
Eliane Oliveira, Helena Celestino e Sandra Cohen
Nestes sete meses em que o senhor está à frente do Itamaraty, qual a diferença entre a atual política externa e a do governo Lula?
ANTONIO PATRIOTA: Estamos trabalhando sob o signo da continuidade. Foi o que o eleitor brasileiro decidiu. O que nós realizamos é sobre uma base construída durante o governo Lula, e eu estive muito associado a ele nos últimos oito anos. Mas é claro que existem nuances e desafios colocados pela própria evolução da agenda internacional. O Brasil é um país que tem a capacidade de aliar realismo, pragmatismo e idealismo. No realismo, nós vemos a marca da presidenta Dilma quando ela recomenda e nos instrui a dar muita importância à cooperação em áreas que aumentem a competitividade industrial brasileira. E idealismo com a promoção da democracia e dos direitos humanos, do combate à fome e à pobreza, e de um sistema internacional que funcione.
A posição do Brasil em relação à Síria é realismo ou idealismo?
PATRIOTA: Uma combinação dos dois. Se não fosse a atuação de países como o Brasil, era possível que a paralisia do Conselho de Segurança tivesse perdurado. Havia duas posturas maximalistas que se neutralizavam mutuamente. Uma, no sentido de condenação, ameaça de sanções, das potências ocidentais; e a outra de recusa de deliberação sobre um assunto que chegou até a ser considerado exclusivamente de âmbito interno, que não ameaçaria a paz e a segurança internacional e, portanto, não seria legítimo o Conselho de Segurança votá-lo. Nós não subscrevemos essa postura, inclusive porque a instabilidade na Síria já está gerando fluxo de refugi

O senhor acha possível o diálogo, uma vez que a situação só tem se agravado?
PATRIOTA: A situação é muito complexa. Não existe clareza absoluta sobre quem é responsável pelo quê. Há pouca informação saindo da Síria, uma espécie de bloqueio jornalístico e de informação com o exterior. Segundo nossas fontes em Damasco, existe o reconhecimento de que há centenas de manifestantes armados. Outro elemento complexo é que não há um porta-voz da oposição, como entre os rebeldes na Líbia. O governo Assad tem adotado posturas absolutamente condenáveis. O Brasil votou a favor da condenação das violações. Mas também reconhece que, diferentemente do regime de Kadafi, o de Assad tem ao menos declarado a intenção de fazer reformas e estabelecer um diálogo nacional.
Quem irá participar, por parte do governo brasileiro, da missão do Ibas (grupo que inclui Brasil, Índia e África do Sul) à Síria nos próximos dias?
PATRIOTA: O subsecretário responsável pelo Oriente Médio, embaixador Paulo Cordeiro. A visita a Damasco não deve ser interpretada como qualquer legitimação das atitudes represessoras. É importante demonstrar o engajamento do Brasil na busca e no apoio às forças que possam levar a uma interrupção da violência e a progressos institucionais e políticos.
Em relação à Líbia, o Brasil vai reconhecer os rebeldes, como fizeram EUA, Reino Unido e França?
PATRIOTA: O Brasil é um país aberto ao diálogo. Uma minoria de países ocidentais reconheceu o CNT (Co

O Brasil chegou a estabelecer diálogo com os rebeldes?
PATRIOTA: Sim. Na verdade, nosso embaixador no Egito (Cesário Melantonio Neto) esteve com representantes dos rebeldes em Benghazi.
Desde que começaram os conflitos no Norte da África, o governo brasileiro manteve contatos com os presidentes da Síria e da Líbia?
PATRIOTA: Com Assad e Kadafi diretamente não, mas com seus representantes e representantes das oposições.
Diante disso, não estaria havendo um esvaziamento da ONU no cenário internacional?
PATRIOTA: De certa forma, eu poderia concordar em parte com essa análise que aponta para uma certa inoperância da ONU. O Conselho de Segurança não é feito para autorizar intervenções militares a torto e a direito. Costumo dizer que a primeira responsabilidade de um país, ou de um órgão, quando se trata da promoção da paz e da segurança internacional é não piorar uma situação. A timidez não deve ser condenada em si mesmo. Ela pode ser o caminho possível numa situação complexa. Se firmeza for equacionada com sanções, ações punitivas e intervenção militar, isso também será contraproducente.
Não faltou um apoio mais veemente dos EUA a uma vaga para o Brasil no Conselho de Segurança, assim como foi feito com Índia e Japão?
PATRIOTA: A manifestação do presidente Barack Obama, em sua visita ao Brasil, é um progresso importante. Eu consideraria como uma manifestação que contribui para avançar nossa proposta, que é a ampliação nas duas categorias de membros. O que os EUA estão dizendo, essencialmente, é que eles consideram legítimas as aspirações de Índia e Brasil.
Até quando o Brasil manterá tropas no Haiti?
PATRIOTA: O próximo relatório da ONU deve recomendar a re

O ex-presidente Lula tem feito um périplo em outros países. Como o Itamaraty vê essa diplomacia paralela e informal?
PATRIOTA: Eu não diria paralela, porque ela é coordenada com a política externa da presidenta Dilma Rousseff. Por exemplo, ela nomeou o ex-presidente Lula como seu enviado especial à cúpula da União Africana, na Guiné Equatorial. Outras iniciativas que ele possa tomar são sempre em coordenação com o Itamaraty, de uma forma muito transparente. Ele me telefona frequentemente. É uma atividade que reforça a presença internacional do Brasil. Hoje em dia há uma demanda enorme pelo Brasil no mundo inteiro. O fato de termos um ex-presidente que é respeitado e benquisto no mundo, viajando e contribuindo para atender essa demanda, é um trunfo.
E quanto ao assessor internacional da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia?
PATRIOTA: Considero-me um amigo do Marco Aurélio Garcia. Desenvolvemos uma interlocução baseada na confiança. Além do conhecimento acadêmico - é um professor de renome - ele tem uma vivência muito grande da organização política de toda a nossa vizinhança. Ele nos presta uma assessoria muito útil e também desempenha um papel com outros assessores internacionais ao redor do mundo.
Recentemente, a Comissão de Direitos Humanos da OEA pediu a suspensão do processo de construção da usina de Belo Monte, no Pará. O que aconteceu depois disso?
PATRIOTA: Tivemos uma reação muito forte, que despertou em muitos outros países um sentimento semelhante, desde a Venezuela à Colômbia, ao Peru e outros. Como consequência, na Assembleia Geral de El Salvador, decidiu-se fortalecer o sistema de defesa de direitos humanos, o que significa examinar as práticas, ver se não está havendo deslizes, derrapagens, pronunciamentos indevidos e precipitados, uma série de situações.
Qual é a contribuição que o senhor espera para a Defesa do novo ministro Celso Amorim?
PATRIOTA: Ele traz uma experiência extraordinária sobretudo na vertente internacional. Hoje em dia, o Ministério da Defesa tem uma grande importância nas operações de paz. Ele foi embaixador nas Nações Unidas, conhece muito bem a situação do Haiti. É um grande entusiasta da integração sul-americana, é um grande especialista e

Não vai ter muito cacique nessa área?
PATRIOTA: O que há é uma "cacica", a presidente Dilma, que tem grande capacidade de liderança, de articulação e que aprofunda os assuntos, que rege essa orquestra. É bom que tenha muitos virtuoses numa orquestra. A presidente é quem dá o tom.
Depois do vazamento dos telegramas do WikiLeaks, que tipo de precaução o senhor toma ao conversar com as autoridades americanas?
PATRIOTA: O WikiLeaks mostrou de forma muito eloquente a importância da confidencialidade em certas trocas de informação e a importância de uma certa disciplina por parte do diplomata. Equador e México retiraram embaixadores dos EUA em decorrência do WikiLeaks. Se um vazamento pode levar a um estremecimento dessa ordem, que depois cria um vácuo de comunicação, é relevante. Eu sempre tomei muito cuidado. Email com endereço coletivo, por exemplo, é sempre perigoso.
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