta, foi a vez de o Peru comunicar que a empresa brasileira ficava impedida de entrar em novas licitações.
Segundo pessoas próximas à empresa, as obras no exterior são consideradas um trunfo de curto prazo, uma vez que os contratos estão assinados e a maioria dos financiamentos, liberada. Garantem geração de caixa, enquanto o grupo ganha tempo para se organizar no Brasil, onde a situação é mais frágil.
As reações internacionais, porém, reforçam uma divisão interna sobre o futuro da Odebrecht. Alguns executivos temem pelo risco de insolvência se os negócios encolherem no exterior. A dívida do grupo beira 100 bilhões de reais. A maioria, porém, descarta o risco de um “efeito dominó” com perdas fatais, porque cada país vive uma realidade e há espaço para negociação com as autoridades locais. Na avaliação desses, o grupo sobrevive, ainda que menor. A empreiteira pode vender ativos e conta com o apoio dos bancos, que esperam receber de volta os financiamentos que concederam.
Procurada, a Odebrecht disse em nota que reafirma seu compromisso de colaborar com a Justiça. “A empresa está implantando as melhores práticas de compliance, baseadas na ética, transparência e integridade.”

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

STF determina quebra de sigilo telefônico de Gleisi Hoffmann

Um dos alvos da medida, publicitário diz a VEJA que presenciou pedido de dinheiro, na sede da Odebrecht, para a campanha da senadora

Enquanto o acordo de delação premiada da Odebrecht não é homologado pelo Supremo Tribunal Federal, a Operação Lava-Jato avança nas investigações sobre políticos que receberam propinas da empreiteira. Para apurar se a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) recebeu dinheiro sujo da construtora, a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu ao ministro Teori Zavascki, relator dos processos do petrolão na Corte, a quebra do sigilo telefônico da parlamentar. O pedido foi deferido no fim do ano passado.
Conforme VEJA revelou há dois meses, Gleisi é suspeita de figurar na lista do setor de propinas da Odebrecht com o apelido “Coxa”. A ex-ministra da Casa Civil teria recebido meio milhão de reais em  dinheiro vivo durante sua campanha para o governo do Paraná em 2014. Documentos encontrados pela Polícia Federal na sede da empreiteira relacionam o codinome “Coxa” a um número de telefone e a um endereço em São Paulo onde funciona a agência Sotaque Publicidade e Propaganda. O dono da linha telefônica é Bruno Martins Gonçalves Ferreira, ex-sócio da Sotaque, empresa que era administrada pelo marqueteiro Oliveiros Domingos Marques Neto, responsável pela campanha fracassada de Gleisi em 2014.
Procurado por VEJA, Bruno Martins Gonçalves esclareceu: “Caí de gaiato nessa história. Na verdade, o meu ex-sócio, Oliveiros Domingos, que estava cuidando da campanha da Gleisi em Curitiba, me pediu um favor: levar o Leones ( Dall’agnol, ex-chefe do gabinete de Gleisi Hoffmann) do aeroporto de Congonhas até o escritório da Odebrecht, em São Paulo. Na reunião que ocorreu na empresa e que acompanhei, foram pedidos recursos para a campanha da Gleisi, e o executivo da Odebrecht disse que iria ajudar. Não me lembro de terem discutido valores”. Bruno esclareceu, em depoimento prestado à Polícia Federal, que a reunião na sede da empreiteira foi conduzida por Fernando Migliaccio da Silva, executivo da empreiteira responsável pelo gerenciamento do departamento de propinas da companhia.
A quebra de sigilo telefônico, autorizada por Teori, também se estende a Bruno Martins Gonçalves, a Leones Dall’agnol e a Fernando Migliaccio, um dos 77 delatores da Odebrecht. O objetivo dos investigadores é conferir se os suspeitos se comunicaram entre si e depois provar, a partir de dados da localização dos celulares, que eles se reuniram na sede da Odebrecht.

Homem de confiança de Gleisi, Leones Dall’agnol integrou o conselho de administração dos Correios, presidido pelo ex-ministro das Comunicações Paulo Bernardo, marido da senadora petista. O ex-chefe de gabinete da senadora petista teria embolsado uma propina de 600 000 reais de contratos dos Correios, segundo delação do ex-vereador do PT Alexandre Romano, conhecido como Chambinho.
Em setembro, Gleisi e Paulo Bernardo se tornaram réus na Lava-Jato após o STF aceitar a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República que os acusa de terem praticado os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. De acordo com os investigadores, a senadora teria recebido 1 milhão de reais em propina da diretoria de abastecimento da Petrobras para a sua campanha eleitoral ao Senado em 2010. O casal nega as acusações.
Procurada por VEJA, a senadora Gleisi Hoffmann disse por meio de sua assessoria que desconhece as informações da investigação.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

‘Citei todos eles e todos eles estão aí’, diz delator dos anos 90

O pivô do escândalo conhecido como Anões do Orçamento fala pela primeira vez após 10 anos e diz que os corruptores de ontem são os mesmo de hoje

O economista José Carlos Alves dos Santos foi protagonista do maior  escândalo de corrupção no Congresso na década de 90. Em 1993, ele revelou que as grandes empreiteiras mantinham uma sociedade criminosa com deputados e senadores. No Congresso, uma CPI foi instalada para apurar o caso. Alves dos Santos confirmou as acusações e apontou Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS e Queiroz Galvão como integrantes do grupo que agia à margem das instituições, manipulando e desviando dinheiro público — algo, se não idêntico, muito semelhante ao que seria descoberto pela Operação Lava Jato 21 anos depois.
A VEJA, o responsável por revelar ao país o esquema de corrupção conhecido como Anões do Orçamento contou que os escândalos da década de 90 e o atual são realmente muito parecidos. Leia:
O senhor denunciou o esquema dos Anões do Orçamento. O que mudou passadas mais de duas décadas? 
Os lobistas e as empreiteiras estão aí. Eu citei todos eles, e todos eles continuam aí até hoje do mesmo jeito. Evidentemente tudo se aperfeiçoa, mas, em princípio, o esquema da La­va-Jato é basicamente igual: uma empreiteira dá dinheiro ao parlamentar. O parlamentar, então, vota a emenda, depois vai lutar pela liberação dos recursos junto ao ministério e ganha mais uma comissão.
Por que as denúncias daquela época ficaram por isso mesmo? 
A sociedade nunca tomou nenhuma atitude em relação à corrupção. O que está havendo agora é que o pessoal de Curitiba e o juiz Sergio Moro estão começando a agir. O próprio STF não agia contra a corrupção. Quantas denúncias foram apresentadas no escândalo dos Anões do Orçamento? Quantos foram processados? Cinco ou seis perderam o mandato por decisão do Congresso, que precisava entregar a cabeça de alguém para poder acalmar a sociedade. Há, inclusive, gente que foi denunciada por mim, que estava envolvida já naquela época e que agora aparece neste novo escândalo da Lava-Jato.
Quem? 
Não vou falar porque não quero botar lenha na fogueira, mas são pessoas deste governo e do governo anterior. Na época, eu falei de cerca de quarenta parlamentares. Alguns estão aí até hoje e em altos cargos da República. Tudo o que fiz, passei e sofri não serviu para nada. Não é muito estimulante, principalmente quando a gente vê os políticos que estão por aí controlando este país.
O senhor diria que ainda é um arquivo vivo? 
Já me pediram muito que escrevesse um livro. Recebi propostas também para filmes, mas não quero trazer mais polêmicas. Tenho anotações de quando fui preso pela primeira vez. Deixei algumas coisas anotadas porque tinha medo de que me matassem. São denúncias, dossiês de políticos do Congresso. Estão guardados com algumas pessoas — mas não vou dizer quem são. Isso foi o meu seguro, mas como o seguro morreu de velho…
Depois dos Anões do Orçamento, o país conheceu o mensalão e o petrolão, mas o Congresso parece inerte diante de denúncias. O Congresso é uma escola de corrupção? 
Com certeza é. Um deputado neófito, de primeiro mandato, do interior e que não sabe de nada, começa a ver um colega fazendo aquilo. Não acontece nada com o corrupto, e o novato aprende. Muita gente se corrompe por viver naquele ambiente. Eu digo inclusive por mim. Eu via isso dentro do Congresso e aprendi lá. Era como mariposa em torno da luz. Você está naquele ambiente e acaba convivendo com tudo. Como não há demissões, prisões nem condenações, as pessoas vão pensando que podem ir cada vez mais longe e que não vai acontecer nada com elas.
O senhor se considera o primeiro grande delator do país? 
Não. Na época foi um negócio espontâneo meu. Hoje a pessoa delata para poder levar vantagem. É combinado com advogado, todo o negócio é armado para diminuir uma pena. Na minha época não tinha nada disso. Mas considero que a delação é válida. É uma maneira de investigar: sacrifica-se a pena de um para poder pegar o resto e desmontar um esquema.
O senhor denunciou corruptos mas também admitiu ser um deles. Que fim levou a propina que recebeu de deputados? 
Eu tinha 1 milhão de dólares em casa e entreguei aos policiais.
Além de integrar o esquema de corrupção, o senhor ficou marcado também pela acusação de ter mandado matar sua mulher. 
Eu não matei a minha mulher. Fui para o júri achando que ia sair livre. Quando acabei condenado, fiquei arrasado, mas depois me levantei de novo. Não tinha nenhuma prova material contra mim, só os depoimentos dos dois homens que a mataram. Esses depoimentos estavam cheios de contradições. Hoje vou levando a minha vidinha. Nunca mais soube (dos assassinos). Hoje eu não tenho raiva de ninguém. Raiva não adianta nada, ódio não adianta nada.
O que o levou a virar evangélico e a pregar em cultos ao redor de Brasília? 
Eu me converti quando estava preso. Estava desesperado. O ambiente psicológico era pesado, tinha perdido a minha mulher e estava sem entender nada. Eu recebia Bíblias, livros de espiritismo e budismo e lia tudo o que me caía nas mãos. Antes, até ridicularizava quem andava com a Bíblia, mas, quando caí na necessidade e na angústia, vi que tudo isso ajuda muito. Quando estava preso e fui julgado, tive uma crise forte e pensei: “Eu me converti, eu estou bem, li a Bíblia, sou outro cara, mudei. Então não vou ser condenado”. Quando veio a condenação, foi uma paulada: “Meu Deus, por que isso?”.
Condenado por corrupção, o senhor dividiu uma ala da prisão com presos como Henrique Pizzolato e o ex-senador Luiz Estevão. Como era a rotina?
Normalmente as pessoas, quando vão presas, ficam muito angustiadas. O início é muito duro, mas a gente procura dar força, conversar, mostrar que é um período da vida. Montamos uma igreja lá dentro. Tinha um pastor, e fazíamos um culto. Fui para a ala da cadeia onde estavam os mensaleiros, o ex-senador Luiz Estevão e presos mais vulneráveis e que não tinham crime de sangue — boa parte era crime sexual —, e a gente sempre dava muita força a eles. Na camaradagem a conversa era sobre futebol. Eram todos gente boa, entre aspas. São todos seres humanos, como eu também. Era cada um cumprindo a sua pena, tendo as suas angústias. Não se pode fazer nada. O ser humano se adapta.
O senhor denunciaria tudo de novo? 
O “se” é muito difícil. Se eu fizesse isso, se eu fizesse aquilo… Não sei se faria diferente. As pessoas se afastaram. Ninguém queria ser visto comigo. Nunca mais fui ao Congresso, mas não me interessa. Consegui restabelecer minha vida e acho que estou vivendo bem.
Como o senhor gostaria de ser lembrado? Preferia que me esquecessem. Para que lembrar disso tudo depois de 25 anos?
Não quero aparecer mais. O que vou ganhar com isso? Todo mundo morre um dia. Eu já estou no lucro, com 75 anos. O que não quero é sofrer, morrer sofrendo, ficar na cama entrevado. Deixa eu levar minha vida tranquilo. Quero ficar quieto.