

Não foi a primeira e não será a única se a questão não for enfrentada com coragem. Se, ao longo de décadas, as autoridades não tivessem negligenciado a urgência da desocupação das áreas de risco no Rio, hoje não estaríamos lamentando a perda de tantas vidas. É preciso remover todos os moradores de encostas e beiradas de rios urgentemente. “Sabe por que essa remoção é urgente? Porque a qualquer momento podem ocorrer novos deslizamentos, devido a novas chuvas ou ao efeito retardado das chuvas que já caíram e infiltraram os terrenos”, alerta Leonardo Becker, engenheiro civil especializado em geotecnia e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).“Lixo e entulho nas encostas são um perigo, e nossas favelas têm essa característica”, disse o ex-presidente da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e professor de engenharia civil da PUC/RJ Alberto Sayão. “As áreas de risco já estão mapeadas. Só falta o governo remover quem vive nelas”, acrescenta. Segundo o vice-governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), “realizar as remoções é um enfrentamento que não é mole” porque esbarra, principalmente, em duas dificuldades: “a burocracia e a demagogia.” Ele diz que apenas a palavra “remoção” provoca arrepios em muita gente. Mas, para preservar vidas, é necessário superar um tabu que, ao que tudo indica, teria começado a partir das ações do governo de Carlos Lacerda, no início dos anos 1960, que retirou, na marra, os habitantes das favelas da zona sul e mandou-os para bem longe: a Cidade de Deus e Bangu. O problema é que essa população foi abandonada nas fronteiras urbanas, sem nenhuma infraestrutura, o que gerou comunidades ainda mais sofridas e violentas, como retrata o filme “Cidade de Deus”. A história ensina que remover, no sentido urbano, não é apenas tirar de um lugar e colocar em outro. “Ao longo dos anos, a missão da ocupação do solo urbano não foi tratada com a devida seriedade e nada justifica a incapacidade do poder público de impedir a construção em áreas de risco”, adverte o governador Sérgio Cabral. “É muita, muita, muita demagogia. De ONGs, de políticos, de gente que diz que defende os direitos humanos. Mas que direito? De morrer numa encosta?”, completa o vice Pezão. “Em três anos e três meses de governo Sérgio Cabral nós removemos 7.200 famílias, ou seja, mais de 30 mil pessoas.”
A desculpa usada por seguidos governos para explicar uma política absolutamente eleitoreira e permissiva é a resistência da população em abandonar um lugar que é próximo ao emprego, à escola e aos amigos. Segundo o presidente do Movimento Popular de Favelas, William de Oliveira, também ex-presidente da Associação dos Moradores da Rocinha, a maior favela do País, isso mudou. “Não dá mais para continuar contando mortos em tragédias. Sempre fui favorável à remoção, que agora rebatizamos de realocação.” Oliveira pede uma “política de habitação séria” e que o morador não seja transferido para lugares que inviabilizem o trabalho. “Se tiver que usar a força para tirar as pessoas de lugares condenados, que seja. Importante é que esteja viva”, disse. Na quinta-feira 8, o prefeito Eduardo Paes publicou no “Diário Oficial” um decreto declarando 158 áreas do Rio, afetadas por deslizamentos de terra, em situação de emergência. Isso significa que a Secretaria de Saúde e Defesa Civil passa a ter direito de entrar nas casas nestes locais, mesmo sem consentimento dos moradores, e retirar as famílias, à força, se necessário. “Se houver resistência, chama a polícia”, resumiu o prefeito. Paes anunciou que vai começar já a remover pelo menos dois mil dos 13 mil moradores que, segundo ele, vivem em áreas de risco na capital. E vai começar pelo

“meu filho, eu te amo”“Me tira daqui. Eu tô aqui, pai. Me tira daqui logo.” O apelo desesperado de Marcus Vinicius Vieira França da Mata, 8 anos, insiste em ecoar na cabeça dos parentes e dos bombeiros que tentaram resgatá-lo dos escombros no Morro dos Prazeres, em Santa Tereza, no Rio. Ele foi localizado com vida, na terça-feira, 6, mas as tentativas de salvamento tiveram que ser interrompidas às 18h30, devido a um novo deslizamento. Quando o trabalho recomeçou, no dia seguinte, Marcus já estava morto. A reação do pai, Vilmar França da Mata, ao vê-lo inerte e todo enlameado emocionou o País todo. Ele arrancou o frágil corpo dos braços do bombeiro e abraçou o filho, desesperado. E chorou. Chorou muito e convulsivamente. “Meu filho, eu te amo”, gritava.
Nesse momento, a prioridade é “salvar vidas.” Se alguém disser que as escolas municipais não são confortáveis para abrigar os que serão removidos, vai ouvir do prefeito um sonoro “Dane-se, pelo menos está seguro.” De acordo com o presidente da Federação das F

COMO SURGIRAM AS FAVELAS DO RIO -Poucos sabem, mas a origem das favelas tem vínculos até com a Guerra de Canudos, na Bahia. De volta ao Rio, em 1897, soldados que ficaram sem soldo chamaram de Morro da Favela a elevação na qual se instalaram de forma precária. O termo favela refere-se a uma planta abundante em Canudos. Aos poucos, “favela” passou a designar áreas similares às dos soldados. À época, outros morros do Rio já abrigavam escravos libertos. A grande ocupação, porém, começou cinco anos depois, quando a derrubada de 1.600 construções abriu espaço para as reformas urbanas do prefeito Pereira Passos. Expulsos de casa, muitos dos moradores desses casarios seguiram o rumo dos soldados e dos ex-escravos. Foi um caminho sem volta.
Na verdade, como disse a pesquisadora Suzana Pasternak no livro “Cidade (i)legal” (Mauad Editora), “o Estado burguês” se debate no dilema de defender a propriedade privada de um lado e cuidar do bem-estar da população, do outro. Para ela, a armadilha é a seguinte: “Primeiro, há a invasão, a ocupação coletiva de glebas ociosas” e, depois, “o governo é colocado perante o fato consumado.” E aí se vê obrigado a levar luz, água, saneamento, etc. Ou seja, acaba oficializando a invasão. Por isso, a política de remoção não termina com o reassentamento digno. “Tem que remover e impedir que elas voltem para as ant

Também são inaceitáveis as frequentes desculpas referentes à surpresa em relação às chuvas inesperadas, como vimos recentemente em Santa Catarina e em São Paulo. Dessa vez, segundo o Alerta Rio, instituto de meteorologia ligado à prefeitura, em 24 horas choveu no Rio quase o dobro do que estava previsto para o mês inteiro. Porém, o que mais é preciso para que as autoridades entendam que o padrão climático mudou no mundo inteiro devido ao aquecimento global? Já sabemos que o volume de chuvas num país tropical como o Brasil só tende a crescer e tragédias como as que se abateram sobre o Rio certamente irão se repetir em outras grandes cidades brasileiras, pois em todas elas o descaso com as ocupações das áreas de risco é semelhante. “As grandes cidades sofreram uma destruição ambiental violenta”, explica Agostinho Guerreiro, presidente do Conselho Regional de Arquitetura (Crea-RJ). A desgraça que atingiu o Rio, para ele, estava anunciada há tempos: “As chuvas acontecem todos os anos. E todos já sabem que os fenômenos climáticos estão mais graves devido ao aquecimento global.”Por fim, nunca é demais lembrar a união de forças para socorrer uma cidade em estado de calamidade, como está o Rio de Janeiro, sede da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016. Os governos estadual, municipal e federal deram as mãos para tomar atitudes rápidas.

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