
De um lado da disputa está o ministro de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, defensor da comissão. Do outro aparece seu colega Nelson Jobim, da Defesa, avesso à ideia.
Vannuchi argumenta que a comissão seria uma resposta aos anseios das famílias de pessoas torturadas e mortas nos anos da ditadura. Muitas não conseguiram até hoje localizar os corpos dos parentes. Na visão de Jobim, porém, ela traria o risco de animar espíritos revanchistas e criar atritos desnecessários com as Forças Armadas.

As divergências vão além. Vannuchi acredita que uma comissão com amplos poderes pode recuperar arquivos em poder de militares e elucidar casos de desaparecimentos. Jobim aceita as declarações de chefes militares de que esses arquivos não existem mais. Teriam sido todos destruídos.
Vannuchi acha que os responsáveis pelas torturas, mortes e desaparecimento de corpos ainda podem ser punidos. Argumenta, escorado em declarações e acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário, que crimes de violação de direitos humanos, de lesa-humanidade, não prescrevem.
No sentido contrário, Jobim, que é jurista e já presidiu o Supremo Tribunal Federal (STF), advoga que a Lei da Anistia envolveu não só perseguidos políticos, mas também acusados. O objetivo da lei de mão dupla, segundo tal interpretação, teria sido sobretudo o de reconciliar o País.
"Não sou revisionista", já disse o ministro da Defesa. "Não temos legitimidade para rever o acordo político de 1979."
No moment

NEGOCIAÇÃO
Espera-se que os dois ministros se reúnam nos próximos dias para tentar um acordo. Vannuchi já deu sinais de que estaria disposto a mudar o nome da comissão, retirando a palavra justiça. Ficaria apenas Comissão da Verdade.
A mudança iria além do nome. Na prática, os integrantes da comissão evitariam adentrar a área judicial, concentrando-se na busca de informações para esclarecer fatos da época.
Vannuchi diz que não se deve esperar que a comissão tenha caráter judicial nem acreditar que possa ser dominada por algum espírito de revanchismo. "Busca-se sobretudo o reconhecimento pleno do que ocorreu", afirma.
A margem de negociação de Jobim é mais estreita. Sabe-se que aceitaria no máximo a criação de uma Comissão de Reconciliação.
PRESSÕES
Diante do impasse, a decisão deve ficar para o presidente Lula. A data prevista para o anúncio do Plano Nacional de Direitos Humanos, o terceiro desde 1991, está cada vez mais próxima e as pressões dos grupos interessados na questão aumentam.
Vannuchi é um petista histórico. Antes da redemocratização militou na esquerda, participou de uma organização que defendia a resistência armada, foi preso e torturado. Um parente dele, Alexandre Vannuchi Leme, morreu nas mãos da polícia política. Não seria exato, porém, afirmar que defende suas posições baseado exclusivamente em convicções pessoais. No caso da comissão, é empurrado também pelo dever de ofício.
A decisão de incluir a comissão no Plano Nacional não partiu de Vannuchi, mas da Conferência Nacional de Direitos Humanos, realizada em dezembro do ano passado. Foram

Outro fator que empurra Vannuchi vem do exterior. É cada vez maior a pressão internacional para que o Brasil conclua o processo de restauração democrática, com o esclarecimento de fatos do período - para evitar a repetição de ciclos de violência.
À frente da pasta de Direitos Humanos ele vem enfrentando críticas de grupos de familiares de mortos e desaparecidos. Neste ano o motivo foi não ter conseguido frear Jobim no caso da expedição enviada ao Pará, em busca de corpos dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia.
Os familiares queriam que a expedição ficasse sob controle civil, vinculada à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos. Não achavam correto que os militares, inimigos dos guerrilheiros no passado, comandassem as buscas. Mas foi o que ocorreu, após Jobim vencer uma queda de braço com Vannuchi.
Indignada, a presidente do grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, Cecília Coimbra, chegou a dizer que as buscas não passavam de encenação para a mídia.O temor agora é de que se crie uma comissão sem força, apenas para dar uma resposta às organizações internacionais de direitos humanos.
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