No centro das investigações sobre os tentáculos da máfia de Cachoeira, a empreiteira detém contrato para obras em rodovia de Roraima desde 2010

Segundo o TCU, para aumentar o valor do contrato, a Delta teria elaborado projeto básico com “deficiências”, como a aquisição de equipamentos com logística mais onerosa, tipo diferente de areia e preços incorretos no material utilizado para a produção de asfalto. A construtora venceu, em 2010, licitação no valor de mais de 117 milhões de reais para reestruturação e manutenção do trecho da rodovia que liga o igarapé Arruda, em Roraima, até a divisa do estado com o Amazonas. As irregularidades envolviam os valores apresentados pela Delta e outras três empresas (Via Engenharia S.A., Consórcios Seabra Caleffi e CMT Engenharia Ltda) para a apresentação do projeto básico e a celebração de contrato para a obra. Ao todo, o sobrepreço nos contratos da obra, abrangendo as quatro empresas, alcançava quase 25 milhões de reais. A assessoria de imprensa do Tribunal informou que, após a auditoria, as empresas solicitaram mais prazo para apresentar respostas sobre os indícios de fraude e que os documentos ainda estão em análise pelos técnicos do TCU, sem determinação conclusiva. De acordo com o diretor do Departamento Estadual de Infraestrutura de Transporte (Deit) de Roraima, Edilson Damião, os indícios de sobrepreço já foram sanados.
“Nós já havíamos verificado o que apontou o TCU e a CGU [Controladoria Geral da União]. Foi realizada revisão no projeto executivo de toda a obra, ou seja, esses indícios já foram sanados. Agora estamos aguardando a aprovação do Dnit para fechar o projeto dentro de 30 a 40 dias”. Relatório do TCU informou que o prazo de conclusão das obras era dezembro de 2011, mas com os problemas, o serviço deve ser concluído, segundo Damião, apenas no final deste ano ou no início de 2013.
Contratos milionários - Ainda segundo o Contas Abertas, entre janeiro de 2011 e 20 de abril de 2012, a companhia recebeu 1,1 bilhão de reais da administração federa. Desse valor, 56,5 milhões de reais se referem a contratos com dispensa de licitação firmados com o Ministério dos Transportes (MT) através do Departamento Nacional de Infraestrutura (Dnit). Os repasses são referentes a “obras emergenciais” e conservação de rodovias nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste. Dentro dessa natureza de contratações – sem concorrência – por parte do governo federal, destacam-se 15,4 milhões de reais pagos à empresa no Rio de Janeiro para “manutenção de trechos rodoviários”, após as enchentes que destruíram parte do estado.
Segundo o Dnit, o maior contrato nessa modalidade firmado com a empreiteira é de 33 milhões de reais, para a recuperação da BR-495 entre Teresópolis e Itaipava, no estado do Rio. A região foi uma das mais afetadas pelas fortes chuvas do período. Em 2012, o maior repasse de recursos, de 1,9 milhão de reais, foi destinado às divisas de Pernambuco com os estados da Paraíba e Alagoas. O montante serviu para a adequação de trechos rodoviários na BR-101. Dentre as empresas que receberam recursos federais para realizar esse tipo de obra em 2011, a Delta foi a recordista, faturando a cifra de 29,4 milhões de reais.
Ligação com a máfia - Segundo a Polícia Federal, a empreiteira de Fernando Cavendish usou os tentáculos do contraventor Carlos Cachoeira – preso por comandar um esquema ilegal de jogos – para corromper autoridades nos governos de Tocantins, Distrito Federal e Goiás. A ação da empresa não parou por ai: o esquema atuou também no âmbito federal, usando o mesmo método de subornar políticos e servidores públicos para obter contratos. A PF sustenta que recursos públicos oriundos da parceria entre a Delta e Carlinhos Cachoeira alimentaram um duto que serviu para irrigar o bolso de políticos e autoridades que os ajudavam na conquista de contratos. Entre 2010 e 2011, empresas-fantasma criadas por Cachoeira receberam da Delta nada menos que 40 milhões de reais.
Na gestão petista, o faturamento da companhia com o governo federal saltou 1.653%, como mostra a edição de VEJA desta semana. A empresa se tornou a principal construtora do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Agora, a queda que se prenuncia pode ser ainda mais rápida do que o crescimento anormal. Ninguém está disposto a poupar a Delta na CPI do Cachoeira no Congresso. Nesta segunda-feira, até o líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto (SP), reconheceu: é inevitável que a comissão investigue a construtora. "Tem que investigar. Ainda mais depois de tudo que saiu na imprensa", disse.
CPI - A Delta tornou-se, portanto, um dos principais alvos da CPI que vai investigar a ligação de Cachoeira com políticos no país. Na tarde de quarta-feira, o engenheiro Carlos Alberto Verdini, novo presidente do Conselho de Administração da empreiteira, foi ao Senado nesta para entregar documentos à CPI. A posição da empresa é de se colocar à disposição para que se apure o caso a fundo, disse Verdini, em uma chegada tumultuada ao Congresso, diante de um grande grupo de profissionais da imprensa. A nota destaca que Verdini pertence aos quadros da Delta desde 2003.
Enquanto caminhava pelos salões do Congresso em direção à presidência do Senado, Verdini evitou comentar a prisão do ex-diretor da Delta, Cláudio Abreu, e o afastamento temporário de Fernando Cavendish e Carlos Pacheco da cúpula da empresa. Verdini está agora ocupando o cargo de Cavendish. "Temos de preservar nossos 35 mil colaboradores e a continuidade de uma empresa de meio século", se limitou a dizer. Assessores da Delta divulgaram um comunicado de duas páginas com 11 pontos. No documento, a empresa "lamenta" episódios ligados a Cachoeira envolvendo seus funcionários. "Foi determinada a realização de uma ampla auditoria nos assentamentos da empresa para averiguar todas as práticas de responsabilidade da diretoria do Centro-Oeste. O objetivo é o de verificar, com base nos dados imediatamente disponíveis à empresa, em que extensão essas ações foram executadas, burlando os procedimentos de controle praticados na companhia", diz um dos pontos.
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