Livre da obrigação de transformar aliados em cabos eleitorais, presidenta promete que, agora, fará tudo do jeito dela, sem ficar refém da troca de favores políticos. Mas, antes, precisará tirar da frente pendências acumuladas nos últimos quatro anos
Josie Jeronimo (josie@istoe.com.br)
A imagem de
Dilma Rousseff segurando uma grossa cartilha nos debates eleitorais da
TV ilustra bem o método de gestão adotado por ela nos últimos três anos e
10 meses de mandato presidencial. Leal e metódica - como garante seu
mentor e padrinho político Luiz Inácio Lula da Silva - Dilma evitou
imprimir ao governo uma marca pessoal e seguiu o beabá dos primeiros
oito anos de administração petista. A adaptação da estratégia lulista,
porém, não deu certo. A presidente tentou tratar doenças diferentes com o
mesmo remédio. O resultado foi uma rebelião incontida da base aliada, o
fracasso da política econômica e reclamações da sociedade civil em
relação à qualidade dos serviços públicos. Conciliar soluções com os
pitacos de Lula e da cúpula petista foi tarefa impossível, por isso, na
reta final da disputa presidencial Dilma avisou: “em um segundo governo,
eu farei tudo do meu jeito.”

ESPELHO MEU
A "nova" Dilma refletida nas urnas quer qualificar a relação com os partidos aliados
Com um País dividido ao meio, sem as
amarras da reeleição e sem a obrigação de tratar aliados como futuros
cabos eleitorais, as negociações da presidenta com os partidos da base
serão diferentes. Dilma prometeu que não ficará refém da intensa rede de
troca de favores que tomou conta de seu governo nos dois últimos anos
de mandato. Para compor uma base fragmentada em dezenas de partidos
políticos, Dilma loteou a Esplanada. A nomeação sem critérios custou o
andamento do governo. Desconfiando dos políticos à frente das pastas,
Dilma centralizou a execução dos grandes programas na Presidência e
sobrecarregou sua Casa Civil.
Especialistas em administração pública
apontam que a concentração de poderes e a formação de uma Esplanada de
“figuração” comprometeram a qualidade da execução das obras e dos
serviços. “Quanto mais centralizado o governo, mais complicada é a
tomada de decisão. Os conhecedores de temas específicos que estão nas
pontas perdem poder e a qualidade dos serviços é reduzida”, explica a
coordenadora do Instituto Brasileiro de Educação em Gestão Pública
(Ibegesp), Márcia Walquíria Batista dos Santos.

PACTO CONTRA A CORRUPÇÃO
Para se reconciliar com a sociedade civil, Dilma terá de promover
um pacto contra os malfeitos e os desvios éticos
O novo mandato, com a cara de Dilma, terá
um segundo escalão mais bem cuidado, afirmam seus interlocutores mais
próximos. Mas o governo tem dificuldade em atrair para seus quadros
profissionais experientes e com boa reputação no mercado, pois a média
salarial dos cargos comissionados está abaixo dos valores pagos pela
iniciativa privada. A opção apontada por Dilma para melhorar a
qualificação no segundo escalão dos ministérios é pouco ortodoxa, em
termos políticos: ela diz que vai acionar “headhunters” para selecionar
os melhores cérebros já em exercício no serviço público, graças aos
disputados concursos.
Mas, diferentemente de Lula, o governo
Dilma tem má avaliação junto ao funcionalismo. A baixa popularidade com
os servidores federais ficou registrada na votação do PT no Distrito
Federal. A rejeição foi fruto de uma política equivocada de recomposição
salarial. O governo optou por conceder reajustes fracionados. Apenas as
categorias que capitanearam grandes greves ou tinham mais interlocução
junto ao governo foram beneficiadas. Para o próximo mandato, Dilma
promete um “pacote” de valorização do funcionalismo, com a realização de
novos concursos para substituir postos ocupados por comissionados.

A solução para controlar a pulverização de
interesses é convocar a sociedade a pressionar os parlamentares pela
aprovação de grandes reformas, como a mudanças no sistema eleitoral.
Dilma terá que contar com a população, só assim não será novamente
prisioneira do fisiologismo. Um grande pacto nacional pela transparência
e combate à corrupção é a única saída, pregam manifestos de grupos
apartidários como o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) e a
Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Em 2015, processos
resultantes da Operação Lava Jato devem atingir dezenas de autoridades
com foro privilegiado, entre eles, muitos dos parlamentares eleitos. “Se
o novo presidente não fizer o enfrentamento para votar reformas, a
situação política no Brasil vai ficar insustentável. A presidente
precisa priorizar a reforma política assim que assumir. Esses escândalos
que afundam o país no processo de corrupção estão todos vinculados ao
sistema de financiamento de campanhas”, afirma Jovita José Rosa,
diretora do MCCE.
Nos primeiros quatro anos, Dilma falhou na
missão de interligar o trabalho das pastas. Ela criou dois novos
ministérios, mas só deixou a estrutura do Estado mais onerosa e travada.
De acordo com a especialista em gestão pública, nas ciências da
administração existem duas grandes correntes que estudam mandatos. O
primeiro governo de Dilma pode ser classificado como administração
burocrática, em contraposição à administração gerencial. O segundo
modelo busca a eliminação de intermediários na execução de tarefas.
Assumir os erros e adotar medidas impopulares, esse será o mote dos
primeiros meses do novo governo.

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