
Que providências foram tomadas para evitar mais violência relacionada às eleições?
Somos encarregados de manter a estabilidade e a segurança no país. É claro que temos um planejamento e providências para toda ordem de manifestações, mas temos completo discernimento sobre o que é uma manifestação política e o que é um ato de violência que poderá trazer consequências indesejáveis. Por exemplo: você pode até queimar um pneu na rua, mas não pode explodir um posto de gasolina. É preciso ter uma perspectiva correta do que é um ato de maior violência contra as Nações Unidas, ou contra o próprio país, e o que são manifestações de desagrado com o processo político.
O senhor citou a hostilidade que as tropas enfrentam. Os militares brasileiros têm maior facilidade de atuar, dada a paixão dos haitianos pelo Brasil?
Sim. O Brasil é muito querido aqui, e isso facilita, e muito, o trabalho das tropas brasileiras quando saem pelas ruas. Não se pode esperar que alguém goste de uma tropa estrangeira em seu país. Mas as instruções que são dadas a nossos soldados, a forma como eles têm se portado, a contribuição que têm dado ao país tem sido muito grande, e as pessoas entendem que milhares foram salvos. Milhões de quilos de alimentos, barracas, medicamentos... e não estou errado em dizer milhões: foram mais de 10 toneladas de material que o Brasil mandou para cá para o atendimento à crise do terremoto, e nossos soldados participaram da distribuição, foram às ruas entregar. Isso traz uma aceitação. Além disso, todo soldado é treinado para dialogar com as pessoas, entender quais são os problemas... não há a intenção de se chegar impondo tudo. Há muita troca de conhecimento entre a tropa e a população.
Em que estágio está o treinamento da polícia haitian

Tem melhorado muito. A polícia nacional do Haiti tem apenas 15 anos, é muito recente. E foi reconstruída a partir de 2004. A polícia da ONU veio junto com a missão e uma de suas atribuições é treinar os haitianos. Tem melhorado muito a qualidade da polícia, e, como consequência, o respeito da população com a polícia. É claro que ainda há muito a fazer. O efetivo está em 8.500 pessoas, e deve chegar a 14 mil.
O contingente militar brasileiro deve mudar neste ano?
Trabalhamos com o desencadeamento dos eventos. Temos ainda o segundo turno da eleição, a passagem do poder para o governo legítimo... Quando ele assumir, teremos uma avaliação se as tropas devem ou não diminuir. É natural que, se você tem um governo legítimo aceito pela população, com projetos em estágio avançado de implantação, há que se esperar mais estabilidade, e pode-se propor a diminuição das tropas, que seria o natural, a partir do fim de 2011. Mas, se não houver melhoria das condições, seguiremos o que for decidido na renovação do mandato da Minustah, em outubro, pelo Conselho de Segurança da ONU.
Com a maior estabilidade e muita necessidade por reconstrução, existe a previsão de se ampliar as tropas de engenharia do Exército?
Não. Mas, se houver redução de tropa, será reduzida primeiro a infantaria, e não a engenharia, que ajuda em diversos trabalhos de reconstrução do Haiti. Aqui aconteceu de tudo. Furacões, terremotos, enchentes, doenças, e estávamos presentes em todos. E eu posso afirmar pessoalmente para todas as famílias auxiliadas: “Foram nossos soldados que salvaram a sua filha, a sua mãe”. As pessoas humildes sabem disso. Agora, existe todo tipo de complicadores. As pessoas criticam a lenta retirada dos escombros, mas enfrentamos barreiras relacionadas até mesmo à propriedade do material. Você começa a recolher e alguém chega dizendo: “Ei! Esse ferro é meu”. É complicado.
Eleição
Segundo turno é adiado
O segundo turno das eleições presidencial e legislativa, previsto para ontem no Haiti foi adiado, informou o Conselho Eleitoral Provisório (CEP). “O dia 16 de janeiro constava do planejamento do calendário eleitoral. No entanto, como os resultados definitivos do primeiro turno ainda não foram proclamados, a data não será respeitada.”, declarou o diretor-geral do CEP, Pierre-Louis Opont.

Um grupo de 12 candidatos à Presidência exigiu a anulação do pleito de 28 de novembro. Para tentar acalmar os ânimos, o atual presidente do país, René Préval, chegou a convocar a missão da Organização de Estados Americanos (OEA) para avaliar o questionado processo eleitoral, mas o governo ainda não divulgou o resultado dessa análise.
A missão da OEA, segundo foi apurado, teria recomendado em seu diagnóstico que o candidato do governo, Jude Célestin, que ficou em segundo lugar, de acordo com a apuração oficial, se retire da disputa em benefício do cantor Michel Martelly.
“Baby Doc”
O ex-presidente haitiano Jean-Claude Duvalier (1971-1986), derrubado do poder por uma revolta popular, viajou ontem para o Haiti. Com 59 anos, o ex-ditador, cujo apelido é “Baby Doc”, vive em exílio na França há 25 anos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário