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quarta-feira, 11 de julho de 2012

BC reduz Selic para 8% ao ano, menor patamar da história


Em linha com a opinião dos analistas ouvidos pelo site de VEJA, Copom baixa juros básicos do país em 0,5 ponto porcentual

Naiara Infante Bertão
Os diretores do Banco Central, Altamir Lopes e Carlos Hamilton, e o presidente da instituição, Alexandre Tombini
Copom, presidido por Alexandre Tombini (à frente), reduz Selic pela oitava vez (Antonio Cruz/Agência Brasil)
Se para este ano cenário esperado é de queda da Selic, economistas já alertam que, no ano que vem, as perspectivas mudam completamente. 
Diante da ausência de sinais claros de que o Produto Interno Bruto (PIB) responde às medidas adotadas desde pelo governo para acelerar a atividade econômica, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou a redução da taxa básica de juros (Selic) pela oitava vez consecutiva. Com a decisão desta quarta-feira, a Selic cai 0,5 ponto porcentual (p.p.), passando de 8,5% ao ano para 8% ao ano – o menor patamar já visto no país. A decisão vem em linha com as expectativas de economistas ouvidos pelo site de VEJA.
Em comunicado enviado ao mecado, o comitê destacou que, neste momento, permanecem limitados os riscos para a trajetória da inflação. Ressaltou ainda que a fragilidade da economia global tem implicado um efeito "desinflacionário" nos preços vigentes no país. Com isso, os diretores optaram por dar prosseguimento ao afrouxamento da política monetária. A redução da Selic para 8% ao ano foi unânime e sem viés. Na última decisão, os diretores do BC haviam cortado os juros básicos em 0,5 p.p. 
Na ata da reunião de 30 de maio, que antecedeu a finalizada hoje, o Copom já havia sinalizado que acompanharia os movimentos externos para decidir o que fazer com os juros, deixando a 'porta aberta' para novos cortes. O órgão, no entanto, fez a ressalva de que qualquer movimento seria feito com parcimônia, sinalizando quedas graduais.
Rafael Bacciotti, analista da Tendências Consultoria, explica que o corte de juros em 0,5 p.p. fundamenta-se na piora do cenário internacional, visto que as incertezas, principalmente com a Europa, permanecem altas. Ele apontou também o fato de a recuperação da atividade doméstica estar distante da esperada e, por fim, a inflação mais comedida no país. Estes três fatores, na avaliação dele, dão tranquilidade para o BC dar continuidade ao ciclo de afrouxamento monetário.
Para a Tendências, este não será o último corte do ano. Bacciotti acredita que o ciclo deve se encerrar apenas em agosto, quando as taxas de juros devem chegar a 7,5% ao ano. Pedro Paulo Silveira, economista da TOV Corretora, é um pouco mais destemido na análise. “O mais provável é que ocorram mais reduções de juros nas próximas reuniões. Trabalho com cortes para até 7%, isto é, mais duas vezes de 0,5 ponto porcentual”, diz. 
André Perfeito, economista-chefe da Gradual Corretora, defende que o atual momento não é de "pudores monetaristas". Ele defende que o BC terá de ser ousado e jogar a Selic para além do que o mercado acredita ser razoável. “Caso contrário ele só estará perdendo tempo”, dispara. “O Copom tem a urgência e a responsabilidade de evitar a obstrução ainda maior do canal de investimentos por conta de expectativas ruins”, acrescenta o analista, em referência à reticência do empresariado em investir no mercado interno. Na opinião dele, a Selic deve encerrar 2012 em 7% ao ano. Pontua, contudo, que poderia ser mais. “Para ter o efeito necessário nos parece adequado ousadia, ou seja, 6% o mais rápido possível”, destaca.
Dados ruins – Esta quarta-feira foi marcada por indicadores que comprovam o mau momento do Brasil. O índice de vendas do varejo de maio, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), apontou queda mensal de 0,8% – a maior desde novembro 2008, quando se deu o estouro da crise financeira internacional e as vendas recuaram 1,3%. O número supreendeu negativamente o mercado, pois o varejo era o setor de melhor performance na economia em 2012. A inadimplência, por sua vez, subiu 19% no primeiro semestre ante os primeiros seis meses do ano passado, conforme divulgação da Serasa Experian.
Na semana passada, o IBGE revelou que a produção industrial recuou 0,9% em maio ante o mês anterior, o terceiro resultado negativo consecutivo neste tipo de comparação. Já o índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo mesmo instituto, acumula altas de 2,32% no ano e de 4,92% em doze meses até junho – número menor que os 4,99% registrados em maio, na mesma base de comparação. A desaceleração da alta dos preços é, em parte, reflexo da perda de ritmo da economia e abre espaço para juros mais módicos.
Para contornar a crise econômica, o Palácio do Planalto já anunciou, desde o início do ano, várias medidas, entre elas a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de eletrodomésticos, móveis e carros. Divulgou também um pacote de compras governamentais para ajudar setores retraídos. O anúncio desta quarta-feira do menor juro básico da história do país pode ser entendido como uma continuidade desta política.
Pessimismo – Os analistas ouvidos pelo site de VEJA, contudo, são céticos de que a presidente Dilma Rousseff e sua equipe conseguirão salvar o PIB nacional de uma performance pífia neste ano. Como pano de fundo, a Europa segue submersa em dificuldades financeiras, crescente endividamento, dúvidas sobre a força do euro e dificuldade de melhorar as contas públicas. Os Estados Unidos recuperam-se mais lentamente do que o previsto. A China – maior esperança do Brasil, por ser seu principal parceiro comercial – está desacelerando a olhos vistos. No Brasil, os empresários pisam no freio dos investimentos enquanto aguardam maior clareza do cenário internacional. O problema, disse o gerente de política econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, na semana passada, é que a produção não avança justamente por conta disso. "Se conseguirmos alavancar os investimentos, reverteremos situação no segundo semestre, com mais otimismo e com mudança de expectativa. O ano que vem pode ser ano de crescimento mais forte, desde que o investimento mostre vigor mais forte do que agora", considerou. Este cenário complexo, na visão dos economistas, reduz a eficácia das medidas do Planalto.
De olho em 2013 – Se para este ano o mercado prevê um PIB de, no máximo, 2,05% e novas quedas da Selic, alguns economistas já alertam que as projeções mudam completamente para o ano que vem. A expectativa para 2013 é de um quadro inflacionário com maiores riscos, o que deve levar o Copom a iniciar um novo ciclo de alta de juros. Economistas afirmam que esta e, sobretudo, as próximas três reuniões deste ano – 28/29 de agosto, 9/10 de outubro e 27/28 de novembro – começam a focar o cenário de 2013, dada a defasagem dos impactos da política monetária na economia.
Rafael Bacciotti, da Tendências Consultoria, elenca três fatores principais a adicionar risco ao quadro inflacionário do próximo ano. O primeiro é o aumento de preços administrados, especialmente por não se tratar de um ano de eleições e com possíveis reajustes de transporte público. Além disso, o cenário internacional não deve ser fator de forte contenção da inflação como tem sido em 2012. Por fim, a alta dos preços dos serviços deve se sustentar em patamares mais elevados do que a inflação cheia – um reflexo de um mercado de trabalho ainda positivo e da atividade econômica mais forte em 2013. Tudo isso num momento em que o PIB conviverá com taxas de juros reais em patamares historicamente reduzidos.
Alerta – Em seu relatório trimestral, o banco BNP Paribas alerta que, em algum momento do ano que vem, o governo pode ser, inclusive, obrigado a adotar medidas para desacelerar o crescimento, além de retomar a trajetória de alta da taxa básica de juros para 9%. Suas projeções apontam para um Produto Interno Bruto de 2% em 2012 e IPCA a 5,2%. 
Sérgio Vale, economista da MB Associados, concorda com o banco francês sobre o aumento da Selic em 2013, mas ressalta que, desta vez, a escalada de juros será menos intensa do que vimos nos últimos anos. “Talvez não precisando chegar a dois dígitos, o que será, de fato, uma mudança estrutural importante para a economia brasileira”, afirma. Em sua visão, o próximo passo será a queda gradual da meta de inflação do país. "O patamar de 4,5% é um absurdamente elevado sob qualquer padrão e terá de ser discutido em algum momento nos próximos anos”, aponta.
Para o economista, a conjuntura externa também deve prosseguir sob o olhar atento do Banco Central. Em sua opinião, a crise internacional permanecerá por um bom tempo com risco de piorar e, provavelmente, o banco se apegará a esse argumento para justificar novas quedas, com Selic testando o patamar de até 6,5% neste ano.

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